Meio século depois, o futebol ainda respira ditadura no Brasil

Neste 1º de abril, o Brasil relembra o início de um dos períodos mais sombrios de sua história. Há exatos cinquenta anos, as ruas de algumas das principais capitais brasileiras amanheceram tomadas por centenas de militares que, em marcha, comemoravam a falência do Estado Democrático de Direito e o estabelecimento de uma ditadura sanguinária, que ceifou a vida de inúmeros jovens e manteve o país sob o comando de alguns dos setores mais reacionários de sua sociedade. Meio século depois, no entanto, é nítido que a democracia ainda não foi plenamente instaurada no país: os tiranos foram anistiados, e continuam participando ativamente dos processos decisórios mais importantes, influenciando diretamente na gestão de diversas instituições supostamente democráticas.

O presidente Médici usou, como poucos, o futebol a favor de seu governo. Foto: Bueno/AE.

O presidente Médici usou, como poucos, o futebol a favor de seu governo. Foto: Bueno/AE.

Nenhuma dessas entidades, contudo, reproduz de maneira mais fiel algumas das práticas mais nefastas da ditadura quanto a Confederação Brasileira de Futebol. Poucos patrimônios brasileiros são geridos de forma tão autoritária quanto o nosso querido esporte bretão, que mesmo em um dos períodos mais marcantes de sua história – a pouco mais de setenta dias de receber uma Copa do Mundo –, sofre com o desinteresse de seu público, outrora tão aficionado. E mesmo estando, como nunca antes, sob os olhares de investidores dos mais diversos cantos do planeta, sofre com a falta de recursos, vendo um número considerável de clubes passando por sérias dificuldades financeiras, ou até sendo forçados a fechar suas portas.

Essa difícil realidade econômica, entretanto, não é a que atravessa a Seleção Brasileira. Diferentemente dos clubes do país, a canarinha nunca teve tantos contratos publicitários. Mais de uma dezena de anunciantes, dos mais variados ramos de atuação, associam suas identidades à imagem de uma das mais célebres e vitoriosas marcas do esporte mundial. Tudo é comercializável: desde os produtos usados na concentração dos atletas, até a própria definição dos adversários a serem enfrentados – não raro por razões políticas e/ou econômicas, deixando completamente de lado o critério técnico. E para onde vão os dividendos de tantas negociatas, já que ninguém consegue vê-los aplicados no desenvolvimento do nosso esporte nacional?

Esta é a pergunta que o sr. José Maria Marin não quer responder – assim como seu antecessor, Ricardo Teixeira. Alegando que a CBF é uma entidade privada, eles vêm se eximindo de dar qualquer satisfação às dezenas de milhões de brasileiros apaixonados pelo esporte, que veem, ano após ano, o nível técnico do futebol brasileiro despencar. Aliás, não dá nem para dizer que veem, levando em conta que as arquibancadas dos nossos estádios estão a cada dia mais vazias.

O mais alto dos ecos da ditadura no tempo presente. Foto: Reprodução.

O mais alto dos ecos da ditadura no tempo presente. Foto: Reprodução.

As razões desse desinteresse são muitas. Começando pelo já citado nível técnico (e também tático), que faz com que o futebol nacional perca espaço para a concorrência estrangeira: já não são poucos os torcedores que preferem assistir às principais ligas europeias. Além dos problemas das partidas em si, há ainda as dificuldades de acesso aos estádios, que têm sido associados mais comumente a episódios de violência, racismo e outras formas de intolerância. Como se não bastassem esses obstáculos, o calendário do esporte tem sido, por si só, o maior deles: jogos que entram pela madrugada, ou que acontecem em pleno horário comercial, são frequentes em vários dos nossos campeonatos, graças ao controle absoluto de uma única emissora sobre esse grande patrimônio cultural – e, por óbvio, bem público – dos brasileiros.

Todo esse caos vem cercando o nosso futebol ao longo das últimas décadas. E ele não se estabeleceu apenas nas mais altas cúpulas: é também regra do jogo para os cartolas e presidentes das federações. Mesmo diante desse cenário, o torcedor não tem podido fazer muito, já que a censura aos protestos tem se tornado um dos traços mais característicos do nosso esporte – nada que já não seja práxis em outras lutas populares. Desta forma, usemos este aniversário do Golpe de 64 para relembrar e expugnar essas excrescências de um tempo ao qual o brasileiro não quer mais voltar, mas que ainda não passou para alguns dos dinossauros que gerem o nosso futebol.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.