Nós somos Kosovo!

jogo kosovo haiti 1

Nos dias 8 e 15 de junho de 1969, El Salvador e Honduras se digladiaram, dentro e fora da cancha, dando início a uma guerra que mais tarde levaria o nome de Guerra do Futebol. Em 21 de novembro de 1973, Francisco Valdés chutava para o gol vazio do campo, que deveria estar ocupado pela União Soviética, mas a equipe se recusara a participar da partida num ato simbólico contra a ditadura recém-instituída do general chileno Augusto Pinochet. Na Espanha de Francisco Franco, o Real Madrid de Puskas e Di Stéfano servia como símbolo do governo ditatorial, assim como o Steua Bucareste estava nas mãos da família Ceausescu, na Romênia. A Delije, torcida organizada do Estrela Vermelha de Belgrado, foi cooptada pelo paramilitar Arkan com o intuito de funcionar como arma de guerra para as políticas ultranacionalistas do presidente sérvio. Essas e muitas outras datas e fatos comprovam a relação claríssima entre futebol, política e sociedade.

Ontem, 5 de março de 2014, foi mais uma dessas datas: em Mitrovica, província etnicamente dividida ao norte do Kosovo (segundo os kosovares e outros 108 países) e ao sul da Sérvia (segundo os sérvios e outros 84 países), a seleção kosovar disputou o seu primeiro amistoso contra uma nação associada à FIFA, o Haiti. O tema do Kosovo é muito delicado e já foi tratado por nós em outras ocasiões. O impasse em relação à Sérvia não permite que o país seja reconhecido completamente pelos membros da ONU, o que também dificulta a aceitação entre a FIFA e a UEFA. Com a permissão da federação sérvia e com a proibição do uso de bandeiras ou da entoação do hino nacional, 17 mil e 500 espectadores lotaram o estádio Adem Jashari, que leva o nome de um herói de guerra kosovar, para assistir à partida contra o país caribenho, também assolado recentemente por conflitos. O jogo terminou sem alterações no marcador – o score, no entanto, era a menor preocupação de todos os presentes.

Entre esses 17.500 torcedores, estava Bujar Shaqiri, estudante de 23 anos, que viajou da capital Pristina para o norte do país (cerca de 40 km). Bujar nos concedeu uma pequena entrevista para falar sobre o que a partida significou.

DPF – Tu costumas ir ao estádio? Qual foi a diferença do jogo de hoje para outras partidas de futebol que acompanhaste?

Bujar Shaqiri – Não costumo ir muito aos jogos pois a qualidade da liga nacional não é tão alta, de fato é minha 3ª ou 4ª vez num estádio de futebol, mas quando se trata da seleção nacional, não há dúvidas de que eu estarei presente.

DPF – Como tu te sentiste quando viste o time kosovar entrando no campo?

Bujar Shaqiri – As partidas com o time nacional realmente nos dá um sentimento incrível que não podíamos sentir antes, já que não tínhamos a oportunidade.

DPF – Tu achas que tudo isso é o começo de uma nova tradição futebolística no Kosovo?

Bujar Shaqiri – Com certeza. Como tem sido dito, a história está sendo escrita e a seleção do Kosovo tem um bom futuro pela frente.

DPF – A partida ajuda o mundo a ver o Kosovo como um país e entender sua situação?

Bujar Shaqiri – Claro, é uma ótima oportunidade para a nossa nação ser reconhecida como país e definitivamente isso vai nos ajudar muito, já que o mundo poderá escutar e ver nossa situação e talvez aprender mais sobre a nossa história.

DPF – Acreditas que as pessoas agora têm um sentimento diferente em relação ao país?

Bujar Shaqiri – Certamente, isso afeta bastante as pessoas e o amor delas pela nação e pelo nosso time, e eu acredito que nas próximas partidas vai haver cada vez mais e mais gente para assistir e apoiar a seleção.

Além de Bujar, Mirjeta Zuka, estudante de 20 anos, vê uma forte relação entre os jogos e a aceitação do país pelo sistema internacional:
Mirjeta Zuka – Através dos jogos do nosso time nacional, outros países vão saber do Kosovo, o que ajuda no reconhecimento da nossa nação como país.

Perguntada quanto ao sentimento dos torcedores, Mirjeta comenta:
“Torcedores de todo o Kosovo compareceram, a euforia é gigantesca.”

champions shaqiri flag

Xherdan Shaqiri e a bandeira suíço-kosovar

Apesar da presença do nosso amigo Bujar Shaqiri, a ausência de outro Shaqiri foi muito sentida: Xherdan Shaqiri, jogador do Bayern. Bem como outros atletas de origem kosovar, como Granit Xhaka e Adnan Januzaj, ele não fez parte da esquadra kosovar de hoje. Os dois primeiros, juntos a Valon Behrami, defenderam a Suíça no amistoso contra a Croácia. O treinador kosovar, Albert Bunjaki, considerou complicada a convocação desses jogadores, pois poderia colocá-los em uma situação adversa. Já Januzaj apenas recusou o convite. Questionada a esse respeito, Mirjeta é compreensiva:

Mirjeta Zuka – Não acho que eles tenham rejeitado o Kosovo quando rejeitaram representar a seleção hoje, quero dizer, nós precisamos deles, mas a carreira deles depende daonde eles jogam e por quem, então eles escolheram times melhores.

De todos os jogadores presentes no amistoso, apenas o goleiro Kushtrim Mikushnica trabalha no Kosovo. Alguns atletas de certo renome jogaram, como Samir Ujkani, goleiro do Palermo, Albert Bunjaku, atacante do Kaiserslautern, e Bersant Celina, meio-campista de 17 anos, promessa do Manchester City. Quanto aos outros jogadores, Albert Bunjaki comentou: “Kosovo vai sempre manter suas portas abertas a eles. Isso é uma jornada e esperamos que outros se juntem a nós no futuro”.

A jornada de Bunjaki e do Kosovo começou. Ao fim e ao cabo, mesmo com faixas na torcida clamando por Shaqiri e companhia, as ausências passaram despercebidas frente à alegria de ver as cores de um país, de uma nação, materializando-se em campo. O futebol é uma peça importante no tabuleiro de xadrez da política, usada constantemente para fins destrutivos. Ontem ele participou na construção de uma identidade, que em breve poderá exibir sua bandeira e entoar por todos os lados: ne jemi Kosovë! “Nós somos Kosovo”. E sem pedir permissão a ninguém.

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Antropólogo, fanático por relações internacionais, direitos humanos, literatura e, óbvio, Doente por Futebol. Além de colunista para o DPF, escrevo para o fã clube Borussia Dortmund Südbrasilien e no projeto latinoamericano Goltura Futebol. Jogo de segundo volante.