Saber sofrer: o Dom do Atleti

  • por Henrique Negrini
  • 7 Anos atrás

Quando jogador, Diego Simeone destacou-se não só por suas qualidades com a bola no pé, mas por seu comportamento intenso. Entre gambetas e passes precisos, El Cholo não se abstinha de jogar duro quando necessário e de utilizar a catimba em ocasiões convenientes, como no célebre lance que ocasionou a expulsão de David Beckham na copa de 1998, em confronto entre Argentina e Inglaterra. Polêmico por seu jogo, Simeone tem, por muitas vezes, sua importância como jogador diminuída por pessoas mesquinhas, que invejam suas 106 partidas com a camisa argentina. Aposentado e agora comandando suas equipes à beira do gramado ao invés de dentro dele, Cholo recebeu sua grande chance no Atlético, de Madrid após treinar alguns anos em seu país de origem e ter breve passagem pela Itália. No primo pobre da capital espanhola, onde participou da conquista do último título nacional da história do clube, Simeone iria mostrar que suas habilidades como líder se estendem, também, ao cargo de treinador.

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A história do Atlético é muito comum no mundo do futebol: o clube é aquele irmão menor que sofre à sombra do primogênito. Mesmo em suas épocas mais gloriosas, Atlético não obteve sucesso comparável ao Real Madrid, dono de 32 títulos espanhóis, contra seus respeitáveis nove. Mais do que isso, os Colchoneros sofreram muito com a evolução recente do futebol moderno e suas cifras exorbitantes; sem um Florentino Pérez para fechar acordos bilionários e investir o dinheiro em contratações de impacto, o irmão menor de Madrid se viu relegado a um segundo plano na capital e, após conquistar sua última La Liga em 1995/96, chegou a amargar duas temporadas na segunda divisão (de 2000 a 2002).

A maré de sorte do Atleti começou a mudar na virada para a nova década. Com gestões competentes e investimentos que cresciam – o que permitiu contratações de peso –, o clube venceu duas UEFA Europa League e uma Copa do Rey, além de duas Supercopas da UEFA. Na atual temporada, no entanto, os comandados de Simeone vêm mostrando algo a mais, algo que os carregou até a semifinal da Champions League e lhes dá força para ousar desafiar a hegemonia de Real Madrid e Barcelona em âmbito nacional.

O sucesso do Atlético de Madrid culminou com uma vaga nas quartas de final da maior competição europeia, após vitória incontestável em confronto contra o Milan, nas oitavas de final. O adversário, sem embargo, seria o todo poderoso Barcelona, velho conhecido e algoz em tantas oportunidades. Após lograr um empate em 1×1 no Camp Nou, o Atlético viu a decisão ser trazida para sua casa, o Vicente Calderón. Ao entrar em campo, no dia 09/03, os Colchoneros não enfrentavam apenas uma das maiores equipes do mundo, centenas de milhões de euros em contratos de publicidade, banners gigantescos estampando os rostos e corpos dos craques barcelonistas em cada esquina; os jogadores rojiblancos entravam em campo contra a própria história do clube, marcado por derrotas doloridas e vivida à sombra do maior rival.

Antes da segunda partida, El Cholo Simeone havia dito sobre o estilo de jogo de sua equipe: “somos paixão, somos alegria, mas, se preciso, também sabemos sofrer”. Saber sofrer é qualidade subestimada no futebol. É o sofrimento que torna as vitórias saborosas, é ele que as torna quase palatáveis. Frequentemente, vemos equipes sucumbirem à pressão durante as partidas e certames. Times inteiros desmoronarem, implodirem. Não é o caso da equipe comandada por Simeone; poucas vezes um time reflete tão bem, dentro de campo, o espírito de seu treinador. Quem assistiu à partida percebeu claramente que os onze do Cholo tinham algo mais do que os onze de seu compatriota, Tata Martino.

Foto: AFP/Getty Images

Foto: AFP/Getty Images

Durante a transmissão, o narrador da ESPN Brasil, Paulo Andrade, sabiamente descreveu o Atleti como “um time de Libertadores jogando a Champions League”. Foi exatamente isso que se viu em campo nesta quarta-feira. O Barcelona era uma equipe burocrática, que tinha sua apatia traduzida na atuação preguiçosa de seu grande craque: Messi. O Atlético, por sua vez, jogava por seu treinador e por todos os momentos de angústia ainda vivos na memória de sua torcida. Era uma equipe aguerrida, viril e, sobretudo, segura de seu futebol.

O gol do Atlético saiu logo no início, em um lance sofrido – claro. Villa chutou na trave, a bola sobrou novamente para ele após cruzamento da esquerda e o atacante ajeitou de cabeça para Koke abrir o placar. Como fosse possível, a atmosfera no Vicente Calderón tornou-se ainda mais vibrante. O caos em vermelho e branco estava instalado e a torcida dava um show ainda mais espetacular se comparado à atmosfera blasé encontrada comumente no Bernabéu e no Camp Nou. A equipe de Madrid ainda mandaria duas bolas no poste, que poderiam tranquilizar o jogo, mas o futebol não queria isso. A classificação colchonera haveria de ser sofrida, como manda a história do clube.

Foto: Getty Images | Koke fazendo o gol da vitória contra o Barcelona.

Foto: Getty Images | Koke fazendo o gol da vitória contra o Barcelona.

À beirada do campo, Simeone chefiava seus comandados, que resistiam bravamente às desorganizadas investidas barcelonistas, enquanto ouviam seus hinchas entoarem cantos de “Choooolo”. Era o reconhecimento daquilo que viam em campo: uma equipe com a cara e alma de Diego Simeone. O treinador sentiu-se de volta ao José Amalfitani ou ao El Ciclón em dia de Copa Libertadores. A torcida colchonera urrava. Em seus gritos, todas as mágoas e aflições de crescer à sombra de uma gigante montanha e não poder ver a luz do sol por anos a fio. Cada grito era carregado de anos de sofrimento, de títulos perdidos e esperanças despedaçadas. Os jogadores sentiam seus torcedores e jogavam por eles e com eles. Cada desarme, cada carrinho, cada gol evitado era uma catarse coletiva da qual só é capaz quem está acostumado com o desgosto.

O Atlético de Madrid venceu por 1×0 e se classificou para a semifinal da competição. Tem pela frente Real Madrid, Chelsea ou Bayern de Munique, todos mais ricos, mais badalados e mais poderosos do que o primo pobre de Madrid. Seja qual for o confronto, os colchoneros estarão nadando em águas profundas. Águas mais rápidas, fortes, ricas e habilidosas do que eles próprios, mas o Atlético e seu craque, Simeone, nada temem, pois eles sabem sofrer.

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Profundo conhecedor do esporte mais popular do mundo. Formado em Relações Internacionais, mas apaixonado por futebol, acompanha de perto futebol europeu e brasileiro, com destaque para as ligas Inglesa e Alemã. Participa do projeto DPF como revisor, movimentando as pautas e eventualmente presenteando os leitores com seus belos textos. Barbado, irônico e bravateiro, entende que futebol se discute no bar com um copo de cerveja na mão e muita descontração.