O Adeus de Felipe

Por O Futebólogo

Tudo tem um começo e um fim – uma das poucas certezas da vida. Dezoito anos depois de fazer sua estreia pelo Vasco da Gama, Felipe, o lateral esquerdo de origem e meio-campista em função de seu imenso talento, admitiu que sua carreira chegou ao fim. Desde o fim do vínculo com o Fluminense no final de 2013, o jogador aguardou o contato de outros clubes e chegou a sonhar com uma partida de despedida do futebol envergando a camisa Cruzmaltina, mas, resignado, aceitou o fim de sua carreira e, em um balanço geral, avaliou sua carreira como muito positiva.

“É óbvio que fica chato você parar desse jeito, não ter uma despedida. Mas não fui o único e não vou ser o último. Então estou bastante tranquilo, consciente que minha carreira no futebol foi legal. No somatório de tudo foi bem legal,” comentou.

Tudo começou quando Felipe ainda tinha seis anos de idade e começou a se criar no Vasco da Gama, sua casa, seu lar. A estreia como profissional aconteceu no Campeonato Brasileiro de 1996, em um clássico contra o Botafogo. A vitória por 2×1 foi só o prelúdio do que o jovem – que ficaria conhecido como o Maestro – conquistaria com a camisa vascaína.

O ano virou e Felipe firmou-se como titular em 1997, época excelente para o clube carioca. Mesmo em um elenco que contou com grandes estrelas, como os experientes Carlos Germano, Mauro Galvão e Evair, os jovens talentos Pedrinho, Juninho Pernambucano e Ramón e ainda com um “Animal” no ataque – Edmundo –, Felipe destacou-se e foi uma das peças chave no título do Campeonato Brasileiro. Atrevido, o atleta firmava-se como uma das grandes opções para a lateral da seleção canarinha.

Veio 1998 e com ele a afirmação de uma geração vascaína inesquecível. Primeiro o Cruzmaltino conquistou o Campeonato Carioca e, logo após, o título que consagrou Juninho Pernambucano: a Copa Libertadores da América. Dono do Rio de Janeiro, do Brasil e da América, o Vasco teve a oportunidade de disputar o Mundial de Clubes, contra o poderoso Real Madrid. Apesar de ter criado várias chances e jogado em grande nível, o Vasco foi batido. Essa derrota foi a partida mais marcante e a primeira e maior decepção de Felipe pelo clube carioca, como ele próprio asseverou em entrevista ao Globoesporte.com.

“O jogo que mais marcou foi a final contra o Real Madrid. O Vasco não venceu, mas fomos superiores. Eu joguei bem, fiz boas jogadas que não terminaram em gol. Mas futebol tem dessas coisas. Uma pena.”

Apesar da derrota ter tido um peso considerável, Vasco e Felipe continuaram vivendo uma senda de grandes vitórias e títulos nos anos 1999 e 2000, levando o Torneio Rio-São Paulo (1999) a Copa Mercosul e mais um título brasileiro (2000). Apesar disso, o jogador conviveu com algumas lesões na temporada e perdeu um pouco de espaço. Era a hora de sair.

Em 2001, Felipe viveu novamente um ano difícil. Emprestado primeiro ao Palmeiras e depois ao Atlético Mineiro, até viveu bons momentos, tendo sido semifinalista da Copa Libertadores pelo alviverde e do Campeonato Brasileiro pelo alvinegro. Mas seu futebol já não era mais o mesmo do início de carreira e o jogador começou uma transição que foi extremamente positiva para sua carreira: a mudança da lateral para o meio-campo. Nesse tempo, também se envolveu em conflitos, sendo multado por faltar a treinos no Palmeiras.

No ano seguinte retornou ao Vasco, onde voltou a ser destaque, já adaptado ao meio-campo. Apesar disso, algumas rusgas com o “Poderoso Chefão”, Eurico Miranda, o levaram a uma nova e diferente empreitada. Felipe decidiu encarar a experiência de ir para a Europa e acertou com os turcos do Galatasaray, onde permaneceu por apenas uma temporada. Apesar de seu talento, não mais voltou ao futebol europeu.

De volta ao Brasil, Felipe deu um duro golpe no torcedor vascaíno e fechou com o Flamengo, onde viveu uma das mais brilhantes fases de sua carreira. Jogando em um time apenas razoável, deu dribles desconcertantes, lançamentos preciosos e conduziu o clube a duas finais de Copa do Brasil – a primeira perdida para o Cruzeiro e a segunda para o Santo André – e ao título carioca de 2004. Neste mesmo ano, o Maestro conquistou a Copa América pela Seleção Brasileira, sendo reserva do craque Alex.

Felipe

O ano 2005 chegou e mais controvérsias se instalaram na carreira de Felipe. Ainda no Rio, mas no Fluminense. Primeiro, envolveu-se com problemas pela camisa 10 com Petkovic, em decorrência de seu contrato com a Nike. Depois, foi suspenso por 180 dias por agredir um atleta do Campinense, em partida válida pela Copa do Brasil e, por fim, foi multado por faltar a treinos. Dispensado no final do ano, o meia frustrou os interesses de Vasco e Cruzeiro e, contrariando as expectativas de um retorno à Europa, foi para o nebuloso “Mundo Árabe”, onde atuou no Al-Saad do Qatar, por cinco anos.

No Qatar, o Maestro virou Mágico e conquistou a Liga local duas vezes, e as Copas Emir Crown e Emir of Qatar uma vez. E acumulou prêmios individuais, tornando-se o melhor jogador estrangeiro a atuar pelo clube na história. Feito que não é pequeno, tendo em conta que jogadores como Romário, Emerson Sheik, Abedi Pelé e Raúl González passaram por lá. Mas cinco anos longe do Brasil foram suficientes para Felipe e era chegada a hora da volta às suas origens. Já presidido por Roberto Dinamite – grande opositor de Eurico Miranda – o Vasco repatriou sua cria, que voltou a exercer bom papel no clube que o talhou para o futebol.

Entre 2010 e 2012, Felipe foi muito importante para o Vasco. Já sem o fôlego e a juventude de seu início, mas tão inteligente e habilidoso quanto antes, foi peça importantíssima no título da Copa do Brasil de 2011 e nas boas campanhas do Brasileirão de 2011 e da Copa Libertadores de 2012. Mas, com salários atrasados, comandou junto com Fernando Prass, Nilton e o Reizinho Juninho uma debandada do clube.

Seu ato final não foi digno de seu futebol e sua carreira. Em 2013, retornou ao Fluminense, mas esteve longe dos holofotes. Foi reserva na maior parte do tempo e, com a briga do clube contra o rebaixamento no Brasileirão, não repetiu as boas exibições da maior parte de sua carreira.

Aos 36 anos e em meio ao conflito entre Portuguesa, CBF, Fluminense e STJD, Felipe saiu pelos fundos, de mansinho, sem alarde. Talentoso e controverso, genioso e genial, mostrou-se sereno e tranquilo em seu adeus.

Doentes, é com pesar que penso sobre os dribles e passes que não mais verei e sobre as contendas – que tornam o futebol ainda mais apaixonante – que não mais repercutirão. Assim, lembrando-me deste grande jogador, digo de forma humilde e singela:

Obrigado, Felipe!

Vídeo com lances de Felipe em suas passagens pelo Vasco:

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho), 25 anos. Admito minha preferência pelo futebol bretão, mas aprecio o esférico rolado qualquer terra. Desde a infância, tenho no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; o melhor jogador que vi jogar foi o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Estou também no O Futebólogo e na Revista Relvado.