Nasri nunca fez nada pela França

Foto: Reprodução - Nasri não ficou nem entre os 30 de Deschamps

Foto: Reprodução – Nasri não ficou nem entre os 30 de Deschamps

Já escrevi dezenas de textos com a temática “futebol”. Foram milhares e milhares de caracteres que estão em meus cadernos, blog, em sites que nem existem mais e, obviamente, aqui no Doentes Por Futebol. Pois então, falo com propriedade que este texto que você está lendo, meu caro adoentado futebolístico, é o que teve o título mais direto e crítico que já fiz.

Tinha em mente escrever sobre a ausência de Samir Nasri na seleção francesa que virá à Copa do Mundo antes mesmo da convocação do último dia 13. Era previsível. A falta de tempo me impossibilitou de preencher meu catálogo de textos anteriormente. Porém, posso garantir que a matéria prevendo a falta do atleta do Manchester City na lista teria tom menos crítico.

Entretanto, me sinto obrigado a mostrar a verdade de forma mais direta pelo choro que se criou com a ausência de Nasri na Copa. Em determinado momento, pensei que estávamos falando de Zinedine Zidane, Michel Platini, Dominique Rocheteau, Thierry Henry ou alguém do mesmo naipe. Porém, perto desses caras, Nasri é um ninguém.

Didier Deschamps tomou algumas decisões discutíveis na convocação, como levar o inconstante Clément Grenier e o mediano Loïc Remy, deixando fora Alexandre Lacazette, que fez ótima temporada no Lyon. O técnico também teimou em não dar chances concretas a André-Pierre Gignac do Olympique de Marseille, enquanto Karim Benzema estava sem marcar e Olivier Giroud não convencia. Mas deixar Nasri fora não foi discutível, não. Foi justo!

Mais calma, menos bagunça

O primeiro motivo é o temperamento do meia-atacante. A França sofre com isso há anos. Sempre tem alguém para armar confusão. Vale até fazer uma retrospectiva para que minha opinião, que será externada adiante, seja compreendida:

– Em 2008, na Eurocopa da Áustria e Suíça, o técnico Raymond Domenech promoveu decisões polêmicas, como deixar David Trézeguet fora da lista de convocados e não utilizar Thierry Henry na estreia diante da Romênia após uma suposta discussão entre os dois (a partida acabou 0x0 e a França viria a perder os outros dois jogos). A eliminação na fase de grupos colocou o técnico na berlinda, mas ele foi mantido;

– Na Copa do Mundo, dois anos depois, a França já havia se classificado de forma polêmica com o tão lembrado toque de mão de Henry no jogo contra a Irlanda. Durante a competição, a bomba explodiu. O supracitado atacante novamente era banco. Além disso, Nicolas Anelka foi cortado durante o torneio por ter xingado Domenech no intervalo da derrota por 2×0 para o México. Logo em seguida, repórteres franceses noticiaram que Franck Ribéry e Yoann Gourcuff teriam discutido dentro do avião. Mais adiante, o lateral Patrice Evra e o preparador físico Robert Duverne bateram boca e por pouco não foram às vias de fato. Para completar, os atletas boicotaram um treinamento em função do corte de Anelka. A eliminação na primeira fase ficou marcada como o maior vexame na história da seleção;

Foto: Reprodução - Na Euro 2012, Nasri polemizou com jornalistas franceses

Foto: Reprodução – Na Euro 2012, Nasri polemizou com jornalistas franceses

– Em 2012, na Eurocopa da Ucrânia e Polônia, foi a vez do principal personagem deste texto surgir. Logo na estreia diante da Inglaterra, Samir Nasri fez um belo gol de fora da área, empatando o jogo em 1×1. Na comemoração, ele colocou um dedo na boca, pedindo silêncio a alguns jornalistas. Digo “alguns” porque foi um gesto direcionado, não à imprensa em geral. O clima ficou mais tenso após a derrota por 2×0 para a Suécia. O técnico Laurent Blanc e o meia-atacante Hatem Ben Arfa discutiram nos vestiários e o atleta ameaçou deixar a concentração. Os dois jogadores foram punidos pela FFF (Federação Francesa de Futebol), assim como Jérémy Ménez e Yann M’Villa, todos por mau comportamento. A péssima situação de Nasri ficou mais escancarada quando ofendeu e tentou agredir repórteres franceses na zona mista após a eliminação para a Espanha;

