Problemas, problemas e problemas

Às vésperas do início do Campeonato Brasileiro – Série A, o técnico Caio Júnior tem noção de onde estão alguns dos graves problemas do Criciúma para a sequência da temporada. Um dos maiores, indiscutivelmente, é o ataque. Foram 17 jogos em 2014, mas apenas 19 gols marcados. Destas partidas, o Tigre foi capaz de balançar as redes mais de uma vez em cinco oportunidades. Para tomar como comparação, a Chapecoense e o Figueirense, outros dois catarinenses participantes da primeira divisão, fizeram ao menos dois gols em 11 e oito jogos, respectivamente.

Após eliminação no Quadrangular Semifinal do Campeonato Catarinense, a diretoria carvoeira, que trouxe três centroavantes no início do ano, se viu obrigada e dispensar dois que renderam abaixo do esperado. Fernando Karanga, autor de 10 gols em 46 jogos pelo Boa Esporte em 2013, participou de apenas nove partidas em Santa Catarina, a maioria vindo do banco. Não balançou as redes e voltou ao clube mineiro. Já Rodrigo Silva foi a maior decepção. Depois de 25 gols em 38 jogos no último ano com a camisa do ABC, fez apenas um em Criciúma (único centroavante que fez gol pelo clube no ano) e causava calafrios na torcida quando pegava na bola. Hoje treina em separado no clube, esperando que alguém lhe contrate.

O jovem Gustavo é o único que ganhou sobrevida. Um dos artilheiros da Copa São Paulo de Futebol Júnior deste ano com nove gols, ainda pelo Taboão da Serra, ele tem o desconto de ter apenas 20 anos, mas mostrou inúmeras deficiências no posicionamento dentro da área e na movimentação dentro de campo que amadurecem a ideia de que deve ir para a base do clube para aprimorar alguns fundamentos.

Somado a isso, a dificuldade em contratar novos centroavantes é notória. O experiente André Lima até desembarcou em Criciúma, mas não ficou em função da péssima forma física que apresentava. Nomes são jogados no ventilador, mas nenhum se concretizou até o momento.

Caio Júnior já chegou até a testar Lucca como “falso nove”. Mas “Luquinha” é um caso a parte. Não é ponta porque fica longe da área (e também porque marca a subida do lateral adversário com a vontade de um javali morto), mas também não é centroavante. É o famoso “segundo atacante”, posição que está em extinção com a propagação do 4-2-3-1. É um caso a ser trabalhado com mais atenção.

Zé Carlos

Sem novidades, a torcida se vê na obrigação de sonhar com o retorno de Zé Carlos, artilheiro do time na campanha do acesso para a Série A com 27 gols, hoje defendendo o Al Sharjah (EAU). A própria diretoria do clube admite o interesse, mas enfatiza o alto valor cobrado. Caso volte, só seria depois da Copa do Mundo.

A verdade é que trazer Zé Carlos é atender aos desejos das viúvas que frequentam o Estádio Heriberto Hülse. Jogando há mais de um ano em ligas de pouca exigência física e técnica (além da liga emiratense, jogou na China), “Zé do Gol” seria uma aposta com mais chances de dar errado do que certo.

Prestes a completar 31 anos, Zé Carlos tem sete gols e duas assistências em 19 jogos na Liga Premier, sendo o artilheiro da equipe comandada pelo compatriota Paulo Bonamigo. Porém, nesta mesma quantidade de partidas, recebeu cinco cartões amarelos e um vermelho. É o atleta mais indisciplinado da equipe.

Verdade seja dita, também, o centroavante fez oito gols em sete jogos na Etisalat Emirates Cup (uma espécie de Copa da Liga).

O fato, porém, é que o risco maior é na questão física. Como citado anteriormente, Zé Carlos está em uma liga de pouca exigência física e, pior ainda, em que se treina pouco. Ele, que nunca foi uma potência física, envelheceu e perdeu bastante da forma que tinha. O faro de gol segue menos apurado, mas eficiente. Entretanto, é arriscado apostar nele vindo de um ano e meio em ligas pouco exigentes.

O problema é mais atrás

Além dos poucos gols, o Criciúma ainda tem um problema crônico na defesa. Nos 17 jogos, foram 16 tentos sofridos. Alguns pontos também merecem ser ressaltados: nas nove partidas da primeira fase do Campeonato Catarinense, o Tigre viu suas redes serem balançadas em sete oportunidades. Nos seis jogos do quadrangular semifinal da competição, já com Caio Júnior como técnico, foram seis gols sofridos.

