Vica e Santa Cruz: amor que acabou?

(Foto: Divulgação).

Foto: Divulgação/Assessoria SCFC

Campanha heroica, acesso, título nacional. Volta por cima. Essa foi a tônica do Santa Cruz no final da temporada 2013. Depois de um início cambaleante na Série C, o time coral encontrou um padrão de jogo, subiu de produção, conseguiu uma classificação suada e garantiu uma promoção que, em alguns momentos, chegou a ser tida como improvável. Nada disso teria acontecido, no entanto, se a diretoria coral não tivesse resolvido apostar em José Luiz Mauro, o popular Vica. Foi ele o responsável por arrumar a casa, fechar o grupo e fazer uma equipe vacilante conquistar a taça mais importante da história tricolor.

Esse desempenho transformou Vica em unanimidade entre os torcedores corais. E esse clima de confiança e tranquilidade era o principal trunfo do Santa em janeiro, quando começava a preparação para a disputa do Nordestão e do Campeonato Pernambucano. Para ambas as competições, o Tricolor era visto por muitos como favorito: não havia perdido nenhuma das peças mais importantes da campanha de sucesso no ano anterior, e recebia ainda reforços para posições carentes do elenco, como os atacantes Cassiano e Léo Gamalho. Tudo parecia em ordem para que o torcedor comemorasse ainda mais êxitos no ano do centenário do clube.

Março (rubro)negro

Veio a Copa do Nordeste. O Santa fez uma primeira fase regular, terminando na vice-liderança de seu grupo, atrás do CSA. Nas quartas-de-final, eliminou o Guarany de Sobral com autoridade. A caminhada rumo à taça parecia consistente, ainda que o time não viesse apresentando o mesmo futebol do título da Série C – com o setor de meio-campo em crise técnica, faltava criatividade. Mas os resultados estavam aparecendo, e não havia motivo para preocupação.

Primeira visita à Ilha do Retiro foi traumática para o técnico coral (Foto: Divulgação).

Primeira visita à Ilha do Retiro foi traumática para o técnico coral (Foto: Divulgação/Assessoria SCFC).

Até que, em março, surgiu pelo caminho tricolor o Sport. Primeiro, no Campeonato Pernambucano, os rivais se encontraram na Ilha do Retiro e, ao contrário do que vinha ocorrendo nos últimos anos, o Leão exorcizou fantasmas do passado e saiu vencedor: 3×0. Uma semana depois, veio a primeira perna do confronto mais aguardado, agora, pela competição regional. Outra derrota, desta vez, por 2×0, que deixou o Santa em situação complicadíssima para o jogo da volta. No Arruda, uma partida atípica, cheia de polêmicas de arbitragem, e derrota por 2×1, que tirou de vez as chances tricolores de conquistar um título inédito e uma vaga, também inédita, em uma competição continental.

As três derrotas para o maior rival transformaram radicalmente o ambiente no Arruda. Foi-se a paz que reinava desde dezembro, e o clube passou a atravessar um momento de turbulência, com direito até a protestos de torcedores – que pediam a saída de Vica e a chegada de novos reforços. O nome do treinador passou a encontrar resistência até mesmo entre diretores, que chegaram a entrar em contato com o atacante Dênis Marques, desafeto do comandante. Apesar disso, a alta cúpula tricolor optou por não fazer mudanças drásticas nos rumos do futebol do clube.

Abril despedaçado

Aos trancos e barrancos, já sob desconfiança, Vica deu continuidade ao seu trabalho à frente do Santa Cruz. Com o foco exclusivamente no campeonato estadual – o único título que lhe restara no semestre –, o Tricolor deu sinais de que decolaria. Vitórias expressivas sobre Salgueiro (7×0), Porto (4×0) e Náutico (5×3) deram novo fôlego para o reencontro com o Sport. E quando recebeu o Leão no Arruda, o Santa se apresentou melhor: vencia até os 35 minutos da segunda etapa, mas terminou cedendo o empate. Um resultado decepcionante pela recente sequência de derrotas, mas que aumentou a confiança da torcida em face do novo encontro com os rubro-negros que aconteceria nas semifinais.

Chegada a segunda fase do Pernambucano, sede de vingança. O primeiro Clássico das Multidões seria no José do Rego Maciel, onde quase 30 mil torcedores corais acreditavam na classificação à final. Vica promoveu à titularidade o volante Memo, o que aumentou o volume de jogo do time e anulou o meio-campo rubro-negro. O resultado foi um 3×0 acachapante, que teria deixado o Santa Cruz com um pé na decisão – não fosse o bizarro regulamento do certame. Mesmo tendo vencido com larga vantagem no saldo de gols, a derrota por 1×0 na Ilha do Retiro levou a disputa para os pênaltis. E na marca da cal, o Sport terminou confirmando a virada e seguindo na competição.

Foi novamente na casa rubro-negra que Vica viu crescer a insatisfação da massa coral (Foto: Divulgação).

Novamente na casa rubro-negra, Vica viu explodir a insatisfação na massa coral (Foto: Divulgação/Assessoria SCFC).

Assim, praticamente se acabaram as chances tricolores de marcar seu centenário com um título de expressão. Para Vica, as eliminações representaram o fim de sua relação amigável com a torcida. Seu conservadorismo na hora de armar o time e a estratégia adotada no jogo de volta das semifinais, de apenas se defender e deixar o Sport jogar, deixaram boa parte dos torcedores descrente no trabalho que fez tanto sucesso em 2013. O que prometia ser um ano festivo e glorioso não vem passando, até o momento, de uma sucessão de desilusões. Mas apesar disso, Vica foi mantido no cargo para a disputa da Série B, torneio ao qual o Tricolor volta cercado de expectativas, após quatro anos de ausência. Certamente, será a última chance para o treinador se reinventar, voltar a fazer o seu time evoluir e salvar seu emprego – sabendo que uma nova frustração pode decretar o fim desse bem sucedido casamento.

P.S.: O título é inspirado pela bossa do Sambalanço Trio, de César Camargo Mariano, Humberto Cláiber e Airto Moreira. O ano é 1964.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.