A vida 207 degraus abaixo do topo

  • por Matheus Mota
  • 7 Anos atrás
Seleção das Ilhas Turks e Caicos, 207º e última colocada no ranking da FIFA. Foto: Reprodução

Seleção das Ilhas Turks e Caicos, 207º e última colocada no ranking da FIFA. Foto: Reprodução

A Copa do Mundo é o maior torneio de futebol. E há uma série de motivos para isso, que não serão elencados aqui, pois não é esse o foco. A Copa pode ser o maior, mas não é necessariamente o melhor e, por isso, muitas vezes questionamos o nível técnico de algumas equipes que disputam a Copa. Não que defendamos a redução de vagas para países de centros menos tradicionais. Jogos como Argélia x Coréia do Sul, por exemplo, mostram que boas partidas podem surgir envolvendo seleções de pior colocação no ranking da FIFA; a Coréia do Sul ocupa o 57º lugar e tem, dentre as 32 que estão no Brasil, a pior posição deste ranking. A Argélia, 22ª no ranking, está em uma posição que pode ser considerada boa. Em relação à Coréia, ainda que ela seja teoricamente a “pior” na Copa, a posição que ocupa é ao menos honrosa – se considerarmos que a FIFA possui mais de 200 membros. A intenção, aqui, é trazermos alguma luz justamente sobre o futebol e sua organização em um dos membros da rabeira deste ranking – contrapondo-o ao futebol profissional que por vezes criticamos, inclusive na Copa.

Pouco se sabe sobre o último colocado do ranking, a briosa seleção das Ilhas Turks e Caicos. Ela divide o 207º posto com as não menos briosas seleções de Butão e San Marino. No entanto, Butão não disputou as últimas eliminatórias para a Copa, e San Marino, por estar na UEFA, goza de um relativo reconhecimento. As Ilhas Turks e Caicos ficam no Caribe, próximas de Cuba, Haiti e República Dominicana, e são um território ultramarino britânico – o que explica a presença do futebol por lá, assim como de outros esportes, como o críquete, considerado o principal esporte nacional.

Apesar de o futebol ser bem quisto por grande parte dos 31 mil habitantes locais, a TCIFA (Turks and Caicos Islands Football Association) só foi fundada em 1996 e o campeonato local só começou a ser disputado em 1999, mesmo ano em que o primeiro selecionado nacional foi formado. O primeiro adversário foi a seleção das Bahamas, que venceu a partida por 3×0. Até bem pouco tempo atrás o país não tinha nenhum estádio apto a receber partidas internacionais. Mas em 2007 o Turks and Caicos National Stadium foi construído, com capacidade para pouco mais de três mil pessoas – além, é claro, de instalações para receber os adversários. Além disso, o estádio também serve como sede para todos os jogos do campeonato nacional, que desde 1999 é disputado de maneira ininterrupta, com seis clubes, todos amadores, situação normal em muitos dos países membros da FIFA. Algumas dificuldades surgem por conta desse cenário, especialmente no tocante à preparação da seleção, já que os atletas não podem se dedicar exclusivamente ao futebol. As eliminatórias são de tiro extremamente curto. Ainda em 2011 a equipe foi eliminada da Copa de 2014 pelas Bahamas, que conseguiram um placar agregado de 10×0. Depois disso a seleção só voltou a ser reunida três anos depois, para as eliminatórias para a Copa Caribenha. Com poucas competições oficiais, e sem muita oportunidade de realizar amistosos (não são todos os empregadores que vão liberar seus funcionários por conta de uma data FIFA), a seleção joga poucas partidas.

Tendo em mente esse cenário, a Federação local resolveu apostar em um treinador estrangeiro, o inglês Craig Harrington. Vindo das categorias de base do Los Angeles Galaxy, onde passou três anos coordenando as equipes sub-16, Harrington terá sua primeira experiência em seleções. Ao anunciar a contratação de Harrington, a TCIFA dá continuidade em projetos que foram iniciados por outros treinadores, como o também inglês Matthew Green, cujo foco está na formação de jovens atletas.

Um exemplo bem imediato da política adotada pela TCIFA ocorreu na vitória sobre as Ilhas Virgens Britânicas, no último dia 3. O primeiro dos dois gols que decretaram a vitória turco-caiquense foi marcado pelo atacante Marc Fenelus, de apenas 16 anos. Esse triunfo entrou para a história como a 3ª da vitória da seleção, quebrando uma seca de seis anos sem vitórias. Mas em termos de classificação para a Copa Caribenha, essa vitória não serviu para muita coisa, pois a equipe já havia sido eliminada na 2ª rodada, ao perder por 6×0 de Guiana Francesa (na estreia a equipe foi derrotada por Aruba por 1×0).

O objetivo mais imediato era conseguir a classificação para a competição caribenha, e a partir daí, tentar algo para a próxima Copa Ouro. Como isso não ocorreu, o foco será no planejamento de longo prazo. Um dos pontos que colaborou para a contratação do atual treinador são seus contatos com equipes de colégios e universidades dos EUA, que podem colaborar na formação dos jogadores locais. A ideia é, quem sabe, repetir ou superar os sucessos dos irmãos Glinton (Duane e Gavin). O primeiro, zagueiro, jogou nas divisões inferiores do futebol dos EUA, e, com nove partidas disputadas pela seleção, é o recordista de convocações. Seu irmão, Gavin, é atacante e teve uma carreira mais bem sucedida, com passagens por clubes da MLS. Além disso, é o maior artilheiro da história da seleção, com quatro gols em oito jogos. Marcas modestas, mas significativas para o contexto do futebol local.

A vitória contra as Ilhas Virgens Britânicas pode ter sido o primeiro passo dessa caminhada. Um pequeno passo, é verdade, mas que traz esperanças de dias melhores.

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Paulista e torcedor do Santo André. Historiador, acompanha o futebol como um todo, mas sobretudo o lado mais alternativo da coisa.