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  • por Matheus Mota
  • 4 Anos atrás
Jabaquara x Diadema pela Segunda Divisão Paulista 2013. Foto:  Divulgação/Jabaquara

Jabaquara x Diadema pela Segunda Divisão Paulista 2013. Foto: Divulgação/Jabaquara

No primeiro semestre do ano, o futebol nacional se resume a estaduais, aqueles torneios que ano a ano são criticados por sua baixa média de público, seu calendário, seu baixo nível técnico e outras coisas mais, sem levar em conta que esses são problemas vistos no cenário brasileiro como um todo. É certo que os estaduais permitem que equipes que não possuem muita expressão nacional sejam vistas, e todos ficam empolgados quando ao menos uma faz uma grande campanha. Sou daqueles que acredita que os estaduais não podem acabar justamente por isso; por serem os únicos certames em que muitos clubes possuem perspectivas. Claro, mudanças são necessárias, mas se for pra acabar com esses torneios, que se crie um calendário anual para todos os clubes profissionais. Utópico? Talvez, mas é algo em que vale a pena acreditar e trabalhar. Mas esse não é o meu foco hoje.

Dentre todos os estados membros da União, São Paulo é o que possui o maior número de divisões; quatro, ao todo – A1, A2, A3 e B, e houve um tempo em que haviam seis divisões, isso graças aos mais de 100 clubes profissionais que atuam anualmente no estado (explico a parte do “atuam anualmente” depois). A Série A1, por ser a 1ª Divisão do campeonato do estado mais rico do país, e por contar com quatro dos chamados “Doze Grandes”, possui uma visibilidade muito grande, o que é perfeitamente natural. Na A2 e na A3 vemos muitos clubes tradicionais, alguns frequentando algumas das divisões nacionais (exemplos emblemáticos são Guarani e Portuguesa, que disputaram a Série A do Brasileirão e a A2 do Paulista), tendo até mesmo coberturas televisivas para todo o Brasil. E existe a Série B.

A Quarta Divisão do Campeonato Paulista é um universo à parte do futebol do estado. As cifras que envolvem não são muito grandes; a FPF concede R$ 13 mil para cada clube participante, em uma competição que dura pouco mais de 7 meses. Isso, é claro, se a equipe conseguir chegar até a fase final. Caso contrário, a duração máxima é de 2 meses. O modelo de disputa é o mesmo visto nas Olimpíadas; os times devem ser sub-23, com no máximo três jogadores acima dessa idade em campo. Além disso, é uma competição que reúne uma variedade imensa de clubes, daqueles que frequentaram por muitos anos a elite do futebol paulista, como Portuguesa Santista, XV de Jaú e União São João de Araras, aos que sempre frequentaram as divisões inferiores, casos de EC São Bernardo, União de Mogi e Inter de Bebedouro (os dois últimos com mais de 100 anos, 1913 e 1907, respectivamente), passando pelos que começaram a pouco a buscar um lugar ao sol.

A Bezinha, como é chamada por seus admiradores, possuí um dos elencos mais numerosos e carismáticos do futebol brasileiro, mas infelizmente não é devidamente valorizada por muitos, incluindo a própria FPF. O repasse de verba para a competição é ínfimo, e o modelo de disputa é uma faca de dois gumes; de fato ele barateia os custos, pois jogadores em começo de carreira tendem a ter salários mais baixos do que aqueles que já se estabilizaram, e também daqueles que já estão em final de carreira, mas que possuem um nome no mercado. Mas esse modelo fecha muitas portas para jogadores acima da idade permitida, em um país em que a maioria dos clubes não possuem um 2º semestre garantido, o que inviabiliza a progressão da carreira de alguns atletas, que têm de procurar outros empregos para se manterem. Nessa divisão, não é anormal os clubes pagarem pouco mais de um salário mínimo aos jogadores. Por isso não é incomum ver o destaque de determinada equipe sair no meio da competição para ir jogar em mercados, digamos, incipientes, no exterior.

