#SomosTodosMacacos: é (de novo) o mercado, estúpido!

É o mercado, estúpido!

É o mercado, estúpido!

Desde o último mês de junho, o povo brasileiro foi tomado por uma sanha revolucionária que já levou milhões às ruas das principais capitais do país, em nome das mais variadas causas. O advento das redes sociais tem tornado mais fácil a associação entre pessoas indignadas com alguns dos anacronismos que ainda existem na nossa sociedade, e funcionam como catalisador dessas insurreições cada vez maiores de (cyber)ativistas políticos.

Todas essas manifestações se consolidam no mundo digital a partir do momento em que ganham uma “hashtag”, caractere especial utilizado pelos internautas para delimitar e, por que não, rotular um determinado assunto. Dentro desse mundo de muita revolta, muito engajamento e pouca ação concreta, todo o simbolismo do espirituoso gesto de Daniel Alves em reação às provocações racistas de que foi alvo no estádio El Madrigal prontamente ganharam um formato e um nome na Internet: a hashtag #SomosTodosMacacos.

#oGiganteAcordou: quando um slogan de uísque se transformou no lema de uma nação (Foto: Reprodução).

#oGiganteAcordou: quando um slogan de uísque se transformou no lema de uma nação (Foto: Reprodução).

Através dessa marca (ou de suas traduções), lançada na rede por Neymar, colega de Daniel no Barcelona e na Seleção, o planeta inteiro demonstrou seu repúdio ao ato do torcedor racista. E, em parte, graças a ela, o assunto ganhou relevância global, obtendo a adesão de várias outras celebridades do Brasil e do mundo.

Muito foi tuitado, postado, compartilhado. Muita (cyber)militância saiu da toca, certamente contaminada pelo mais legítimo sentimento de ojeriza ao ato de preconceito praticado em Villarreal – inclusive por parte do próprio Neymar, que sentiu na pele o escancarado racismo enraizado na sociedade espanhola. Mas acontece que, aos poucos, os bastidores da ação foram sendo descobertos, e logo veio a notícia de que tudo se tratava de uma ação planejada por uma agência de marketing brasileira.

Não que o simples fato de ter sido pensada em um suntuoso edifício no Itaim Bibi, em São Paulo, e não no seio do povo, desabone por completo essa manifestação. Afinal, sua razão de ser e seu espírito são, como dito, legítimos, e podem ter movido inclusive os publicitários que criaram a campanha. O problema é que o movimento, eminentemente anti-hegemônico, passa a ser completamente direcionado – pois teve sua vanguarda tomada ainda no berço – justamente por um dos setores da economia mais comumente responsabilizados pelo reforço dos estereótipos de cor, origem, credo e costumes.

Neymar sentiu na pele o racismo, mas terminou sendo artífice de (mais) uma campanha publicitária (Foto: Instagram/Reprodução).

Neymar sentiu na pele o racismo, mas terminou virando protagonista de (mais) uma campanha publicitária (Foto: Instagram/Reprodução).

Além do mais, não é a primeira vez que esse fenômeno acontece aqui no Brasil. Quem não se lembra do #VemPraRua, que embalou as marchas cívicas de junho passado? Criada por uma das maiores montadoras do mundo, a marca e o jingle da campanha terminaram virando mote de alguns desorientados em protestos relativos, vejam só, à mobilidade urbana das grandes capitais do país – o que expôs, com nitidez, o grau de alienação e de presença do consumismo em nossa sociedade, conforme apontou estudo publicado na época pelo jornal inglês Financial Times.

Assim, o povo brasileiro segue manifestando todo o seu ímpeto revolucionário, ainda que boa parte dele tenha tido sua existência limitada apenas às redes sociais. Inocente, porém efusivo; genuíno, mas cuidadosamente agendado; decidido e hesitante: exatamente o perfil de consumidor capaz de gastar módicos 69 reais para ver sua ânsia por mudanças estampada numa camiseta super cool, de tiragem limitada.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.