DPF Entrevista: Andréa Queiroz, jogadora do Sport Recife

  • por Henrique Souza
  • 6 Anos atrás

Andréa Queiroz, assim como tantas outras meninas, é um retrato das dificuldades pelas quais as atletas de futebol feminino passam no Brasil. Aos 20 anos, a jovem que atua como lateral direita e meia armadora pelo Sport Recife precisa conciliar os treinos e jogos com a faculdade de Educação Física. Tendo começado no futsal aos 7 anos, ela já passou pelo Náutico e desde 2012 joga futebol de campo no Sport. Nesta entrevista ao Doentes por Futebol, ela fala sobre futebol feminino e os planos para sua carreira.

Doentes por Futebol: Como você avalia a situação do futebol feminino em Pernambuco? E no resto do país?

Andréa: Em Pernambuco, assim como na maioria dos estados do norte e do nordeste, temos as piores condições de trabalho, sem investimento, tanto por parte do próprio clube, como sem interesse de patrocinadores. Em outras partes, como no sul e sudeste, alcançando a Bahia, temos uma “insignificante” melhora. Por que digo insignificante? Porque as meninas ganham menos de um salário mínimo (se chegar a tanto) para ter que se sustentar no mês inteiro, valendo ressaltar que muitas delas saem de suas casas e estados tentando a vida em outros locais.

DPF: Quais as condições de treino que o Sport oferece para as jogadoras? Instalações, materiais, horários, etc.

Andréa: Condições? As mínimas possíveis. A nossa diretora faz o impossível para conseguirmos o campo para treinar e materiais necessários. Infelizmente, dependemos dos horários do futebol masculino, seja do profissional ao sub-13 do clube. Estamos sempre abaixo na lista de prioridades. Muitas vezes, em questão de uniformes, recebemos os que os juniores ou o infantil não estão mais usando para podermos ter roupas suficientes para os dias de treinamento. Muito do que conseguimos por fora vêm dos funcionários, que nos ajudam bastante, mas sem receber ordem da diretoria do clube.

DPF: Qual o maior desafio para as atletas que não têm condição de se manter apenas com o esporte?

Andréa: Conseguir arrumar um emprego porque, infelizmente, a realidade de hoje é que as atletas têm baixo grau de escolaridade, pois voltaram toda a sua atenção ao esporte tendo a falsa esperança de que seria igual ao futebol masculino. Outro fator que complica é que, quando arrumam o emprego, o tempo para treinar fica muito escasso. Eu poderia citar várias dificuldades, mas acredito que essas sejam as principais.

DPF: Quais os planos para a sua carreira no futuro?

Andréa: Sempre sonhei em ser uma jogadora profissional, jogar com todas aquelas que eu passei minha infância vendo na televisão. Hoje, sonho com Mundiais, Olimpíadas e campeonatos disputados e importantes.

DPF: Quem são suas inspirações dentro de campo?

Andréa: Cristiane. Sem sombra de dúvidas, ela é minha ídola. Quando eu era mais nova, me imaginava jogando junto com ela (risos). E no masculino, poder ver Leo Messi é, com certeza, muito inspirador.

DPF: Pensa em sair do estado ou mesmo do país para dar seguimento a sua carreira?

Andréa: Com certeza. Quem vive nesse meio de futebol feminino sabe que, infelizmente, no nosso país não há chance de crescer profissionalmente. Tenho pretensões de conseguir um intercâmbio para os EUA pela minha faculdade e, se Deus quiser, conseguir jogar por lá.

DPF: Na sua opinião, por que o futebol feminino não recebe a mesma atenção e investimento do masculino?

Andréa: Essa diferença vem da nossa cultura machista de que o futebol foi inventado para os homens, numa época em que as mulheres não podiam fazer nada além de cuidar do lar e dos filhos. Com o passar do tempo, mesmo algumas coisas tendo se desenvolvido, esse pensamento continuou a ser passado entre as gerações, impossibilitando uma ascensão da modalidade no nosso país.

DPF: Quais medidas poderiam ser tomadas para minimizar essa diferença?

Andréa: Seria necessário que começasse dentro dos clubes medidas de incentivo ao esporte para que pudéssemos desenvolvê-lo no nosso país. Com condições de trabalho, as competições seriam mais niveladas, disputadas e chamaria atenção da torcida. Tendo telespectadores, os investidores entrariam em ação, pois teriam o retorno que toda empresa quer.

DPF: Qual o seu pensamento em relação à seleção brasileira?

Andréa: Falando de pretensões, toda atleta quer chegar a um dia vestir a camisa de seu país, poder defender as cores da bandeira em grandes competições. Falando de realidade, sofremos muito com a falta de investimento da CBF, em questões de investimento para a participação em competições. As meninas vão disputar com seleções que têm o mais alto nível de preparação, enquanto elas treinam em períodos curtos e sem as melhores condições. Ainda assim, espera-se delas o título e uma grande campanha.

Comentários

Doente por futebol desde que se conhece por gente. Formado em Educação Física e estudante de jornalismo. Apaixonado por jogos e times clássicos. Considera Zidane, Ronaldo, Romário e Messi os maiores que viu jogar.