Em relação ao calendário, ainda que não seja o ideal, muitos clubes o adotam conscientemente. Como em muitos casos o dinheiro é pouco, monta-se um time pra ver no que dá. Se conseguir o acesso, ótimo. Se a campanha for boa, a agremiação terá mais credibilidade na hora de chamar empresários para trazerem patrocinadores e jogadores. Caso tudo isso dê errado, ao menos o prejuízo não será muito. Por conta disso, alguns clubes se licenciam, se afastando do profissionalismo, procurando se estruturar para um campeonato no futuro. Outra dificuldade desse calendário é chamar torcedores pro estádio, afinal, com a possibilidade de um time disputar apenas 10 jogos profissionais no ano, fica difícil fidelizar torcedores, o que leva a baixas médias de público. Existem clubes que frequentemente colocam mil torcedores ou mais nos estádios, mas são aqueles com uma tradição imensa, ou os que constantemente fazem boas campanhas, tendo então um número razoável de partidas por ano. Para os que são eliminados cedo, restam as disputas dos estaduais das categorias de base, sendo o sub-20 o principal deles (que por si só merece uma matéria), pois muitos clubes montam a base para a próxima competição nesses torneios.

Mesmo com todos esses contras, a Segunda Divisão (como é chamada oficialmente pela FPF) possuí muitos atrativos. A possibilidade de ver jogos legais é única; podem não ser um primor técnico, mas certamente têm o seu valor. Vemos uma série de clubes legais, oriundos de toda parte do estado, e estádios únicos, como o Espanha, do Jabaquara, que é rodeado pela Serra, ou o Taquarão, do Taquaritinga, que foi construído pela própria torcida para que o clube pudesse participar do Paulistão de 81. Detalhe; a obra durou apenas 3 meses.. É uma ótima oportunidade de conhecer diferentes cidades, clubes e canchas. Além disso, por ser o início da trajetória de muitos atletas, ou a última chance de brilho, é raro ver os jogadores fazerem corpo mole. Outro fator que torna possível ver jogos extremamente disputados é seu modelo de tiro-curto; com poucos jogos, cada tropeço é extremamente sentido. Por São Paulo ser considerada por muitos como a maior vitrine do Brasil, vários profissionais optam por lá, mesmo que seja para a Quarta Divisão. Todos os anos surgem jogadores interessantes, e a mais recentemente “revelação” da Bezinha foi o meia Paulinho, revelado pelo antigo Pão de Açúcar, que se tornou Audax, que hoje é o Grêmio Osasco Audax. Outros vêm para o estado já em fase final da carreira, como foi com o atacante Rodrigão, que disputou a competição por Portuguesa Santista e Jabaquara, ambos da Baixada Santista. Para esse ano, os principais atrativos são Paulo César, lateral que atuou no PSG, chegando a vestir a camisa da Seleção Brasileira em 3 partidas, e que defenderá o Taboão da Serra, e o atacante paraguaio Salvador Cabañas, que dispensa apresentações, pelo Tanabi. Há ainda aqueles jogadores que podem ser melhor observados, caso do atacante Sócrates, artilheiro do campeonato passado, com 17 gols, e que esse ano atuará pelo Nacional da Barra Funda.

Claro que muita coisa melhoraria caso um calendário que durasse o ano todo fosse instituído, o que serviria como moeda de troca dos clubes para com a mídia regional, pois fazer a cobertura de um campeonato que dure o ano todo é mais atrativo do que um que dure pouco mais de um mês. O crescimento de visibilidade fica em paralelo com o interesse do empresariado em expor suas marcas na competição, que atrairia um aporte de capital, elevando seu nível financeiro, e consequentemente, esportivo. Acredito que o fim do modelo Olímpico para o campeonato também seria benéfico, pois daria mais liberdade aos clubes montarem seus elencos da maneira como julgassem melhor, o que abriria mais portas de emprego para atletas.

Problemas existem, mas, ainda assim, é uma das competições mais legais do Brasil. São quase 40 clubes na disputa, e caso você more em São Paulo, é bem possível que hajam jogos perto de sua cidade. Ao invés de ficar parado em um sábado à tarde no domingo de manhã, por que não ir ao estádio?

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Paulista e torcedor do Santo André. Historiador, acompanha o futebol como um todo, mas sobretudo o lado mais alternativo da coisa.