O que a França mais quer nesta Copa do Mundo, além de bons resultados, é paz. Didier Deschamps quer voltar para a Europa podendo dizer a Noël Le Graët, presidente da FFF, que conseguiu fazer com que o país fosse honrado após quase uma década de brigas.

Nasri esteve envolvido nessas confusões em 2012 e até hoje é um ponto fora da curva no temperamento. Só para tomar como exemplo, após a polêmica troca do Arsenal pelo Manchester City, ele não perde a chance de cutucar o ex-clube. Vale a pena arriscar um ambiente tranquilo, obtido principalmente após a heroica vitória sobre a Ucrânia, por um jogador como Nasri? Penso que não.

Rendimento ruim

O outro fator nada mais é que a bola que ele joga. “Ah, mas ele foi o jogador que mais criou chances na Premier League”, dirão os mais atentos. Sei disso tudo. Sei também que fez sete gols, deu sete assistências na competição e que foi o atleta com maior porcentagem de passes concluídos no Manchester City. Talvez não seja exagero dizer que ele tenha sido o melhor francês da temporada, pau a pau com Benzema. Não estou por fora do que ele apresentou em terras britânicas, muito pelo contrário.

Mas agora questiono: ele exibe números parecidos pela seleção francesa? Poupo-lhes de responder e falo em alto, sonoro, límpido e ótimo som que Samir Nasri não tem números nem próximos aos que tem na Inglaterra.

O meia estreou nos Bleus em 28 de março de 2007, contra a Áustria. De lá para cá, fez mais 40 jogos. Você sabe quantos gols ele fez? Somente cinco. E assistências? Tem ideia? Só quatro. Das 41 aparições pela França, 26 foram como titular, sendo substituído em 13. Números elevados (de forma negativa) para quem despontava na última década como “novo Zidane”.

Outro ponto interessante: com a camisa azul, Nasri enfrentou seleções gabaritadas como Itália, Uruguai, Alemanha e Espanha, mas, entre campeões mundiais, apenas a Inglaterra sofreu gols dele (no citado jogo na Euro 2012). Os outros quatro times contra os quais ele conseguiu marcar foram as “poderosas” Geórgia, Marrocos, Bósnia e Bielorrússia.

Serei justo e lembrarei que o tento anotado contra os bósnios classificou a França para a Eurocopa de 2012. Na ocasião, a momentânea derrota por 1×0 qualificava justamente a Bósnia, mas Nasri arrumou um pênalti (muita gente questiona o lance até hoje) e converteu o tiro.

Esse, porém, foi talvez o único momento de protagonismo do meia na seleção. Volto a insistir: é muito pouco para quem já foi chamado de “novo Zidane”. Samir Nasri, sete anos depois de debutar na seleção francesa, deveria ser o grande condutor do time ao lado de Franck Ribéry e Karim Benzema. A forma como explodiu no Marseille (entrou na seleção do Campeonato Francês com 19 anos e foi eleito melhor jogador francês de 2010) e a maneira como transitou por Arsenal e Manchester City sugerem isso. Mas a história não é bem assim.

Se Nasri tem irrisórios números de gols e assistências, Franck Ribéry, que já fez gol decisivo em Copa do Mundo (contra a Espanha em 2006), têm 15 gols e 24 assistências em 76 jogos. Karim Benzema, mesmo tendo enfrentado uma seca recente de 1222 minutos sem marcar, foi às redes 19 vezes e ainda deu 12 passes para gol nas 61 oportunidades em que vestiu a camisa da seleção francesa. Mathieu Valbuena, que sofre uma cobrança infinitamente inferior à do mancuniano, têm cinco gols e nove assistências (sete só na era Deschamps) tendo jogado dez partidas a menos.

