A fantástica trajetória de Tito Vilanova

  • por Raniery Medeiros
  • 5 Anos atrás

Francesc Vilanova i Bayó, ou simplesmente Tito, foi um cara educado, polido e disposto a aprender tudo o que pudesse sobre o futebol e suas inúmeras variáveis. Nascido na região da Catalunha, especificamente na província de Girona, criou, desde cedo, laços irrefutáveis com o Barcelona. Sua identificação com o time o tornou uma pessoa muito querida e, acima de tudo, respeitada dentro do clube.

Jogador comum, mas visionário

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

Criado nas categorias de base dos Culés, realizou seu sonho de infância ao vestir a camisa blaugrana. Longe de ser um atleta de ponta, o meio-campista não se deu por vencido e, mesmo longe de casa, foi tentar a sorte em equipes de menor expressão. Alguns dizem que foi um atleta promissor, mas que não deu sorte no Barça por ter sido contemporâneo de uma geração que estava acima da média. 

Mesmo atuando em equipes menores, sempre chamou a atenção dos colegas pela perspicácia na hora de fazer a leitura do jogo. Era um jogador mediano, mas que enxergava além do que acontecia em campo, procurando orientar seus companheiros em situações adversas. Essa sagacidade para o cunho tático sempre esteve presente em sua carreira, mesmo que ainda não fosse treinador. Atuou pelo Figueres, Celta, Badajoz, Mallorca, Lleida, Elche e Gramenet.

Vilanova fez os seus gols, mas nada tão representativo como no dia em que, jogando pelo Lleida, enfrentou o Barcelona. Em partida válida pela Copa da Catalunha, balançou as redes do seu time de infância. Veja o gol marcado por ele. 

 

Outro grande momento aconteceu quando atuou pelo Celta de Vigo. Após o jogo, foi conversar com Pep Guardiola, seu velho amigo. 


O início como treinador e gestor

Após o término da carreira como jogador, na qual conviveu com várias lesões, Vilanova decidiu ser treinador, algo que não causou espanto aos colegas mais próximos, pois já demonstrara esse desejo e competência enquanto atleta. O início foi no modestíssimo Palafrugell, equipe de Girona. Ainda aprendiz, não evitou o rebaixamento da equipe e, após o término da temporada, foi tentar a sorte como diretor no Terrassa. Nesse tempo em que as coisas não começaram muito bem, resolveu parar e estudar, com o intuito de aperfeiçoar seu conhecimento. Em constante contato com Pep Guardiola, recebeu uma ótima notícia em 2007. Dali em diante, sua vida mudaria radicalmente.

Convite especial

Com a mente voltada para os estudos, passou a ter sua própria concepção das teorias e táticas do esporte. Foi então convidado por Guardiola, em 2007, para ser seu assistente no Barcelona B. Vilanova trabalhou intensamente para ganhar a confiança do amigo. Longe de ser um “papagaio de pirata”, se entregou de corpo e alma ao clube e os frutos foram colhidos de maneira rápida e impactante. Com a saída de Frank Rijkaard, o presidente Joan Laporta resolveu apostar na dupla para comandar o time principal.

Foto: Sport - Guardiola, Laporta e Vilanova. Parceria que deu muito certo

Foto: Sport – Guardiola, Laporta e Vilanova. Parceria que deu muito certo


A temporada perfeita dos “calouros”

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

A dupla esteve em sintonia desde o princípio. Os ideais, bem parecidos, tornaram o Barcelona de 2008/2009 uma máquina de conquistar títulos. Ambos gostavam do tiki-taka e, para recolocar o clube na galeria dos campeões, resolveram apostar em uma reformulação drástica, dando oportunidades aos garotos de La Masia. Foi nessa temporada que Pedro e Busquets subiram para a equipe principal. Além disso, mantiveram Bojan no time, e repatriaram Gerard Piqué. A ideia da posse de bola, mas com objetividade, transformou o Barça em um exemplo para o futebol mundial. Uma filosofia própria, uma identidade fixa.

 

A temporada dos “calouros” começou sob olhares desconfiados, mas terminou de maneira suntuosa. Campeão da Liga, da Copa do Rei e da Champions League, ganharam o mundo. Além do respeito e confiança, Guardiola sempre deu espaço para Vilanova expressar suas ideias perante o grupo. A sintonia era tão intensa, que rendeu um vídeo bem humorado sobre isso.

