As condenações de Barbosa e Escobar

  • por Edson Vinicius
  • 6 Anos atrás
Barbosa e Escobar foram condenados sem direito de defesa

Barbosa e Escobar foram condenados sem direito de defesa

O princípio jurídico da PRESUNÇÃO DA INOCÊNCIA diz que toda pessoa acusada é presumidamente inocente até que se prove o contrário, num julgamento no qual lhe sejam asseguradas as garantias necessárias à própria defesa. Ocorre que muitas vezes este princípio não é seguido, principalmente em casos de forte teor passional, onde há uma inversão de valores. A pecha de “culpado” já é antecipadamente colocada no réu, antes que se tenha um julgamento.

Assim é no futebol, onde paixão, ódio, alegria e frustração andam de mãos dadas. E assim foi com o goleiro brasileiro Barbosa, eleito o culpado pela derrota do Brasil para o Uruguai no jogo final da Copa de 1950, em pleno Maracanã superlotado. E, também, com o zagueiro colombiano Andres Escobar, considerado o culpado pela desclassificação de sua seleção ainda na primeira fase da copa de 1994, ao fazer um gol contra (o de abertura do placar) na partida contra os Estados Unidos, pela segunda rodada do grupo.

No caso de Barbosa, ninguém levou em consideração as falhas de marcação e cobertura do lateral Bigode e do zagueiro Juvenal. Ninguém responsabilizou o clima de “já ganhou” que tomou conta da delegação e torcedores brasileiros dias antes do jogo decisivo. O único “indiciado” foi o goleiro que não defendeu o chute rasteiro e rente à trave desferido por Gigghia, jogador que correu livre por quase 40 metros até chegar à área brasileira em condições de finalizar.

Quanto a Escobar, esqueceram que a seleção colombiana, considerada então a melhor da história do país, já havia perdido o jogo de estréia de forma categórica por 3×1 para a Romênia. E também desconsideraram que, no mesmo jogo contra os EUA, o time americano ainda marcou o segundo gol, abrindo 2×0 na partida (no final do jogo a Colômbia descontou). Ficou tudo na conta do gol contra marcado pelo defensor colombiano.

Os dois jogadores, já previamente considerados culpados, foram julgados sumariamente. E ambos pegaram pena máxima.

Escobar foi condenado à pena de morte. Dez dias após o fatídico jogo, ele foi assassinado com seis tiros por Muñoz Castro, quando estava dentro do seu carro, em frente a uma boite em Medelín – supostamente após uma discussão acerca do gol contra. Outra versão diz que o homicídio foi encomendado a Castro por apostadores colombianos que perderam muito dinheiro com o fracasso da seleção na Copa. Sua morte causou comoção nacional, e mais de 120 mil pessoas compareceram ao seu enterro. Anos depois, uma estátua em sua homenagem foi inaugurada em Medelín. Restou aos seus familiares o consolo da absolvição póstuma do jogador.

Barbosa foi condenado à prisão perpétua. Foi prisioneiro da sua suposta falha até o fim da sua vida e carregou a marca de ser o responsável pelo Maracanazo até a data de sua morte. Quando Barbosa foi impedido pelo então técnico Carlos Alberto Parreira de visitar a seleção brasileira na Granja Comary durante a preparação para a Copa de 1994, sob a alegação de que sua presença poderia influenciar negativamente o ambiente da equipe, o próprio ex-goleiro afirmou:
– “A pena máxima para qualquer pessoa no Brasil é de 30 anos. A minha já dura 44 …”

E ainda cumpriria mais seis anos, até o dia de sua morte, em 07 de abril de 2000. Naquele dia, finalmente, após 50 anos, Barbosa estava livre de sua pena.

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Médico clínico geral e geriatra, apreciador do bom futebol, doente pelo Flamengo e viúva de Zico!