O mais irracional dos sentimentos

Foto: Reprodução - Futebol, um esporte inspirador.

Foto: Reprodução – Futebol, um esporte inspirador.

Por O Futebólogo

Não. Não me deram o dom de bem tratar a bola. O muito que recebi é pouco para o espetáculo. O chute forte de esquerda jamais bastaria para embelezar a cancha. Apesar disso, a vontade de jogar, a dedicação e o amor pelo esporte me permitiram aprimorar alguns fundamentos na infância – quando o sonho de vestir a camisa 6 do Galo ainda era possível e permitido.

Passou o tempo e o devaneio de criança me fez peladeiro. O prazer conseguido com o mero toque na pelota segue existindo e a vontade de dar o meu melhor continua viva. Se a fantasia infantil, de um futuro em meio as quatro linhas, já não existe, a cada vez que abro o armário e pego – com todo o cuidado do mundo – camisa, short, meião, tornozeleira (porque a peleja deixa suas marcas) e chuteira, sinto-me parte do jogo. A cada vez que piso numa quadra, num campo society ou numa verdadeira relva, sinto-me num grande palco e dedico-me a cada jogada como se vivesse daquilo – e, aqui, as dores que perduram na semana seguinte testemunham em meu favor.

Mas não é só a prática que inspira seriedade, paixão e emoção.

O dia era 10 de julho, do inesquecível ano de 2013 e, diferentemente da grande maioria dos torcedores, aproximei-me do temido “Horto” sozinho, observador e concentrado, enquanto o som de Guerrilla Radio, saído dos fones que sempre me acompanham, inflamava-me para uma decisão. Preparado para uma guerra e concentrado para uma decisão, ocupei meu lugar de fiel e romântico amante e apoiei como não antes o fizera. Esta foi apenas uma semifinal e o final dessa trajetória foi o título inédito e emocionante do Atlético na Copa Libertadores da América.

Foto: Bruno Cantini - Como tantas vezes, a torcida alvinegra foi combustível para o Galo em 2013.

Foto: Bruno Cantini – Como tantas vezes, a torcida alvinegra foi combustível para o Galo em 2013.

Mas que fenômeno é este que une torcedores, jogadores, bola, campo, dirigentes, vizinhos, parentes e completos desconhecidos? O que é que nos leva irremediavelmente a gastar o dinheiro que não temos, a debilitar nossa amiga garganta e a amar apaixonadamente atletas e instituições? Que fenômeno é esse?

Ao ver El Gordito Salvador Cabañas, que por obra de um destino cruel foi “agraciado” por seus gols e belas partidas com uma bala na cabeça, tentar se reerguer nos pequeninos 12 de Octubre, General Caballero e no modestíssimo Tanabi do interior paulista – por onde passaram os folclóricos Edílson, Viola e Túlio Maravilha – não consigo enxergar irracionalidade. Por outro lado, meu coração preenche-se de emoção.

Foto: Tanabi - Cabañas tenta, aos poucos, se reerguer.

Foto: Tanabi – Cabañas tenta, aos poucos, se reerguer.

Notoriamente acima do peso, Cabañas sucumbiu, como muitos, aos encantos do esporte bretão mais amado no mundo. Caiu num mundo sem volta. A contragosto dos médicos e recebendo um valor ínfimo, não abriu mão de continuar vivendo o sonho que preenche o íntimo de milhares de crianças e que, em seu caso, foi realidade.

E não é só Cabañas que contrariou e contraria prognósticos desanimadores. O que dizer dos times dos europeus Torino e Manchester United, que sofreram verdadeiras e reais tragédias aéreas que terminaram com a morte de vários atletas? Só um amor muito grande poderia manter a chama destes clubes acessa. Il Grande Torino e os Busby Babes nos deixaram, mas, na memória, imaginação e coração dos torcedores, estão eternamente marcados.

Mais que isso! Como justificar o feito do Dinamo de Kiev na Segunda Guerra Mundial?! Conscientes das consequências fatais que uma vitória contra um escrete formado por soldados nazistas poderia trazer, os jogadores deixaram a “prudência” escondida num canto qualquer do campo e golearam impiedosamente os germânicos, o que não passou impunemente e grande parte dos atletas foram executados. Onde esteve o bom senso?

Foto: Reprodução - Como diz o título do livro Eduardo Galeano, Futebol ao sol e à sombra.

Foto: Reprodução – Como diz o título do livro Eduardo Galeano, Futebol ao sol e à sombra.

Mas sejamos menos trágicos. Os vitoriosos dedos do histórico goleiro Manga, os joelhos do craque Ronaldo e o sorriso quase abestalhado de Ronaldinho Gaúcho são testemunhas oculares dos males dessa doença, que envolve pés que trajam travas e grama por onde rola uma esfera, que já foi composta pelos mais diversos materiais.

Como explicar o amor incondicional de milhares de pessoas pela mera visão de outros 22 indivíduos do sexo masculino correndo atrás de uma bola? Como entender o porquê de centenas de milhares de milhões gastarem seu suado dinheiro em mesas de bar que debatem, exaltadamente, táticas, performances, erros e acertos de pessoas que dificilmente verão alguma vez na vida?

Curiosamente, para todos esses casos, díspares e distintos, há apenas uma simplória e pouco explicativa resposta. Desde a minha particular dedicação às peladas (pelas quais ainda pago…), passando por verdadeiras tragédias e acidentes de percurso, tudo gira em função de uma única e exclusiva explicação. Isso, caros Doentes, é paixão, um irracional e delicioso (e aqui não há incoerência) jeito de existir.

Foto: Grêmio FBPA - Num esporte tão emocionante, até os estádios representam muito. Os gremistas nunca se esquecerão do Olímpico.

Foto: Grêmio FBPA – Num esporte tão emocionante, até os estádios representam muito. Os gremistas nunca se esquecerão do Olímpico.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.