Quem é Tony Pulis?

No Crystal Palace, Pulis voltou a fazer grande trabalho

Por O Futebólogo

Em março deste ano, o português José Mourinho, à frente do Chelsea, afirmou em entrevista que o prêmio de melhor treinador da temporada é comumente entregue aos campeões. A despeito disso, dissociou a qualidade dos técnicos das conquistas de títulos, garantindo que um técnico que aceita a tarefa de salvar uma equipe do rebaixamento e o faz é também campeão, sendo, portanto, merecedor. Conquanto estas não tenham sido as exatas palavras de Mourinho na referida entrevista, ele deu enorme valor a Tony Pulis, o responsável pelo salvamento e boa campanha (dentro de suas possibilidades) do Crystal Palace, afirmando, ainda, que o treinador assumiu um desafio que poucos teriam a coragem de aceitar.

A tarefa era tão inglória que Pulis demorou para decidir se aceitaria a oferta, mas, após conversa com Sir. Alex Ferguson, rumou para Londres. Sua estreia no banco de reservas das Eagles ocorreu na 13ª rodada do campeonato, contra o Norwich City. Derrota por 1×0 e descida à última posição da tabela. Nas 25 rodadas que se seguiram, o clube assegurou 11 vitórias, tendo, ainda, sofrido 9 derrotas e empatado 5 vezes. Feito absolutamente imenso para uma equipe sem recursos, cujo jogador mais famoso é o marroquino Marouane Chamakh, ridicularizado quando atuava no Arsenal.

Segundo o ponta congolês Yala Bolasie, o treinador deu esperança e alma à equipe. Sem falar muito, mas sendo claro e gentil, conquistou seu limitado elenco. Ainda de acordo com o jogador, Pulis tem que vencer o prêmio de melhor treinador da temporada.

Quem também se manifestou sobre o sucesso do treinador foi Sam Allardyce, comandante do West Ham, que ressaltou a importância do sucesso dele para o moral dos treinadores britânicos, garantindo haver técnicos de qualidade dentro da ilha.

 Na penúltima rodada, o Crystal Palace conseguiu empate heroico contra o Liverpool

Desde que assumiu o comando do Palace, Pulis trouxe apenas cinco jogadores, todos de de pouco destaque. Do Southampton, chegou Jason Puncheon, do Blackpool, o promissor Thomas Ince (filho de Paul Ince), do Wolverhampton, o goleiro Wayne Hennessey – pouco aproveitado –, do Celtic, o competente galês Joe Ledley (melhor contratação) e, por fim, do Blackburn, o zagueiro Scott Dann.

Ao melhor estilo inglês, encurtando espaços e abusando dos lançamentos longos, o clube se acertou. O inesperado e mágico empate contra o Liverpool, após ter três gols de desvantagem no placar, é prova disto.

Está claro que Tony Pulis é um comandante que deve ser considerado. Mas uma pergunta merece ser feita: de onde veio este treinador?

Tony Pulis foi um defensor de pouquíssima expressão no futebol. Cria do Bristol Rovers, clube pelo qual atuou na maior parte de sua carreira, nunca chegou a disputar a Primeira Divisão. Sua carreira de treinador começou concomitantemente com a de jogador, no Bournemouth, então na Terceira Divisão. Seu sucesso, contudo, só aconteceu no modestíssimo Gillingham, quando subiu à Terceira Divisão e quase conseguiu o acesso à Segunda Divisão, perdendo o playoff – nos pênaltis – para o Manchester City.

Foto: Reprodução - Tony Pulis, no Gillingham, clube que treinou entre 1995 e 1999.

Foto: Reprodução – Tony Pulis, no Gillingham, clube que treinou entre 1995 e 1999

Depois disso, teve uma rápida e apagada passagem pelo Portsmouth e, por fim, chegou ao Stoke City, onde viveria a melhor e maior parte de sua carreira. Contratado em 2002, ajudou a equipe a não ser rebaixada para a Terceira Divisão, fazendo campanhas medianas nas duas temporadas seguintes. Contudo, problemas com a direção o levaram a deixar o clube ao final do campeonato de 2004/2005.

Após uma temporada regular no comando do Plymouth Argyle, ainda na Segunda Divisão, retornou ao Stoke – já sob nova direção. Foi aí que sua sorte começou a mudar.

De volta ao clube onde fora melhor sucedido, Pulis conseguiu, na temporada 2007/2008 o acesso à Premier League, de onde o Stoke não mais saiu. No clube, conseguiu, ainda, o vice-campeonato da FA Cup, na temporada 2010/2011. Apesar de ter ficado estigmatizado como um treinador adepto do futebol inglês – na sua concepção mais conservadora e ultrapassada –, o treinador conseguiu respeitáveis resultados.

Sua trajetória ficou marcada por um fato curioso, os laterais cobrados na área do adversário, em especial do flanco direito. O inglês Rory Delap sempre repetia seu ritual: pegava a bola à relva, enxugava-a e lançava-a no centro da área adversária, em um autêntico cruzamento com as mãos. Não raro, a bola encontrava a cabeça de um atacante dos Potters, como bem sabe o grandalhão Peter Crouch, no clube desde 2011.

O caso de amor entre Tony Pulis e o Stoke teve fim consensual com o termo da temporada 2012/2013.

Conhecido por assegurar condições regulares a equipes de baixas possibilidades financeiras e técnicas, Pulis cavou seu espaço. O prêmio de melhor treinador da Premier League do mês de abril mostra isso. Criticá-lo por seu estilo “ultrapassado” não é válido, pois ele trabalha (muito) bem com (muito) pouco. Quem sabe uma chance numa grande equipe não revele outra faceta do bom treinador galês?

Hoje, emprego para ele parece não ser mais problema. O sorriso do torcedor do Crystal Palace ao final da temporada aponta que, se depender dos torcedores, o lugar dele no clube estará garantido por muito tempo.

Atualização (14/03/2015)

Foto: Premier League - Pulis com seu merecido prêmio

Foto: Premier League – Pulis com seu merecido prêmio

Agora no West Bromwich Albion, Tony Pulis, eleito o melhor treinador da Premier League na temporada passada, segue operando seus milagres. Contratado em 1º de janeiro pelo WBA, acabou de ser eleito o melhor treinador do mês de fevereiro. Desde sua contratação, sua equipe disputou 13 partidas, venceu sete, perdeu três e empatou outras três. Pulis é, ou não é, um fenômeno?

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.