CONDUTTORE DE TURIM

  • por Raniery Medeiros
  • 7 Anos atrás

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Era uma vez, em Brescia (Itália), um garoto que mudaria o conceito do que é, deliberadamente, um autêntico maestro no futebol.

Tão cedo já impressionava com o seu estilo clássico de bater na bola. Nunca passou a imagem/soberba de protagonista. Porém, nunca antes pude perceber um personagem secundário com tamanha importância. Seu jeito de controlar a gorducha nos dá a sincera impressão de que tudo isso é fácil. Nos faz concatenar uma linha cronológica de ações e movimentos que são feitos para obter o êxito em passes, faltas, no jeito singular que lhe é característico.

O fundamento do passe, tão “assassinado” por um montante de grosseiros, é exercido de maneira sublime por esse Italiano. É algo raro. É como vê-lo jogar e lembrar, saudosamente, do Gérson (o canhotinha de ouro) e seus belos lançamentos.

Toda vez que o camisa 21 pega na bola, alinha o seu corpo para o próximo ato e encontra um companheiro livre, a sensação é a de que algo primoroso vai acontecer. Não importa a distância, sabemos que algo elogiável está por vir. É como se ele tivesse uma máquina na cabeça e fizesse a medição certeira entre espaço, tempo e velocidade. Eu diria que ele é um físico da bola.

A presunção passa longe de seu futebol. A simplicidade, efêmera para outros, torna-se a verdadeira amiga dele. A dona do espetáculo, cansada de ser maltratada, só pede por carinho e senso de direção que a faça encontrar o caminho das redes. Esse sujeito conhece tão bem essa sensação que atende ao pedido da sua parceira. Avidamente, sento no sofá e só desfruto do requintado “exército” de jogadas que esse craque nos oferece.

Em Milão, o seu jeito elegante de bater na bola lhe rendeu belos gols, assistências geniais e o reconhecimento por não ser apenas mais um grosso que erra um passe de dois metros. O seu marcador se desconcentra por alguns instantes, lhe dá curto espaço e já era. Nelson Rodrigues diria que o sobrenatural de Almeida fez aquilo. A figura do maestro surgiu na época do Romatismo (século XIX). Nada mais justo para os amantes do futebol romântico, praticado por exceções, do que chamar ao craque em questão de regente.

– O zagueiro faz a falta. O goleiro fica em estado temerário.
– A bola é cuidadosamente bem tratada. O olhar é tranquilo, sereno.
– O destino da bola? As redes.
– A sensação do goleiro? A de querer jogar ardentemente no time do craque.
– Batida seca e com efeito. Parece que nem houve esforço. Soou como algo simples.

A bola, quando chega a seus pés, encontra o alívio e se depara com a percepção de conforto. O jogador, como bom regente que é, não distribui passes. De forma genial, encontra espaços e encurta distâncias para dar o momento de glória aos seus companheiros. O seu momento de esplendor? Passa rapidamente e nos faz querer mais. Entretanto, o craque só precisa de alguns instantes para ser lembrado por todo o sempre.

Infelizmente, Milão abriu mão do seu regente e ficou com os grosseiros que assolam o futebol. Quem se deu bem? A cidade de Turim. Sua verdadeira casa pode ver as maestrias sendo feitas de maneira tão simples, que os gols acabam saindo ao natural. Os goleiros continuam a se desesperar e ele, só a comemorar.

Inteligência, classe, visão de jogo e estilo próprio de fazer o torcedor dar boas gargalhadas com os seus passes meticulosos, que deixam os zagueiros mais perdidos que cego em tiroteio. Enquanto existir Andrea Pirlo, as mazelas do futebol podem ficar em segundo plano. Enquanto existir Andrea Pirlo, as reminiscências ficarão para sempre em nossas memórias.

Andrea Pirlo é uma exceção nesse mundo de iguais do futebol.

Um maestro. O verdadeiro conduttore.

Grazie, Pirlo!

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