Quando um Alvinegro conquistou Portugal: Boavista 2000-01

  • por Matheus Mota
  • 4 Anos atrás
Em pé: Ricardo, Litos, Pedro Emanuel, Rui Bento, Duda, e Sanchez; Agachados: Quevedo, Frechaut, Silva, Petit e Martelinho. Foto: Reprodução

Em pé: Ricardo, Litos, Pedro Emanuel, Rui Bento, Duda, e Sanchez; Agachados: Quevedo, Frechaut, Silva, Petit e Martelinho. Foto: Reprodução

De todos os campeonatos europeus, o português é um dos menos acompanhados por aqui. Não possuí um nível técnico acima da média, seus clubes médios não figuram em competições europeias, e quando o fazem, com exceção do Braga finalista da Europa League, raramente têm destaque, e os grandes não fazem frente aos esquadrões do resto do continente. Isso tudo poderia ser atenuado se o Portuguesão tivesse competitividade, mas não é bem isso que se vê. Por mais encarniçadas que sejam as disputas, elas historicamente se restringem a Porto, Benfica e Sporting. No entanto, no final dos anos 90 e começo dos 2000, uma equipe da cidade do Porto começava a incomodar os grandes.

Representando o bairro de mesmo nome, o Boavista era até a metade do século passado uma equipe que alternava participações na 1ª e na 2ª divisão, sempre de maneira discreta. A virada começou na década de 70, quando o clube conquistou 3 Taças de Portugal e fazia campanhas relevantes no campeonato. Depois disso, o Boavista se estabeleceu na parte de cima do campeonato, mas não conquistou nenhum título até 91-92, quando levantou pela 4ª vez a Taça de Portugal, que ganharia novamente em 96-97 – conquista que inaugurou o período mais brilhante do clube, que culminaria no título do Campeonato Português da temporada 2001-02 e em grandes campanhas em competições europeias.

Na campanha do título, Pacheco armou o time na maior parte do campeonato em um 4-3-3, mas a variação tática era impressionante, pois a equipe hora jogava com 2 meias mais defensivos, e por vezes apostava em 2 armadores. Mesmo com um esquema tático considerado ofensivo, o maior destaque do Boavista foi a defesa, que com 22 gols sofridos em 34 jogos foi a melhor de todo o campeonato. O sistema defensivo era composto pelo goleiro Ricardo (que viria a se destacar na seleção portuguesa na década passada), e pelos defensores Rui Óscar, o capitão Litos (remanescente da última conquista da Taça), o jovem Pedro Emanuel e o lateral brasileiro Érivan. Na contenção, Rui Bento (outro remanescente da conquista da Taça) era auxiliado por Petit e Frechaut, que não só tinham a responsabilidade de defender, como também tinham a incumbência de sair pro jogo com qualidade. Os garotos que se destacaram no time, Pedro Emanuel, Petit e Frechaut, tornar-se-iam peças importantes na seleção tuga na década passada.

Na armação, estava aquele que pode ser considerado um dos maiores ídolos do clube, o boliviano Erwin Sanchez. Sanchez era o cérebro do time, assim como ocorria na Seleção de seu país, e é sabido que recebeu a alcunha de “Platini” por conta de seu estilo de jogo, que julgavam ser parecido com o do francês homônimo. A origem do apelido é incerta, mas sua aura de mito é bem palpável. Reza a lenda que certa feita o atual presidente da Uefa foi barrado em um evento em La Paz, pois os seguranças não acreditavam que aquele era o “Platini” original. Deixando a lenda de lado e indo para o concreto, o boliviano, com mais de 100 jogos disputados pela equipe, tornou-se uma bandeira do clube, e pode-se dizer que se há algo em comum entre os torcedores do Boavista e muitos dos habitantes da Bolívia é a admiração pelo Platini dos Andes. Os diversos passes pra gols e os 9 tentos convertidos foram fundamentais no título português.

A dupla Duda e Silva. Foto: Reprodução

A dupla Duda e Silva. Foto: Reprodução

Na frente, o Boavista contava com um trio brasileiro; Duda, Silva e Whelliton. Dos 63 gols marcados pelo time do Bessa, 28 saíram dos pés dos três. Duda e Whelliton marcaram 10 e 7 gols, respectivamente, enquanto Silva foi o artilheiro do time, com 11. Silva (que sempre preferiu que o chamassem assim, dado seu primeiro nome – Elpídio) teve uma passagem marcante pelo clube, tornando-se o maior artilheiro da equipe em competições europeias, com 12 golos em 28 jogos disputados. Cabe salientar que Silva e Duda chegaram no clube somente naquela temporada, enquanto Whelliton estava lá desde 99. Ainda no ataque, está aquele que pode ser considerado um talismã do clube; Martelinho. O avançado já estava na equipe há 8 anos (ficaria mais 7 anos por lá), e os poucos gols que marcou, 4 ao todo, foram, em sua maior parte, em momentos capitais, em especial nas vitórias contra o Sporting, em que marcou aos 44 do segundo tempo, e no clássico contra o Porto, ambos no Estádio do Bessa.

Com 23 vitórias, 8 empates e 3 derrotas (sendo que a última ocorreu quando o campeonato já estava ganho), o Boavista somou 77 pontos, 1 a mais que o rival Porto. Consolidado no cenário nacional, os Axadrezados também foram bem no continente, passando para a 2ª fase de grupos da Champions 2001-02. Nela, superou em casa equipes como Borussia Dortumnd e Dynamo de Kiev, e segurou o Liverpool tanto no Bessa como em Anfield. No entanto, na 2ª fase, não conseguiu fazer frente ao Manchester United e ao Bayern de Munique. Na Copa da Uefa (atual Europa League) do ano seguinte, os portugueses só pararam no Celtic, nas semifinais, com um do sueco Larsson, em pleno Bessa.

Alguns anos depois, devido a problemas administrativos e judiciais, o Boavista acabou na 3ª divisão nacional. Do time campeão, ainda estão no clube Frechaut e Petit, o último, hoje, treinador. Já é sabido que o time voltará a integrar a elite do Português na próxima temporada, e é esperado que demorará um pouco até que retorne a brigar por títulos. Se bem que todos os campeonatos conquistados pela equipe foram inesperados.

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Paulista e torcedor do Santo André. Historiador, acompanha o futebol como um todo, mas sobretudo o lado mais alternativo da coisa.