O dia que Grafite salvou o Corinthians

  • por Bráulio Silva
  • 8 Anos atrás

Não importa a página esportiva que você esteja visitando, nesta semana o assunto principal é a possível entregada do São Paulo para o Ituano no próximo domingo. Sempre, claro, ignorando que o Corinthians também precisa fazer a sua parte para obter a vaga na próxima fase.

Muito se fala também sobre o atacante Grafite. Com passagem vitoriosa pelo São Paulo, o jogador ficou marcado por ter feito os dois gols que indiretamente livraram o Corinthians do rebaixamento no Paulistão de 2004. Para entender o jogo do São Paulo contra o Juventus em 2004, vamos voltar para a temporada de 2003.

O Paulistão daquele ano foi disputado numa fórmula diferenciada. Inchado e com 21 equipes, a FPF (Federação Paulista de Futebol) inovou e fez um torneio com três grupos de sete equipes. Assim, uma equipe fatalmente estaria de folga na última rodada.

As coisas começaram a se complicar para o lado do Santos quando, na 5ª rodada, o time perdeu por 2×0 para a Portuguesa Santista. Na rodada seguinte, seria definida a classificação. O time, com 10 pontos, receberia em casa o São Paulo, que estava com 7 pontos e ameaçado de eliminação. Numa minirrevanche do mata-mata do Brasileirão do ano anterior, o São Paulo venceu o Santos em plena Vila Belmiro por 2×1. Sem mais chances de pontuar, uma possível classificação santista ficou nas mãos do Tricolor, que, no domingo seguinte, receberia o Santo André no Morumbi.

Àquela altura, São Paulo, Santos e Santo André possuíam 10 pontos. O time da capital tinha um saldo positivo de 9 gols, contra 3 de santistas e andreenses. Um empate classificava as duas equipes. Uma vitória do São Paulo e quem passaria de fase era o Santos. Bola rolando e, sem dificuldades, o Tricolor abriu 2×0, incluindo um golaço de bicicleta do Luís Fabiano. No segundo tempo, em duas “desatenções” de Júlio Santos, o Santo André empatou o jogo. Após a igualdade, o jogo ganhou notoriedade pela monotonia que se desenvolveu até o final. Fato que irritou – e muito – os santistas, que acusaram o São Paulo de ter entregue o jogo. A reclamação só aumentou quando, no mata-mata, o Tricolor venceu sem dificuldades o mesmo Santo André, por 4×2.

Voltando a 2004, o São Paulo dividia as atenções entre o Paulistão e a Libertadores. Já o Corinthians apresentava um dos piores times da sua história e os resultados em campo também não apareciam. Com os mesmos 21 times do ano anterior, a fórmula era diferente. Agora, tinha-se um grupo com 10 equipes e outro com 11, sendo que os 4 melhores de cada grupo iriam para a segunda fase e o pior de cada grupo seria rebaixado.

O São Paulo tinha a melhor campanha do Paulistão até então. O time acumulava até a última rodada sete vitórias e um empate, obtido na estreia diante da Ponte Preta. Já o Corinthians tinha um péssimo desempenho, com 8 pontos em 8 jogos:

2×2 Atlético Sorocaba
2×1 Rio Branco
0x0 União Barbarense
0x1 Portuguesa
0x1 São Paulo
3×2 Juventus
1×2 Ponte Preta
1×2 América

A semana toda foi de ladainha com relação ao comportamento dos jogadores do São Paulo diante do Juventus. O Corinthians tinha 8 pontos, contra 6 do time da Rua Javari. A última rodada tinha Juventus x São Paulo, que foi disputado no Anacleto Campanela em São Caetano. No mesmo horário, o Corinthians recebia a Portuguesa Santista no Pacaembu, e uma simples vitória afastaria de vez o fantasma do rebaixamento.

Em São Caetano, o São Paulo fazia a sua parte: Grafite fez dois gols de cabeça, um aos 32 e outro aos 45 do primeiro tempo. O resultado beneficiava o Corinthians.

No começo do segundo tempo, Terrão anotou para o Juventus e diminuiu o placar. Aos 24 da segunda etapa, o inesperado: a Portuguesa Santista marcou no Pacaembu, gol do meia Reinaldo. Uma virada em São Caetano e o Corinthians amargaria o descenso. O Juventus chegou a balançar as redes, mas o árbitro anulou alegando impedimento.

Nos dois estádios, o clima era completamente diferente. Enquanto no Pacaembu os 17 mil torcedores do Corinthians exigiam uma reação do time, no ABC os torcedores do São Paulo, em tom cômico, pediam que o time entregasse o jogo para prejudicar o rival. Mas, novamente, o São Paulo ficou tocando de lado até garantir a vitória.

Após os jogos, o Corinthians permaneceu em crise e o São Paulo foi para o mata-mata da fase final, quando perdeu em pleno Morumbi para o São Caetano, por 2×0. Este fato enfureceu a torcida, que, por um tempo, pegou no pé de Grafite de forma totalmente injustificável.

Vale lembrar que o Corinthians prejudicou o São Paulo no Brasileirão de 2009, quando perdeu para o Flamengo por 2×0 em Campinas. O Tricolor retribuiu a gentileza em 2010, perdendo para o Flu por 4×1 em Barueri. Mas essas são outras histórias.

O fato é que o jogo do São Paulo contra o Ituano ainda terá muita repercussão na mídia, seja qual for o resultado. O que estão esquecendo é que o Corinthians tem um compromisso difícil contra a equipe do Penapolense e que o time está nessa situação devido ao péssimo início de competição, que inclui as derrotas em casa para São Bernardo e Bragantino, além da goleada sofrida diante do Santos.

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Paulistano, casado e com 33 anos. Apaixonado por futebol e pelo São Paulo FC. De memória privilegiada, adora relatar e debater fatos futebolísticos de outrora. Ex-estudante de jornalismo, hoje gerencia uma drogaria no município de Barueri, além de escrever para a Doentes por Futebol.