 

Títulos, dúvidas e despedida

Foto: Barcelona Brasil - Mais uma Champions League para o currículo

Foto: Barcelona Brasil – Mais uma Champions League para o currículo

O Barcelona continuou a praticar um futebol encantador para uns e chato para outros. Mas, acima de tudo, vencedor. Vilanova já dava sinais de que, em pouquíssimo tempo, optaria pela carreira solo. A concepção de ter a posse de bola para sofrer menos em campo deu certo. Trazer os garotos da base foi uma das ideias reforçadas pelo assistente. No entanto, os adversários passaram a criar antídotos que surpreenderam o Barcelona. As dúvidas começaram a aparecer, e após o desgaste de Pep com a nova diretoria, Tito Vilanova recebeu, por merecimento, uma oportunidade de ouro. Mesmo com a parceria sendo desfeita, o homenageado teve consciência de que assumir o time principal seria algo único em sua carreira.

OBS: vale ressaltar que Tito Vilanova já havia começado a sua batalha contra o câncer.

Novas ideias e obstáculos

Com a saída de Guardiola, a diretoria procurou alguém que conhecesse perfeitamente o Barcelona, dando continuidade ao trabalho que já vinha sendo feito, sem esquecer de dar sequência aos ideias e a filosofia de jogo do time. Muitos nomes de peso foram sondados, mas foi Vilanova quem assumiu, com o aval de Pep, na temporada 2012/2013

Foto: Reuters - Apresentação oficial como treinador do Barça

Foto: Reuters – Apresentação oficial como treinador do Barça

Por mais que os dois tivessem pensamentos semelhantes, algo seria modificado. Estudioso que sempre foi, Vilanova gostava de ter o controle da bola, mas com wingers (pontas) mais abertos. Tanto que, no começo do seu trabalho, colocou Iniesta para exercer aquela função, dando profundidade ao time e deixando os laterais mais livres. Como modificar algo que vinha dando certo? Como encarar jornalistas comparando estilo de jogo e exigindo que ele vencesse tudo? Mesmo que por poucas vezes, soube alterar taticamente o time dentro da própria partida. Um bom exemplo pode ser comprovado no jogo contra o Spartak, quando foi ousado para encostar o adversário contra a parede, dando flexibilidade aos jogadores de meio e aproximando, dentro da área, quatro atacantes. 

 

Dos seis clássicos contra o Real Madrid, venceu apenas um e foi humilhado pelo Bayern (7-0 no agregado na Champions League). Mas foi campeão espanhol. E o câncer tornou-se cada vez mais agressivo, fazendo com que o treinador perdesse boa parte dos jogos da equipe. Jamais ousou dar desculpas perante as derrotas.

OBS²: Foi campeão espanhol fazendo 100 pontos, igualando o recorde que pertencia ao Real Madrid.

Foto: Reprodução - Mesmo debilitado, ajudou o Barcelona a ganhar o Campeonato Espanhol

Foto: Reprodução – Mesmo debilitado, ajudou o Barcelona a ganhar o Campeonato Espanhol

Guerreiro

Após se ausentar definitivamente dos campos, Tito Vilanova ainda chegou a visitar o clube, foi visto em alguns jogos, mas, como precisava de repouso, pediu para que notícias sobre seu estado de saúde não fossem divulgadas. Lutou até o último instante, mas infelizmente nos deixou no dia 25 de abril de 2014.

Potencial que jamais será conhecido

Com a sua morte, fica aquela pulga atrás da orelha sobre o que seria do Barcelona se ele não tivesse passado por tudo isso. O potencial existia, era enorme. Cometeu alguns erros na sua temporada de estreia, mas sempre deixou a impressão de que poderia ser um técnico acima da média. Suas ideias eram boas, bem como seu pensamento sobre as diretrizes do futebol, dentro e fora das quatro linhas. Assim como outros grandes desportistas que amavam o que faziam, Vilanova viveu e respirou o esporte. Diante do grande problema, pode-se dizer que sua trajetória foi fantástica.

 

Nós, do Doentes por Futebol, lamentamos a perda de alguém que tinha tudo para fazer história. Antes de qualquer debate sobre estatísticas, jogos e resultados, resolvemos homenagear a pessoa de Francesc Vilanova i Bayó.

Descanse em paz, guerreiro!

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