Long live Dario

  • por Matheus Mota
  • 7 Anos atrás
Dario Dubois, ícone das divisões inferiores argentinas. Foto: Reprodução

Dario Dubois, ícone das divisões inferiores argentinas. Foto: Reprodução

No futebol, há uma série personagens emblemáticos, que ficam marcados na história do esporte. A bem da verdade, todo esporte tem os seus mitos, atletas que se destacam por conseguirem alcançar feitos até então considerados inalcançáveis. Mas é certo que o futebol é bem democrático neste aspecto, e vários jogadores ganham uma aura especial mesmo sem terem sido grandes expoentes da arte. Este é o caso de Dario Dubois.

O nome é desconhecido do grande público. Na verdade, não é muito notório entre aqueles que não acompanham os níveis mais baixos do futebol. Argentino, Dario passou toda sua carreira defendendo times sem expressão de seu país, equipes praticamente semiprofissionais, com muito apoio de suas comunidades e quase nenhuma atenção da mídia. Ele ficou conhecido mais por suas atitudes do que por sua técnica e hoje é uma das lendas do Ascenso argentino.

Nas divisões de acesso, é comum os atletas não viverem apenas de futebol. Dario trabalhava como técnico de som e músico em casas de shows de Buenos Aires, mais especificamente aquelas voltadas aos roqueiros, como ele. Fã confesso de black metal, Dubois costumava pintar o rosto à moda de alguns artistas do gênero.

Sua primeira aparição a caráter foi no clássico entre Midland e Argentinos de Merlo. Depois de conseguir a maquiagem com uma travesti que conhecia, o jogador pediu permissão para usar o vestiário dos árbitros, o único que tinha espelhos. Ao entrar no gramado, todos se espantaram. Os companheiros de Midland acharam graça, mas alguns adversários ficaram intimidados. Segundo o próprio Dario, como torcedor do Midland e fã de rock, era propício pintar o rosto num clássico, da mesma maneira que povos antigos quando iam à guerra. Apesar da maquiagem assustadora e do discurso belicista, o zagueiro viu o cartão amarelo em apenas 4 oportunidades nas 22 partidas que disputou naquela temporada.

No entanto, depois de 14 jogos de cara pintada, a AFA (Asociación Del Fútbol Argentino) proibiu o atleta de continuar pintando o rosto, com a justificativa de que isso trazia uma má imagem para a competição. Estranhamente, a AFA se silenciava para outras questões de fato relevantes envolvendo o torneio.

Um exemplo disso foi o que ocorreu durante uma partida entre a equipe que Dario defendia, o Midland, e o Excursionistas. O zagueiro foi expulso ao receber o 2ª amarelo, depois da 2ª falta que havia cometido. Ao sacar o vermelho, o juiz deixou cair 500 pesos, que foram pegos por Dubois. Houve, então, um salseiro entre todos os envolvidos na partida: juiz, jogadores, comissão técnica e quem quer que estivesse dentro das 4 linhas. No final, devolveu o dinheiro, não sem antes disparar que “esse é o prêmio que ganha ao me expulsar seu filho da p…”.

Outro causo ocorreu quando defendia o Yupanqui. Um patrocinador garantiu que daria 40 pesos para todos os atletas se conseguissem a vitória. A equipe conseguiu três vitórias seguidas, mas não viu nem a cor do dinheiro, fazendo com que o camisa 4 decidisse cobrir a marca do patrocinador com fita adesiva. No dia de colocar seu plano em prática, Dario acabou esquecendo a fita. Em campo, o atleta fingiu se persignar, causando estranheza, já que era ateu. Na verdade, ele estava pegando a lama do gramado (havia chovido no dia) e cobrindo o patrocinador com barro. Também houve ocasiões em que ele denunciou tentativas de suborno para que entregasse o jogo.

Dario parou de jogar aos 34 anos, não por opção, mas por conta de uma lesão que sofreu no joelho. Seu clube na época, o Victorino Arenas, não pôde custear o tratamento e, como o próprio Dario não podia pagar, ele teve que deixar o futebol – não escondendo o sonho de poder fazer a cirurgia e voltar a jogar. Todavia, esse sonho foi interrompido em 2008, quando, em um assalto, levou dois tiros. O jogador foi internado, mas não conseguiu resistir e acabou falecendo.

O fato não ganhou manchetes nos jornais, nem foi de conhecimento geral. Mas, para aqueles que acompanhavam o Ascenso, não foi só a perda de um jogador emblemático, uma lenda das divisões inferiores, mas de uma boa pessoa. Diz-se que não havia como não gostar dele, seja por sua simpatia, seja por seu caráter.

Dario Dubois. Foto: En Una Baldosa

Dario Dubois. Foto: En Una Baldosa

“Sou um palhaço que pinta a cara, mas que se mata pela camisa”.
Dario Dubois 1971-2008

Comentários

Paulista e torcedor do Santo André. Historiador, acompanha o futebol como um todo, mas sobretudo o lado mais alternativo da coisa.