Rayo suicida

  • por Victor Mendes Xavier
  • 5 Anos atrás
O melhor Rayo da temporada triunfou no Anoeta contra a Real Sociedad. Estilo ofensivo e suicida vai servir para salvar time do rebaixamento? (Foto: Agência EFE)

O melhor Rayo da temporada triunfou no Anoeta contra a Real Sociedad. Estilo ofensivo e suicida vai servir para salvar time do rebaixamento? (Foto: Agência EFE)

Assistir a um jogo do Rayo Vallecano de Paco Jemez é ter a certeza de que irá presenciar uma partida maluca. Os números definem o estilo batizado de kamikaze ao longo da temporada: são incríveis 61 gols sofridos, disparada a pior defesa da Liga Espanhola, e 29 marcados. Dessa maneira, é evidente pensar que não há compromisso defensivo ou que a retaguarda é, realmente, muito fraca. Pode parecer brincadeira, mas não é exatamente assim.

De fato, o sistema defensivo do Rayo não é a oitava maravilha do mundo. Mas é justamente o estilo de jogo que tanto chama a atenção que deixa a defesa exposta e vulnerável a contra-ataques adversários. O sistema é bem fácil de explicar e entender: linhas bem avançadas e, com a bola, todos atacam. Não é difícil ver a primeira linha de quatro quase ultrapassando o meio-campo. Até por isso, se não houver uma recomposição feita quase na velocidade da luz, a defesa irá sofrer – como costuma sofrer.

A segunda equipe com maior média de posse de bola na Espanha (60,7%, atrás somente de Barcelona – e de PSG e Bayern nas principais ligas nacionais) diverte. Em outubro, foi goleado pelo Barcelona por 0x4, mas conseguiu algo que nenhum outro time havia conseguido desde 2008: passar mais tempo com a bola do que o time de Xavi, Iniesta, Fàbregas, Busquets e Messi. Os 51% de posse de bola naquela noite contrastaram com o resultado adverso, mas deixaram evidente o estilo ofensivo.

Não podemos cometer a injustiça de colocar em xeque a competência do ótimo Paco Jemez, um dos nomes que a filosofia barcelonista e Josep Guardiola mais admiram. É sabido por todos a dificuldade econômica que o Rayo Vallecano passa há mais ou menos cinco anos. Enquanto houve um elenco no mínimo o suficiente para ficar no meio da tabela e/ou tentar a vaga numa competição europeia, seu Rayo encantou e, acima de tudo, competiu.

Em 2012/2013, o Rayo de Piti, Leo Baptistao, Javi Fuego e Chori Dominguez terminou na oitava colocação, que, em tese, deveria valer uma vaga na Liga Europa. Deveria, porque o clube, assim como o Málaga (que terminou em sexto), não obteve a licença UEFA por “se encontrar numa situação crítica financeiramente, desrespeitando as novas leis que determinam o fair-play financeiro do futebol europeu” e foi excluído das competições europeias pelos próximos três anos.

Temporada após temporada, a tônica do Rayo ao começo do verão é vender seus principais jogadores para sanar as dívidas. Culpa de uma divisão de receitas televisivas tão discutida que afasta do futebol espanhol aquilo que ele sempre mais possuiu apreço: o produto nacional, uma Liga mais equilibrada e menos desigual. Durante a disputa da Liga Adelante, em 2010/2011, as dívidas rayistas chegaram a estar entre 40 e 80 milhões de euros, fora o quase um ano de salários atrasados — a ponto de torcedores terem organizado movimentos para arrecadar dinheiro e ajudar no pagamento de jogadores, garotos da base e funcionários do clube.

Na 19ª colocação com 26 pontos, o Rayo é um sério candidato ao rebaixamento. Porém, no encerramento da 27ª rodada, deu um golpe de autoridade em pleno Anoeta e derrotou a Real Sociedad de virada por 3×2. Uma vitória que dá uma sobrevida aos franjiroyos e enche o elenco de moral. Na disputa super embolada para fugir do descenso, de repente o jogo começa a virar para o time de Jemez. Se, antes da partida de hoje, Jemez havia dito que ganhar no País Basco significaria dar um passo gigante à frente, a tabela joga a favor do Rayo: a equipe recebe Almería, Osasuna, Bétis, Getafe e Celta em Vallecas, todos adversários diretos.

Fugir do rebaixamento ainda é uma tarefa árdua, pela fragilidade e inconsistência do elenco. Será preciso mais regularidade de Rochina, Bueno, Larryvei e Saúl (excepcional no combate a Xabi Prieto), com atuações brilhantes hoje, e uma “segurança” defensiva raramente vista. Mas seria um prêmio a um treinador que valoriza o jogo ofensivo e a um clube que nos últimos anos engoliu com raça os problemas e venceu muitos desafios. Esse é mais um, que o Rayo está disposto a encarar de frente.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.