Assusta também a quantidade de tentos sofridos depois de jogadas de bola aérea. Dos 16 gols, sete foram originados de jogadas aéreas. E o Criciúma têm zagueiros altos, sendo três com mais de 1,90m de altura: Sergio Escudero (1,94m), Rafael Donato (1,93m) Joilson (1,90m) e Ronaldo Alves (1,87m). Fábio Ferreira, que tem a mesma altura de Ronaldo Alves, só pode estrear no último dia 10 em função de dívidas com o Botafogo.

Mas só para tomar de exemplo da fragilidade aérea do Tigre, no jogo de ida pela Copa do Brasil diante do Londrina, o atacante Arthur, de 1,67m, fez dois gols de cabeça na zaga que tinha Escudero e Ronaldo Alves.

Este problema é nítido e, por incrível que pareça, pouco notado pela imprensa, que focaliza as críticas ao ataque pouco produtivo. E apesar de pouco mais de um mês no comando do clube, Caio Júnior tem culpa no fraco desempenho defensivo. Com ele na beira do gramado, ficou nítido o novo comportamento dos defensores, que, corretamente, trabalham mais a bola ao invés de apostar no famigerado chutão. Se Caio conseguiu influenciar neste quesito, pode (e deve) influenciar no posicionamento da defesa também.

A primeira mudança para tentar corrigir este defeito foi a vinda do defensor Gualberto, do Penapolense, para compor o elenco. A outra mexida foi controversa. Para a estreia de Fábio Ferreira, Caio sacou Ronaldo Alves, que concorre na Seleção do Campeonato Catarinense, mantendo no time o fraco Escudero. Lento, de posicionamento ruim, displicente e indisciplinado, o argentino parece intocável na defesa. E não adianta vir com desculpa que ele rendeu menos aqui que em outros clubes porque será mentira. Escudero veio mal referenciado para Criciúma e não é nenhum garoto. Não o conhecia quem não queria.

Outra alteração se deu nas laterais. Caio Júnior demonstra vontade de querer encaixar o contestado lateral-direito Eduardo na equipe, mesmo que tenha de sacar o eficiente Ezequiel do time titular. Na esquerda, o jovem Rômulo perdeu espaço com as chegadas de Giovanni e do provável titular Cortez. Na esquerda, aliás, haverá outra dor de cabeça para o técnico. Cortez é reconhecidamente um lateral ofensivo e que não guarda posição defensiva. Se mal trabalhado, pode se tornar o que conhecemos nas gírias futebolísticas como “avenida”.

Vale lembrar que o Criciúma sofreu 187 gols em 123 partidas realizadas entre 2012 e 2013.

Não está tudo bem

Foto: Fernando Ribeiro - Criciúma E.C. - Paulo Baier busca se encontrar no Criciúma de Caio Júnior

Foto: Fernando Ribeiro – Criciúma E.C. – Paulo Baier busca se encontrar no Criciúma de Caio Júnior

A torcida clama por boas atuações (por raça, também, mas essa é uma das ladainhas incompreensíveis) e quer permanecer na elite. Caio Júnior, que há muito tempo não faz um bom trabalho em âmbito nacional, já não pode mais ser considerado um personagem alheio ao momento que vive o clube. Ricardo Drubscky, antecessor no cargo, foi demitido com sete jogos, tendo 57,1% de aproveitamento. Quando concluiu as mesmas sete partidas, Caio Júnior tinha 47,6% de aproveitamento. Hoje, com oito, o aproveitamento já é de 41,6%.

Claro que há a ressalva de que Drubscky teve tempo para treinar o time e, apesar dos resultados efetivos, as atuações deixaram a desejar, enquanto Caio pegou o barco andando. Entretanto, este tempo livre de jogos ocasionado pelas eliminações no Campeonato Catarinense e na Copa do Brasil é primordial para que possa achar uma equipe, coisa que parece estar distante de acontecer.

Caio começou escalando o time no 4-2-3-1, mudou para o 4-3-1-2 e retornou ao primeiro esquema. Já jogou até com “falso nove”. Contra o Londrina pela Copa do Brasil, promoveu seis mudanças se comparado com jogo contra o Figueirense. Para muitos, está testando e procurando a melhor formação. Para mim é falta de convicção. São muitas mexidas para tão pouco tempo.

E apesar de Caio parecer uma vitrola quebrada nas coletivas falando quase sempre que “este foi nosso melhor jogo” (sem importar se é vitória ou derrota), as constantes mudanças no time titular mostram que ele ainda está distante de encontrar a melhor formação.

Será que é por aí?

Comentários

Uma mistura maluca de pessoa. Academico de jornalismo, catarinense de origens italianas e espanholas, mas apaixonado pela bola que rola na terra da Torre Eiffel e pela gorduchinha que pinta os gramados cheios de chucrute da Alemanha. Não escondo minha preferência por times que tem uniformes nas cores amarelas e pretas, mas sempre com análises bem embasadas... ou não. Mas acima de tudo, sou um Doente Por Futebol.