Os erros do Barcelona na atual temporada

  • por Raniery Medeiros
  • 7 Anos atrás

escudo-barcelona

Fim de um ciclo? O fôlego acabou? O Barcelona, um dos times mais aclamados nos últimos tempos, parece estar entrando em rota de colisão consigo mesmo. A atual temporada vem sendo um pesadelo para seus torcedores e muitos dos tropeços que os blaugranas sofreram estão fortemente ligados ao que acontece dentro do clube. Compilamos aqui algumas das muitas questões levantadas diante do atual desempenho do time.

Martino não foi a melhor solução

Com a doença de Tito Vilanova, a diretoria resolveu apostar em “Tata” Martino, que vinha fazendo um ótimo trabalho no Newell’s Old Boys. O intuito da cúpula blaugrana sempre foi o da manutenção da filosofia e estilo de jogo que consagrou o clube nos últimos anos. Cada treinador possui seu estilo, mas Martino ainda não entendeu como funcionam as coisas no Barcelona e, aparentemente perdido mediante tantas indecisões táticas, não deu cara e corpo ao time. Tentou implementar um futebol mais vertical, mas começou a perder em posse bola. Voltou a ter a posse de bola, mas confundiu até mesmo a cabeça dos jogadores.

Foto: Miguel Ruiz (FCB)

Foto: Miguel Ruiz (FCB)

Escassez de zagueiros

Se perguntarmos qual o principal problema dos Culés, muitas pessoas vão dizer, sem titubear, que é a falta de zagueiros. São nítidos, perceptíveis e latentes os problemas defensivos que assolam cada vez mais o Barcelona. Em sua chegada, Martino disse que o principal reforço seria o retorno/recuperação de Carles Puyol. O capitão do time é um líder, fato. Mas como confiar em um atleta já veterano e sem condições físicas? Piqué, Bartra e Mascherano, para uma instituição que deseja estar sempre brigando por grandes títulos, não são suficientes. Vários nomes foram vinculados, mas nenhum foi contratado. Não sabemos se tal decisão partiu da diretoria ou do próprio “Tata”, mas é evidente que não há condições para grandes conquistas sem a aquisição de zagueiros. Vale lembrar que o problema é antigo: Campeão da UCL em 2011, o time já jogava com Piqué e Mascherano. Logo, são três anos de teimosia e inabilidade da diretoria.

Foto: Reprodução - Zaga improvisada, desde 2011

Foto: Reprodução – Zaga improvisada, desde 2011

Substituto de Xavi

Todo jogador, por mais craque que seja, sente o peso da idade. Quando esse “problema” chega, cabe ao treinador buscar alternativas. Xavi, que já está com seus 34 anos, não tem mais o mesmo ímpeto de outrora. Thiago Alcântara vinha sendo preparado para ser seu substituto, mas se sentiu desprestigiado no clube e resolveu aceitar uma proposta do Bayern de Munique. Sendo assim, um plano B deveria entrar em ação, mas parece que isso em nenhum momento existiu. O jovem Sergi Roberto, que é bom jogador, foi o “escolhido” para o cargo, o que seria pertinente há alguns anos atrás, quando Xavi ainda estava em plena forma e a transição poderia ser feita de forma gradativa. No entanto, com a necessidade imediata de substituição, apostar no camisa 24 não foi a melhor opção. Cesc Fàbregas poderia ser esse jogador, só que não possui as qualidades necessárias para isso.

Foto: Reprodução - Sucessão atabalhoada e sem visão de mercado

Foto: Reprodução – Sucessão atabalhoada e sem visão de mercado

O “verdadeiro” 9 fez falta

A função de “falso” 9 foi desempenhada de maneira sublime por Lionel Messi. No entanto, sendo bem marcado em algumas partidas, faltou ao time a utilização de outra importante estratégia: o camisa 9. Messi é um gênio, claro. Porém, quando as dificuldades apareceram, o elenco ficou sem um cara de referência, que causasse problemas aos zagueiros adversários. Se os principais finalizadores estão marcados, a saída é ter um atacante que “brigue” contra os marcadores e abra espaço para os mais habilidosos. Não é de hoje que o time necessita de um autêntico camisa 9.

Dúvida tática

Martino começou sua jornada promovendo algumas alterações táticas. Como foi dito anteriormente no texto, o treinador acabou por ficar perdido em suas próprias convicções. Nas primeiras partidas, bem que procurou ser mais vertical, utilizando mais bolas longas e “alargando” as jogadas. Com os pontas sendo bem vigiados e ficando longe do gol, o comandante passou a adotar um sistema que já não entrava na cabeça dos comandados. Lançar ou tocar? Chutar ou cruzar? O 4-3-3, que sofria várias mutações dentro da mesma partida, foi sendo anulado jogo após jogo. Sendo assim, alguns times menores passaram a marcar o Barça impondo duas linhas com quatro atletas e recuando um dos atacantes para marcar a saída de bola. Isso pode ser visto de maneira muito clara nos jogos em que o time atuou com quatro atletas no meio de campo e tendo Messi e Neymar mais à frente. Ganhou no meio, mas perdeu em profundidade. Após a eliminação na Champions League e o sofrimento para se manter vivo em La Liga, o técnico perdeu força e pode deixar o clube ao término da temporada.

Foto: Sport.es

Foto: Sport.es

Cadê o jogo coletivo?

O time de toque de bola, aproximação, marcação, pressão e infiltração parece ter evaporado. O toque de bola ainda existe, mas sem objetividade. A aproximação é esporádica. A marcação está espaçada, fazendo com que os zagueiros e laterais fiquem sempre expostos, tendo que jogar no mano a mano. O lado individual deve fazer parte do sistema, mas o que se vê no Barcelona é a perda de uma identidade, que é o jogo coletivo. Futebol não é ciência exata e nem vive apenas da parte física e tática. É preciso ter uma comunhão desses fundamentos. Atualmente, o que vemos são bolas lançadas pelos zagueiros, distância gigantesca entre a primeira e a última linha e o envolvimento coletivo enfraquecido. O Barça notabilizou-se pelos lances individuais e, principalmente, pela coletividade de um elenco em que um jogava para o outro, sabendo exatamente quais as funções que deveriam exercer em campo.

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Diretoria omissa e repleta de escândalos

Sandro Rosell nunca foi benquisto pelos torcedores. A relação começou a ficar desgastada após a falta de reforços pontuais, o que deixou os adeptos ainda mais raivosos. No entanto, após vários escândalos envolvendo o ex-presidente, que culminou com a sua demissão, o Barça perdeu o rumo. O que ocorre extracampo exerce, sim, influência no vestiário. Nem mesmo o ídolo Andoni Zubizarreta, diretor de futebol, ficou imune aos vários questionamentos que foram feitos pela imprensa e principalmente pela torcida. Sem diretores com visão de mercado, ficou difícil fazer essa transição entre uma geração e outra.

Foto: EFE - Má gestão, escândalos e renúncia do cargo

Foto: EFE – Má gestão, escândalos e renúncia do cargo

Os problemas do Barcelona são imensos. Não é oportunismo da nossa parte abordá-los agora, após algumas cacetadas que o clube tomou, pois as circunstâncias já são conhecidas de longa data. O que acontece hoje é fruto do péssimo trabalho da diretoria, do treinador que parece não estar preparado para um desafio tão grande e de muitos jogadores que caíram de rendimento. É preciso existir uma reformulação, preservando-se, é claro, o que o Barça tem de bom. O Barcelona precisa, para ontem, reencontrar seu rumo.

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