Doido? Lisca trouxe consciência e lucidez ao Timbu

Desconhecido do futebol pernambucano, Lisca vem fazendo o Náutico superar dificuldades (Foto: Instagram Oficial do Náutico).

Desconhecido do futebol pernambucano, Lisca vem fazendo o Náutico superar dificuldades (Foto: Instagram Oficial do Náutico).

Ao início da temporada 2014, o Náutico tinha, indiscutivelmente, a situação mais complicada entre seus coirmãos pernambucanos. O clube acabava de atravessar seu processo eleitoral mais atribulado em muitos anos, após uma passagem absolutamente catastrófica pela Série A. Nesse sufrágio, quem saiu vencedor foi o Movimento Transparência Alvirrubra, que propunha uma completa reestruturação no clube – das práticas administrativas às decisões do futebol, que havia dado vexame em 2013. Depois desse dezembro de muitas rescisões de contrato com jogadores e de campanha política intensa, o Timbu tentava sair da lama em que havia sido jogado pela péssima gestão de Paulo Wanderley.

Nesse contexto de renovação, chegou ao Náutico o técnico Lisca. Era um nome completamente desconhecido pela crônica esportiva pernambucana: havia construído quase toda a sua carreira no futebol gaúcho, com passagens por diversos times de menor expressão e pelas categorias de base de Inter e Grêmio. Ele ganhou maior notoriedade após o vice-campeonato da Série D com o Juventude e, graças a esse bom desempenho, apareceu aos olhos da diretoria alvirrubra, que viu nele uma chance de revelar ao futebol brasileiro um novo treinador de talento – e, de quebra, gastar muito menos do que gastaria se trouxesse um profissional de renome.

Enquanto outros técnicos contatados pelo clube relutaram em se enfiar em um ambiente tão atribulado quanto o Náutico do final de 2013, Lisca não hesitou em dizer ‘sim’. E desde que chegou ao Recife, ele tem deixado claro que o Náutico representa a maior oportunidade de sua carreira. Já foi alvo de muita desconfiança – por exemplo, quando indicou seis jogadores clientes do mesmo empresário, logo em seus primeiros dias no cargo; ou nas vezes em que insistiu numa abordagem mais conservadora para a sua equipe. Mas após quebrar um longo jejum de vitórias contra o Sport na Ilha do Retiro, terminar o hexagonal final do Campeonato Pernambucano na liderança e classificar o Timbu para a final do certame, deixou muito pouco a ser questionado por seus críticos.

Sob o comando de Lisca, o time tem jogado, na maioria das partidas, um futebol pragmático: se defende antes de tentar qualquer iniciativa no ataque. Formatado em um esquema que quase sempre mantém três volantes em campo, o Náutico tem mostrado um poder crescente de compactação, além de saídas rápidas e bem articuladas em contra-ataque. Ainda assim, em virtude das grandes limitações financeiras vivenciadas pelo clube, o grupo alvirrubro tem apresentado deficiências técnicas em vários setores. Por isso, não consegue dar sequência a boa parte das jogadas. Mas esse comprometimento tático tem dado frutos, especialmente em jogos fora de casa, quando o Timbu não precisa tomar a iniciativa das ações.

Além de todos os obstáculos financeiros, Lisca ainda teve que lidar com problemas físicos em alguns de seus principais jogadores. Para ser sua grande referência na zaga, ele indicou o experiente Luiz Alberto (aquele mesmo) – que se machucou depois de pouco mais de um mês no clube, e provavelmente ficará de fora até julho. O meia Pedro Carmona, que vinha sendo o grande destaque e artilheiro do time no início da temporada, sofreu uma séria lesão nos ligamentos do joelho, e só deve voltar a atuar em 2015. Como se não bastassem essas baixas, outras lesões menores também vêm atrapalhando alguns jogadores importantes no elenco, como o lateral Rai, o volante Elicarlos e o meia Marcos Vinícius. Mas assim como vem superando o orçamento curto e as turbulências políticas, Lisca também tem encontrado alternativas às limitações clínicas de seus atletas, para manter a torcida alvirrubra sonhando com o primeiro título após uma década.

Assim, desacreditado enquanto time e até mesmo enquanto instituição, o Clube Náutico Capibaribe se vê novamente diante de um horizonte promissor. A boa campanha no campeonato estadual lhe serviu para resgatar a confiança e acabar com certos estigmas, como a superstição boba que vinha cercando a Arena Pernambuco. É óbvio que as arquibancadas vazias da nova casa, se não atrapalham, tampouco ajudam o time a ter sucesso dentro de campo. Mas já ficou provado que o problema alvirrubro era mesmo a falta de vontade, de qualidade tática e técnica – de futebol, por fim. E se ainda não pode contar com um elenco de jogadores à altura de sua tradição centenária, o torcedor do Náutico pode ao menos ter a confiança de que há, sim, um grupo comprometido com as ideias e conceitos de um treinador competente e determinado – que, de doido, não tem nada.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.