Crise no Tottenham: falta caráter?

  • por Gregor Vasconcelos
  • 7 Anos atrás

Depois de mais um vexame em um clássico nesta temporada, o técnico Tim Sherwood, do Tottenham, lançou um surpreendente ataque a seus comandados.

Sherwood admitiu que seu time teve azar em momentos capitais, como no escorregão de Vertonghen no primeiro gol do Chelsea e no pênalti e expulsão que resultaram no segundo gol dos Blues. Apesar de entender que o jogo já estava perdido depois disso, o treinador reprovou a atitude da sua equipe no restante da partida. Ele disse em sua entrevista que “faltou caráter” ao time, que se mostrou sem sangue e sem vontade de lutar pela camisa dos Spurs. Ele também foi direto ao ponto de falar que sabe que parte do elenco não é de confiança e esqueceria a humilhação assim que entrasse no ônibus de volta pra casa.

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O desabafo de Sherwood pode ter parecido exagerado na hora, já que o Tottenham se encontra na quinta posição no campeonato, mas a declaração veio em consequência do acúmulo de frustrações do técnico com seu time em momentos importantes na temporada. Foram 7 partidas contra os integrantes do top 4 até aqui (6 pela liga e 1 pela FA Cup), sendo 1 empate e 6 derrotas, com 3 gols marcados e 23 sofridos. Segue a lista de resultados:

Arsenal 1×0 Tottenham
Tottenham 1×1 Chelsea
Manchester City 6×0 Tottenham
Tottenham 0x5 Liverpool
Arsenal 2×0 Tottenham (FA Cup)
Tottenham 1×5 Manchester City
Chelsea 4×0 Tottenham

Por esse retrospecto, apesar de se encontrar em uma boa colocação na tabela, os Spurs possuem o saldo de gol nulo e dificilmente ameaçarão a vaga de qualquer um dos times que se encontra no grupo de classificados para a Champions League na próxima temporada.

Foto: Stuart Robinson – A derrota em casa contra o Liverpool custou o emprego de Villas-Boas

Foto: Stuart Robinson – A derrota em casa contra o Liverpool custou o emprego de Villas-Boas

O futebol inglês é famoso por dar preferencia à raça em detrimento da qualidade técnica e, por conta disso, o Tottenham vem irritando profundamente sua torcida e treinador. Qualidade todos sabem que o time tem, afinal foram mais de 100 milhões de libras gastas na janela para reforçar uma já boa equipe. Então vale perguntar: o que deu errado no Tottenham?

Elenco mal montado

É difícil saber quem foi o responsável pelas contratações na janela de verão, já que muitos rumores apontam uma briga entre o presidente Daniel Levy e o então técnico André Villas-Boas.

A perda de Bale foi, de fato, importantíssima, já que o jogador era o grande diferencial do time na última temporada, resolvendo sozinho os jogos nos quais o conjunto não se acertava. Sem nenhum atleta com o mesmo poder de decisão no mercado, a diretoria decidiu repor Bale indiretamente, reforçando as áreas mais carentes da equipe. Uma boa estratégia que, infelizmente, não deu certo na prática.

Foto: Reprodução – A sombra de Bale ainda assombra White Hart Lane

Foto: Reprodução – A sombra de Bale ainda assombra White Hart Lane

Os que mais se destacam entre os contratados são Paulinho, Chiriches e Eriksen. O brasileiro é mais lembrado por seus gols (4 até aqui) do que pela sua função de volante no meio dos Spurs. Chiriches vinha surpreendendo com boas atuações ao lado de Vertonghen na zaga, mas jogou apenas 13 das 29 partidas do Tottenham na Premier League até aqui. Eriksen, ainda novo, franzino e em adaptação ao futebol inglês, tem dificuldades em certos jogos, apresentando inconstância e mostrando seu talento apenas em lances isolados.

Do outro lado, temos jogadores como Soldado e Lamela, duas das piores contratações da temporada do futebol inglês. O atacante do Valencia custou 26 milhões de libras e marcou apenas 6 gols em seus 23 jogos na liga até aqui (4 destes de pênalti). Já Erik Lamela custou £30 milhões e foi titular apenas em 3 partidas na Premier League.

O fato é que não há criatividade. O Tottenham é um time sem coesão ofensiva, estático com a bola. Falta um camisa 10 que comande o grupo, já que Eriksen ainda não mostra constância para isso.

Foto: Reprodução – Destaque na Roma, Lamela dificilmente poderia imaginar uma pior temporada de estreia na Inglaterra

Foto: Reprodução – Destaque na Roma, Lamela dificilmente poderia imaginar uma pior temporada de estreia na Inglaterra

Por ter jogadores de ataques pouco penetrativos, os Spurs marcam poucos gols (são 37 na Premier League, o pior ataque entre os 9 primeiros colocados). A situação, entretanto, melhorou com a entrada de Adebayor na equipe. O togolês, que voltou a fazer parte do time titular depois da saída de Villas-Boas, é o artilheiro da equipe com 11 gols. Mas, mesmo em grande fase, o jogador não consegue suprir toda a necessidade ofensiva de um time com tantos problemas na criação de jogadas.

No fim das contas, o que falta mesmo ao Tottenham é seu Bale. A maioria dos jogadores contratados pelos Spurs são bons, mas sem protagonismo. No momento, o time é formado por vários coadjuvantes, sem liderança, sem ninguém que possa botar medo no adversário e trazer para si a responsabilidade de vencer a partida.

A falta de sangue

No futebol, a falta de sangue ou raça costuma ser uma desculpa clichê para justificar a má fase de um time. Mas não existe outra maneira de definir o Tottenham atual.

O time se mostra completamente sem reação em situações adversas. Embora tenha conseguido algumas viradas na temporada (contra Fulham, Sunderland e Southampton), o time tem o hábito de se render. Além das goleadas nos clássicos, o Tottenham ainda sofreu uma marcante derrota contra o West Ham por 3×0 no White Hart Lane.

Foto: Reprodução – Até o mediano West Ham fez a festa no dominio dos Spurs

Foto: Reprodução – Até o mediano West Ham fez a festa no dominio dos Spurs

Tudo isso aponta também para a falta de organização da equipe, que não sabe reagir quando está atrás no placar e acaba passando vergonha mais vezes do que reagindo perante os reveses.

Perspectivas

Com a vaga da Champions League longe, a prioridade do Tottenham a longo prazo será manter a quinta colocação para voltar à Europa League na próxima temporada. Momentaneamente, os Spurs se encontram a 5 pontos de Manchester United e Everton na briga pela vaga, vantagem que pode ser perdida se o Everton ganhar seus dois jogos a menos.

O que o Tottenham precisa é de um bom resultado para elevar o moral de um clube que se encontra em clima sombrio. Para isso, o jogo contra seu grande rival, o Arsenal, no final de semana tem uma importância imensa. Uma vitória e tudo estará perdoado; uma derrota e cabeças irão rolar.

Foto: Reprodução - O clássico deste domingo contra o Arsenal, poder ser a melhor oportunidade para uma recuperação do Tottenham

Foto: Reprodução – O clássico deste domingo contra o Arsenal, poder ser a melhor oportunidade para uma recuperação do Tottenham

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Torcedor fanatico do Arsenal e do Flamengo, Gregor é fã de longa data da Premier League, acompanhando a liga avidamente há 10 temporadas. Formado em linguística inglesa pela universidade King's College em Londres, agora faz mestrado em linguistica e literatura na universidade de Zurich. Colunista da extinta revista "Doentes por Futebol", hoje é o editor de futebol inglês no site.