O Anti-Ferguson

  • por Doentes por Futebol
  • 7 Anos atrás
Arsène Wenger é conhecido por ser um grande técnico, mas hoje é também tido por muitos como "especialista em fracassos". Foto: Reprodução.

Arsène Wenger é conhecido por ser um grande técnico, mas hoje é também tido por muitos como “especialista em fracassos”. Foto: Reprodução.

Por Hugo Melo, especial para o Doentes por Futebol

Mais uma vez a bola bate na trave… Esta expressão tantas vezes dita nas últimas temporadas acaba por ser a metáfora ideal para descrever não só grande parte da trajetória do treinador Arsène Wenger mas também o novo fiasco na temporada 2013/2014 dos Gunners.  A impressão positiva deixada nos primeiros meses da nova temporada já não representa nada para a torcida de Holloway se não uma ilusão há muito distante.

Desde o começo fulgurante de um surpreendente Olivier Giroud, a afirmação da nova joia do País de Gales Aaron Ramsey à contratação bombástica do “Maestro” Mesut Özil (em certo momento líder de assistências na Europa), tudo se desfaz diante do desgosto de ver o time líder por 21 rodadas se resignar em um, de muitas formas amargo, 4º lugar.

Com o fechar das cortinas na Terra da Rainha, se completa uma seca de 10 anos sem um título na Premier League. Já não bastasse a má fase doméstica, no cenário Europeu o time londrino foi novamente eliminado nas oitavas (diante do então aparentemente invencível Bayern de Munich). A felicidade dos primeiros meses esbarrou nos malditos idos de março que vieram para sacramentar as celas do cavalo paraguaio (maldito pelo sangue derramado na década de 60 do século 19). Do atropelo sofrido contra o Liverpool na 25ª rodada se contaram 450 minutos de futebol até por fim a goleada no clássico do dia 22 de março: O impiedoso 6×0 aplicado pelo Chelsea enterrava de vez o sonho do Arsenal, que tirava seu cavalinho da chuva e do páreo. O time sentava conformado na 4a posição, que seria sua casa pelas próximas 9 e últimas rodadas do campeonato.

A apatia da zaga do Arsenal diante de um poderoso ataque dos Blues aos poucos martelava a consciência da torcida e o novo tropeço fazia aos poucos o Emirates Estadium (que ao que me parece deve ter sido construído em cima do cemitério de James Matthew Barrie) ir se parecendo com a velha Terra do Nunca (ou a terra do quase, tão quase que ainda guarda viva a esperança de que um dia Theo Walcott desperte e deixe de ser uma eterna promessa e se torne enfim uma realidade).  Um Eto’o, um Schurle, um Hazard, um Oscar, um Salah e meia dúzia de gols depois veio a velha indagação: o que cerca aquele pedacinho francês no gramado londrino?

Um dos maiores exemplos de uma longevidade tão pouco comum no mundo do futebol, a mesma cara pelos últimos 18 anos! 9 anos a menos que outro, e talvez o maior símbolo de longevidade e sucesso no futebol: Sir Alex Ferguson. Torna-se quase impossível não traçar um paralelo entre o escocês e o francês. Arsenal e Manchester são historicamente dois dos mais tradicionais times da Inglaterra e do mundo. Juntos, têm 33 títulos ingleses, sendo respectivamente o 3o e o 1o maior vencedor da competição. Sem contar com o imenso patrimônio financeiro dos clubes, ambas Enterprises avaliadas em bilhões de dólares. Ainda assim, ano após ano as janelas de transferências parecem ser menosprezadas pelo treinador francês, ainda que nenhum jogador seja para ele inalcançável, diante da grandeza do clube que insiste em investir em aparentes promessas.

Ainda assim, diante de toda a aparente igualdade, um abismo imenso: O Arsenal é o único entre os chamados Big Four a nunca ter conquistado uma Liga dos Campeões (motivo de chacota até para o hoje pequeno Nottingham Forest, bicampeão europeu). A maior similaridade sem dúvida jaz no banco de reservas: com a saída de Ferguson, Wenger se tornou o treinador em atividade há mais tempo em comando de um time na Premier League: São pelo menos duas gerações de torcedores de Manchester e Arsenal que não conhecem outra boca gritando à beira do gramado (os únicos a conservarem seus treinadores por mais de uma década dentre os cinco maiores clubes ingleses). E para Wenger, depois desses quase 20 anos, o que pode se dizer por seu legado? E mais, o que é seu legado comparado com o rival Ferguson?

Quatro Supercopas, quatro Copas da Inglaterra e míseros 3 Campeonatos Ingleses (míseros se levarmos em consideração a expectativa criada para um clube tão grande). Wenger, em 18 anos no comando de um dos mais poderosos times do planeta, conquistou onze títulos e não sabe o que é levantar uma taça qualquer há quase 10 anos. Sua maior conquista é por quatro vezes ter sido eleito o treinador do ano (nos mesmos anos em que ganhou seus títulos pelo clube, da temporada de 2000 à 2004), e parece ser um treinador mais vitorioso individualmente que o clube em si.

Se compararmos apenas os primeiros dezoito anos como treinador dos Red Devils, Ferguson conquistou oito títulos da Primeira Divisão Inglesa, uma Liga dos Campeões, um Mundial de clubes e outros treze títulos (contando uma Recopa e uma Supercopa Europeia). Só teriam bastado estes primeiros 18 anos para Ferguson já ser um dos maiores vencedores na história do esporte. Em contrapartida, Wenger desconhece títulos continentais e teve sua melhor campanha na temporada de 2005-06 quando chegou ao vice-campeonato da Liga dos Campeões contra o Barcelona. Desde então a melhor colocação do time Inglês na competição foi a semifinal em 2008-09 (derrotado pelo rival Manchester), e desde 2010 que o time não passa das oitavas de final. E com esses 18 anos nas costas, em um clube em que até o nome soa similar ao seu, Arsené Wenger acumula mais fracassos que títulos (Foram quase 61 títulos perdidos).

Tendo a disposição toda uma estrutura de ponta, um orçamento quase ilimitado e um plantel dos mais perigosos do planeta, três campeonatos ingleses parecem pouca coisa para um time cada vez mais resignado com a posição de coadjuvante que adquiriu nesses últimos anos. Arsène Wenger fracassa em seguir o mesmo caminho vitorioso de Alex Ferguson, apesar de gozar de condições praticamente iguais deixando cada vez mais claro que no que diz respeito a levantar troféus, o treinador francês perdeu a lição dada pelo rival da Escócia.

No próximo dia 17 de maio, o Arsenal disputa com o Hull City a possibilidade de mais uma vez levantar uma taça (e encerrar a seca que vem desde 2004-05 justamente com o título da FA CUP) possibilidade quase certa diante do imenso favoritismo na disputa contra o humilde time do leste de Yorkshire. Contudo, se sagrar campeão da Copa da Inglaterra não deixa de ser um humilde prêmio de consolação, mais um entre tantos outros que coleciona o treinador habituado a decepcionar a imensa e apaixonada torcida de um time que cada vez mais só finge ser grande.

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