A martirização do algoz

  • por João Almeida
  • 7 Anos atrás
Foto: AFP - Torcedor recebem Suárez após ele deixar a concentração uruguaia. Muita festa para quem pode ter comprometido a campanha do país.

Foto: AFP – Torcedor recebem Suárez após ele deixar a concentração uruguaia. Muita festa para quem pode ter comprometido a campanha do país.

A suspensão de Luis Suárez pela mordida em Giorgio Chiellini foi a maior da história das Copas. Nem mesmo as inexplicáveis e violentíssimas cotoveladas de Leonardo e Tassotti em 1994 proporcionaram aos agressores punições tão severas quanto a imposta ao uruguaio. Exagero? Talvez, até porque a FIFA foi além do âmbito da Copa do Mundo e proibiu o Pistolero de exercer qualquer atividade relacionada a futebol pelos próximos quatro meses. No entanto, não é preciso entrar no mérito da justiça do veredicto para chegar à conclusão de que vitimizar Suárez, indubitavelmente, é um erro.

Não foi preciso muito tempo após a FIFA anunciar sua decisão para que o assunto corresse o mundo e iniciasse as mais diversas discussões. E, juntamente com elas, emergiu um fenômeno inexplicável: a vitimização de Suárez. No Twitter, hashtags como “TodosSomosSuarez” começaram a ganhar peso, ao passo que muitos, principalmente os uruguaios, passaram a tratar a própria federação internacional como a grande vilã do caso – ao lado do próprio Chiellini, que teria sido exagerado na reação à agressão – e eximiram o jogador de qualquer culpa. Jogadores, jornalistas, torcedores e até a própria Federação Uruguaia de Futebol, por meio de sua conta no Twitter, passaram a prestar apoio ao atacante, como se ele fosse a vítima da situação, sem sequer reprimi-lo por ter tido uma atitude tão estúpida.

Uma mordida, certamente, não é uma agressão que acarrete lesões graves, como é o caso de uma cotovelada. Contudo, ela não pode, de forma alguma, ser algo presente em um campo de futebol. E, para Luis Suárez, não se trata de um episódio inédito: foi a terceira vez que ele mordeu um adversário. É tão absurdo que soa estranho discutir uma punição para uma mordida. Não há jurisprudência para mordidas; não há precedentes de casos assim em competições futebolísticas em alto nível. Portanto, independente do teor da punição estabelecida ao algoz, este deve ser reprimido, sobretudo se levado em consideração que se trata de nova reincidência.

E, tão errado quanto aquele que morde um adversário, está aquele que defende quem o fez. Da última vez que uma hashtag que colocava “todos” na mesma situação ganhou força, por mais discutível que seu conteúdo fosse, ela prestava apoio a um jogador que sofreu racismo. Agora, coloca-se na mesma situação uma vítima de racismo e um jogador de conduta absolutamente incompatível com um campo de futebol. Por mais que ele possa ter sido, de alguma forma, injustiçado, em hipótese alguma o sentimento para com ele deve ser de complacência.

Hoje, Luis Suárez é um dos melhores jogadores do mundo. A temporada que fez com o Liverpool foi fantástica, assim como sua atuação diante da Inglaterra na Copa do Mundo, que foi fundamental para o sucesso de sua seleção na primeira fase. Contudo, deve mudar sua conduta. Creio que não tome nenhuma dessas atitudes por malevolência – seu comportamento em determinados casos beira a loucura. Desde 2010, já acumula 34 jogos de suspensão sem um cartão vermelho sequer, sendo 26 por conta de seu estranho “apetite”. Suárez é mais um exemplo de conciliação de genialidade e loucura. Entretanto, o segundo aspecto, certamente, só lhe trará malefícios e, portanto, deve ser reprimido. Reprimido, não cultuado.

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