Denúncia: torcida do CRB é alvo de censura

O futebol brasileiro, assim como quase tudo no país, é marcado pela seletividade das nossas instituições. Enquanto boa parte das torcidas uniformizadas escapam semanalmente do peso da lei, mesmo provocando badernas e destruição de maneira recorrente, a liberdade de alguns torcedores vem sendo cerceada exatamente por essas entidades que deveriam estar ocupadas coibindo o crescimento assustador da violência no esporte, que afasta dos estádios as famílias e o público consumidor em geral.

Essa é a realidade que vêm assolando o futebol alagoano nas últimas semanas. No último dia 17, a Associação CRB Acima de Tudo, formada por torcedores insatisfeitos com a situação do clube e abraçada por todas as uniformizadas ligadas ao Galo da Pajuçara, resolveu protestar contra a falta de transparência e uma série de outros problemas administrativos. No jogo contra o Murici, a associação resolveu levar faixas ao estádio, reivindicando atenção para todas as pautas do movimento e tentando chamar a atenção de diretoria e conselho deliberativo do clube.

Engajados na luta por um clube melhor, os torcedores seguiram suas manifestações após o jogo, nas redes sociais. E combinaram de levar novamente as faixas ao jogo seguinte, contra o CEO. Acontece que uma pequena surpresa da diretoria os esperava: “Quando chegamos com as faixas, um policial disse que poderíamos entrar com elas, mas logo em seguida chegou o responsável pelo policiamento do jogo e disse que não poderia liberar, informando que era uma determinação, mas sem dizer de quem nem de onde”, informou um dos manifestantes ao portal de notícias TNH1.

Infelizmente, esse tipo de prática não é novidade no futebol brasileiro – um dos últimos rincões do autoritarismo e da truculência características da ditadura. A entidade que controla o esporte no país sempre foi tida como ponto estratégico para a propaganda do regime militar, e não só cedeu sua imagem para alardear ao mundo as “maravilhas” da “Revolução” de 64, como também colaborou no cerceamento à liberdade de pensamento de jogadores, técnicos e demais profissionais do meio.

Mesmo com o restabelecimento formal da democracia, o autoritarismo continuou a permear o nosso futebol, e resiste até os dias de hoje. Dezenas de casos recentes, envolvendo as torcidas de Náutico, Figueirense e até mesmo os atletas do Bom Senso FC – que foram ameaçados de retaliação após seus protestos na reta final do Brasileirão do ano passado – servem para atestar a fragilidade da democracia justamente no entorno do mais democrático e popular dos esportes.

CRB PROTESTA

Leia o manifesto dos torcedores membros da Associação CRB Acima de Tudo, e entenda seus motivos:

Levados pela necessidade de melhorias no CRB e insatisfeitos com algumas situações vividas no clube (construção do CT, aprovação do novo estatuto, evasão de renda, promessa de compra do ônibus, venda do Beer CRB, camisas oficiais, despedida do estádio, marketing, portal da transparência etc), os torcedores idealizaram uma nova forma de cobrança.

Desta forma, por meio de faixas, os principais pontos da insatisfação em relação à diretoria e ao conselho deliberativo foram expostos no jogo diante do Murici (17/03).

Está tudo errado? Não. Claro que existem virtudes na atual gestão da diretoria e do conselho deliberativo, mas nada disso tira a nossa legitimidade como torcedores de cobrar melhorias nos pontos que entendemos cruciais para a modernização e independência do CRB. Continuaremos a vibrar pelo clube, mas cobraremos dos responsáveis. O movimento é legítimo, além de ser um direito do torcedor.

O movimento continuará a existir até que os pontos citados sejam analisados e resolvidos pelos responsáveis. Assim como aconteceu com a cessão de direitos do terreno do CT, esperamos que os demais pontos sejam resolvidos e amplamente divulgados ao torcedor.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.