Pelo ideal de Pedro Ribeiro Lima

  • por Matheus Mota
  • 7 Anos atrás
Seu Pedro, fundador, presidente e jogador da Perilima. Foto: Agora Esportes

Seu Pedro, fundador, presidente e jogador da Perilima. Foto: Agora Esportes

Em todo mundo, milhares de pessoas sonham em um dia se tornar jogadores de futebol. Estádios lotados, fama, dinheiro e outras coisas do gênero povoam o imaginário de muitos, ainda que no fundo, a satisfação de viver fazendo o que se gosta seja o que realmente alimente tais sonhos.

Contudo, nem todo mundo chega lá. Não são poucos que deixam de lado esse ideal, seja por falta de talento, oportunidade, por descobrir outro sonho ou por uma dessas artimanhas do destino dos quais todos somos vítimas. E tudo, tudo isso está ligado ao tempo. Poucos são os casos daqueles que começam uma carreira no futebol com mais de 20 anos. Para cada Liédson, há mais de uma centena de indivíduos que abandonam o projeto de se tornarem atletas por não terem “estourado” a tempo. Contudo, o caso que discutiremos aqui, de Pedro Ribeiro de Lima, é uma curiosa exceção.

Se ele havia sonhado algum dia em ser jogador de futebol, abandonou o desejo em algum canto do passado e passou a ser um homem de negócios. Por ser dono de uma fábrica de sordas, uma espécie de bolacha – este texto foi escrito em São Paulo, logo a palavra “biscoito” não será usada – feita à base de trigo e rapadura, Seu Pedro ficou popularmente conhecido em Campina Grande, Paraíba, como “Pedro da Sorda”.

A vida sedentária e o stress oriundo da carreira de empresário são grandes perigos para a saúde e Seu Pedro começava a sentir seus efeitos. Por conta disto, tomou uma atitude sensata: começou a praticar exercícios físicos. O gosto pela atividade aumentou e, percebendo que a fábrica tinha mais de 11 funcionários, pensou: “por que não um time de futebol?”. Foi aí que em, em 8 de setembro de 1992, surgiu a Associação Desportiva Perilima, cujo nome vem das iniciais de Seu Pedro e é compartilhado com sua fábrica.

Disputar os campeonatos amadores da cidade fez brotar no então apenas empresário a vontade de jogar profissionalmente, vontade esta que só crescia. Até que, em 1998, a equipe se profissionalizou, indo disputar a Segunda Divisão do Paraibano. O time era composto basicamente por funcionários da fábrica de sorda, e claro, por Seu Pedro, já com seus 50 anos. O sucesso foi rápido, apenas 1 ano depois a equipe conquistava o acesso para a 1ª Dvisão do estado, na qual enfrentaria os grandes clubes locais, como Campinense, Treze, Botafogo, Auto Esporte e Nacional. A base do time continuava sendo os funcionários da Perilima, que recebiam hora extra para jogar futebol.

O desempenho, contudo, não foi dos melhores e a equipe foi rebaixada logo em seguida. A rotina da Perilima é ser um clube iô-iô. Conquistou o acesso 5 vezes, tendo se mantido na 1ª Divisão de maneira ininterrupta apenas uma vez, em 2002. A última participação na elite se deu em 2007 e, ainda que o clube tenha perdido os 9 jogos que disputou, acumulando 35 gols contra na bagagem, a temporada foi marcada por fatos especiais. Na partida contra o Campinense, um dos maiores nomes da Perilima, o atacante Nego Pai, sofre um pênalti, que foi convertido por Seu Pedro. Com isso, o presidente-jogador detêm o recorde de atleta mais velho (59 anos) a marcar um gol em um campeonato profissional.

Preparação da Perilima para a Segunda Divisão do Paraibano. Foto:  Agora Esportes

Preparação da Perilima para a Segunda Divisão do Paraibano. Foto: Agora Esportes

Os outros jogadores sabem que devem correr mais que o normal e o técnico sabe que tem de quebrar a cabeça com isso, mas não há como reclamar. Seu Pedro é o dono da empresa e paga todas as despesas do clube com dinheiro do próprio bolso – a família Lima proibiu que o atleta gastasse o dinheiro da fábrica e da poupança familiar com futebol. A falta de dinheiro é constante e, não raro, os próprios jogadores chegaram a pagar a taxa de filiação para poder disputar competições profissionais.

Em campo, o presidente ocupa a função de volante e é, no máximo, esforçado. Ainda que conte com um bom preparo físico para um homem de sua idade, não é o suficiente para uma partida de futebol. Seu Pedro sabe disso e admite que entra em campo mais para viver o sonho do que para ganhar.

Por conta dessa e de outras dificuldades, a Perilima não obteve êxitos esportivos muito grandes. Mesmo assim, a equipe passa um sentimento único, motivando pessoas a criarem uma torcida organizada: Os Sordados. Além disso, a Perilima conquistou fãs em todo o Brasil, o que rendeu um episódio dos mais curiosos.

Estando o time com dificuldade de pagar as taxas estabelecidas pela Federação Paraibana, um torcedor lançou um apelo na internet pedindo doações financeiras para que a equipe pudesse se manter competindo. Membros da Futebol Alternativo, comunidade do Orkut, aceitaram o apelo e angariaram uma verba considerável, que permitiu que a Águia de Campina participasse da Segunda Divisão de 2009. Como forma de gratidão, as camisas daquele ano tiveram o nome da comunidade e o número de membros estampados na manga da camisa.

De uns tempos pra cá, o dinheiro não foi o suficiente e o clube já está há algum tempo parado. Muitos já davam a Perilima como morta, mas eis que Seu Pedro confirmou que o clube participará novamente da Segunda Divisão. A preparação já começou e, como era de esperar, o patrono da equipe estará em campo, já com 66 anos. Os pulmões não se comparam aos de um garoto, mas Seu Pedro promete correr na base da vontade e do desejo de jogar pela Perilima, que, cujo próprio hino do time diz, é a materialização de um ideal, o ideal de Pedro Ribeiro Lima.

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Paulista e torcedor do Santo André. Historiador, acompanha o futebol como um todo, mas sobretudo o lado mais alternativo da coisa.