Não vamos só comer as bananas

  • por Leandro Lainetti
  • 7 Anos atrás

Qualquer tipo de preconceito é estúpido. Demonstrá-lo, pior ainda. É difícil entender uma massa heterogênea como a nossa sociedade. Somos muitos, distintos uns dos outros, mas, na origem, somos todos iguais. Nos milhares de anos que enfrentamos para chegar aqui, passamos por pestes, guerras, genocídios e superamos diferenças, ainda que nem sempre da melhor forma. Fato é que todos os acontecimentos históricos contribuíram para moldar o homem do jeito que ele é hoje: repleto de falhas, inclusive as de caráter.

Quem imita sons de macaco ou joga uma banana em campo, além de ser um imbecil criminoso, acredita que cor de pele ou tipo de cabelo pode fazer a diferença entre um ser humano e outro. E faz. Só fenotipicamente falando. Nós, brasileiros, mais do que qualquer outro povo, somos uma mistura. Aqui somos brancos, negros, índios, somos tudo e um pouco mais. “Somos todos macacos” e se você faz questão de dizer que não, só podemos lamentar. Além de preconceituoso, você é burro.

Foto: Reprodução - Reação inusitada de Daniel Alves foi um tapa com luva de pelica na cara do agressor

Foto: Reprodução – Reação inusitada de Daniel Alves foi um tapa com luva de pelica na cara do agressor

Quando qualquer jogador que não seja branco, ou seja, “europeu”, sofre um ato racista, a mensagem que está sendo passada é que eles se acham superiores a nós, de que são diferentes por serem brancos e nós, mestiços, mulatos ou negros de outros continentes somos apenas seres que nasceram para estar sempre à margem deles. Uma ignorância historicamente alimentada pelos anos e anos em que diversos países em todos os continentes foram colonizados por potências europeias. A própria colonização, inclusive, foi um fator preponderante na miscigenação entre povos, principalmente no Brasil, que sofreu invasões de holandeses, franceses, ingleses e, claro, portugueses.

Ao comer a banana atirada em sua direção, Daniel Alves teve classe. Respondeu de forma irônica e inteligente a alguém que, muito provavelmente, nem vai entender o que a atitude do brasileiro quis dizer. Ao não se afetar com a ofensa, e ainda ingeri-la, o jogador do Barcelona desarmou quem tentou diminuí-lo. A campanha que começou a seguir nas redes sociais, com a participação de jogadores, atores e outras celebridades e se estendeu para um pronunciamento da presidente Dilma Rousseff (como no caso envolvendo o cruzeirense Tinga) é bacana, ajuda. Expor o problema é importante.

Foto: Reprodução Instagram - Ao lado do filho, Neymar deu força ao amigo.

Foto: Reprodução Instagram – Ao lado do filho, Neymar deu força ao amigo.

Porém, enfrentá-lo de forma real e enérgica é muito mais. Hashtags, textos bonitos, palavras duras, fotos comendo bananas e atitudes inteligentes sempre serão bem vindas, mas pouco eficientes. Punições severas, como um tempinho na cadeia, por exemplo, são muito mais educacionais. Estamos caminhando, assumindo mais esse câncer que existe entre nós e iniciando uma batalha contra ele. Fazer barulho é importante, gritar contra o racismo chama atenção, mas não soluciona. Pode não ser amanhã, mas em breve veremos outros atletas passando pelas mesmas situações que Dani Alves e Tinga.

Enquanto isso vamos comer as bananas, todas elas. Joguem e faremos doces, banana split, usaremos na salada de fruta. Só precisamos lembrar, dia após dia, que isso só enche barriga. E barriga cheia mata a fome, mas não mata atitude racista.

Aí é só cadeia. E com banana nas refeições.

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Jornalista trabalhando com marketing, carioca, 28 anos. Antes de mais nada, não acredito em teorias da conspiração. Até que me provem o contrário, futebol é decidido dentro das quatro linhas. Mais futebol nacional do que internacional. Não vi Zico mas vi Romário, Zidane, Ronaldinho, Ronaldo. Vejo Messi e Cristiano Ronaldo. Totti é pai.