Por que o Galo de Autuori não emplaca?

Por O Futebólogo

Depois muito penar na última década – exceção feita ao ano de 2009 – o Atlético Mineiro cresceu imensamente nos anos de 2012 e 2013. Sob o comando de Cuca, que chegou ao clube em 2011 e ajudou a livrá-lo do rebaixamento, o clube foi vice-campeão brasileiro e venceu a Copa Libertadores. Como tudo na vida tem um fim, depois do fracasso no Mundial no fim do último ano, Cuca rumou para o futebol chinês e Paulo Autuori foi contratado para conduzir o Galo em 2014.

Desde então, o time mudou sua forma de jogar, perdeu intensidade, ganhou em posse de bola, mas tem tido desempenho ofensivo pífio. A “alegria nas pernas” que o time tinha em 2013, personificada pelo garoto Bernard, já não existe. Por que o Galo de Autuori não emplaca?

1 – Há um buraco no meio-campo

Atualmente, o esquema tático apresentado pelo Atlético é um 4-2-4 travestido de 4-2-3-1. Com quatro jogadores na linha de defesa (comumente Marcos Rocha, Leonardo Silva, Otamendi e Dátolo – ou Alex Silva) e dois volantes de pegada, o clube até se resguarda defensivamente com qualidade. O problema está adiante. Falta um armador ao Atlético, um jogador que faça o que modernamente chamamos de box-to-box. Existe um “vácuo” entre os setores de defesa e ataque no time, não havendo quem faça a transição.

Com essa situação, é comum ver o volante Leandro Donizete avançando ao ataque e errando muitos passes, na tentativa de dar movimentação à equipe. Sua intenção é boa, mas não é aí que reside sua qualidade. Da mesma forma, o meia-atacante (e aqui fica bem clara a diferença entre o “armador” e o “meia-atacante”) Guilherme tem tentado, por vezes, descer à defesa para começar a construção do jogo, o que não é sua característica.

No Galo atual, há grande distância entre volantes e meias.

No Galo atual, há grande distância entre volantes e meias.

Há aqueles que afirmam que a situação com o técnico Cuca já era essa. Entretanto, um mesmo argumento serve como resposta a este em suas duas possibilidades. Vejam bem: na primeira metade de 2013, o time tinha a presença de Bernard, jogador que se desdobrava tanto na marcação quanto no ataque, dando muita movimentação à equipe. Já na segunda, o time perdeu sua jovem joia e contratou Fernandinho, que nem de longe dedica-se ao time como seu antecessor. Contudo, a lesão contraída por Ronaldinho Gaúcho promoveu a entrada do “doidinho” Luan na equipe, que funcionou como uma “mola” no meio, atacando e defendendo muito e com disposição exemplar.

O problema não são os jogadores que não tem essa característica, e sim a falta de um atleta que desempenhe esse papel. O time precisa, claramente, de alguém que sirva de “ponte” entre o setor defensivo e o ofensivo.

2 – Falta um lateral esquerdo

Outra deficiência do elenco alvinegro reside na lateral esquerda. Contra a vontade da maioria da torcida atleticana, o clube deixou de renovar o contrato de Jr. César, lateral “nota 6” que não tinha nada de excepcional, mas era natural na posição e não comprometia. Para sua vaga, foi trazido Pedro Botelho, jogador com histórico de problemas extracampo e lesões. Até o momento, sequer jogou uma partida completa, permanecendo todo este início de ano machucado.

Lucas Cândido, volante utilizado por Cuca na função no ano passado, também está lesionado e, no momento, revezam-se na função o meia Jesús Dátolo e o jovem lateral direito Alex Silva. O primeiro peca muito na marcação, já o segundo pela inexperiência.

A aposta atual é o lateral/zagueiro Emerson Conceição, ex-Lille, Benfica e que estava na reserva do Rennes. Suprindo a lacuna, elimina um problema no Galo.

3 – Má fase individual dos grandes destaques

Além das dificuldades táticas apresentadas pelo time, os principais destaques do ano passado – Ronaldinho Gaúcho e Diego Tardelli – não vivem boa fase. O primeiro tem se mostrado muito desinteressado durante as partidas, movimentando-se pouco e sendo visto quase que exclusivamente nas cobranças de bola parada. Já Tardelli tem se mexido menos, voltado para a marcação com menor frequência e se mostrando excessivamente individualista, perdendo muitas jogadas e errando passes importantes.

Ao menos há uma luz no fim do túnel: Guilherme. O “presente de aniversário” de 2011 (foi contratado próximo do dia do aniversário do Atlético), parou de se lesionar e tem sido individualmente decisivo nas partidas, dando importantes assistências.

Sem a movimentação e a velocidade do ano passado, o time perdeu seu principal trunfo. Autuori mexeu onde não poderia. Quando refletiu e passou a aplicar um estilo de jogo “mais pensante e menos rápido”, destruiu o que havia de melhor no Galo. É possível uma readaptação? Talvez sim, mas tudo dependerá dos próximos resultados e da paciência (ou falta de) dos torcedores, da direção e até mesmo dos jogadores.

Hoje não há equipe no mundo que privilegie um jogador, deixando-o estático e livre de tarefas defensivas. Até os centroavantes dos grandes times têm responsabilidades na marcação dos zagueiros adversários. Ótimos meias como Oscar, Philippe Coutinho, Andrés Iniesta e todas as opções do poderoso Bayern de Munique são exemplos puros da importância da movimentação e da dedicação na marcação (ao menos fechando espaços). No Chelsea, o brasileiro William ganhou a posição de Juan Mata na disposição.

Seja como for, o clube precisa procurar soluções e corrigir deficiências, ganhando movimentação no meio, evitando deixar um “buraco” no setor e sendo mais solidário. Uma vez que o time esteja organizado, o futebol daqueles que não vivem sua melhor fase tende a melhorar. Para quem está de fora do riscado só resta aguardar e observar. O Galo tem deficiências? Sim, mas também possui muita qualidade. O time precisa mostrar seus predicados.

Comentários

Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.