Indisciplina + Desempenho ruim = péssima combinação

Foto: MCFC - Nasri têm cinco gols e quatro assistências pela França

Foto: MCFC – Nasri têm cinco gols e quatro assistências pela França

E aí voltamos a falar da questão da disciplina. Será que vale a pena arriscar o bom ambiente por um atleta que não rende na seleção? Vale a pena correr esse risco por um “novo Zidane” que nem consegue se firmar como titular num time que julga ter os melhores do país?

Vamos lembrar que o próprio Nasri não se ajudou nesta fracassada caminhada com os Bleus. Ele foi suspenso logo após a Eurocopa de 2012 pela confusão com jornalistas na competição. Quando novamente foi convocado, em agosto de 2013, mais de um ano depois, já pegou o bonde andando, com Deschamps já tendo moldado o time. Participou de seis jogos com o técnico, três como titular. Não agradou em nenhum.

A gota d’água foi no jogo de ida da repescagem para a Copa contra a Ucrânia. Titular em Kiev, Nasri teve atuação abaixo da crítica e entrou no bolo de atletas “queimados” pela comissão técnica. Bolo pequeno, diga-se de passagem. O outro jogador que ficou em maus lençóis após o citado jogo foi Eric Abidal, que anunciou aposentadoria da seleção minutos antes da convocação para a Copa, provavelmente, tendo ciência de que não seria lembrado. Laurent Koscielny, expulso na Ucrânia, foi outro “semiqueimado”. Expulso, perdeu espaço para os jovens Raphaël Varane e Mamadou Sakho, que hoje formam a dupla de zaga titular. Ainda assim, está entre os 23 convocados.

Mas de pouco adiantam os números no Manchester City se Nasri é essa negação na França. Muitos falam que “seleção é momento”, mas também é questão de confiança. Deschamps não confia em Nasri, até porque ele nunca rendeu com a camisa azul. Eu, que acompanho o futebol francês assiduamente, não confio nele e não o vejo sendo importante para o time. Muitos que não perdem um jogo dos Bleus compactuam da mesma visão.

Não é só o temperamento, nem disciplina ou algo do gênero. Fosse isso, Evra, líder da balbúrdia de 2010, estaria fora. Benzema e Ribéry, que já aprontaram mil e uma situações com prostitutas fora dos gramados, também não seriam lembrados. O problema é bola também. Nasri não é Zidane. Não é e nunca será. É bom jogador, sem dúvida. Teve temporada espetacular na Inglaterra, não nego. Mas não dá. A França quer paz, quer sair da Copa, campeã ou não, batendo no peito e dizendo que honrou a camisa. Os Bleus não querem meninos mimados que se acham no direito de questionar a tudo e a todos quando as coisas não acontecem da forma como querem.

Na coletiva de convocação, Deschamps foi preciso e correto. Pontuou a questão da disciplina e falou que o atleta não gosta de ficar na reserva. Mesmo convocado, seria banco atualmente. Mas ressaltou, principalmente, que Nasri nunca rendeu pela seleção o que rende nos clubes. Um ponto é interligado ao outro. Por que confiar em alguém destemperado e de pouco rendimento? É muito mais fácil ele aprontar e jogar mal do que se comportar e arrebentar na Copa. Digo isto com segurança!

Nasri agora fala em “reflexão” e até em aposentadoria do time nacional. Espero que reflita que nunca fez nada por ele. Que a França não o deve nada, muito pelo contrário. Pelo que prometeu quando surgiu e pelo que aprontou nos últimos anos, é ele quem está em débito.

Comentários

Uma mistura maluca de pessoa. Academico de jornalismo, catarinense de origens italianas e espanholas, mas apaixonado pela bola que rola na terra da Torre Eiffel e pela gorduchinha que pinta os gramados cheios de chucrute da Alemanha. Não escondo minha preferência por times que tem uniformes nas cores amarelas e pretas, mas sempre com análises bem embasadas... ou não. Mas acima de tudo, sou um Doente Por Futebol.