Al-Saadi Gaddafi: um jogador que foi além da Primavera na Itália

  • por João Almeida
  • 7 Anos atrás
Foto: Getty Images - Gaddafi em ação pelo Perugia

Foto: Getty Images – Gaddafi em ação pelo Perugia

Dia 20 de outubro de 2011: o mundo assiste ao assassinato de Muanmar Gaddafi, ditador da Líbia, após quase 40 anos à frente do país. A morte do então líder líbio foi o fim de uma série de insurgências contra o opressor Gaddafi. O ditador deixou oito filhos, sendo um deles Al-Saadi Gaddafi, que viria a ser preso pouco depois, acusado de apropriação indevida de bens por meio do uso da força enquanto era presidente da Federação Líbia de Futebol.

Al-Saadi Gaddafi era presidente de tal federação porque sempre foi um doente por futebol e nutria o sonho de ser jogador profissional. Devido ao poder de seu pai, a tarefa foi fácil – e bem sucedida – no país. O jogador era capitão da seleção líbia, mesmo sem ser bom o suficiente para ficar sequer entre os onze. Ele próprio era o chefe dos técnicos da seleção e todos os treinadores que ousaram deixá-lo de fora de uma convocação, ou até mesmo do time titular, tiveram vida curta no cargo (caso de Carlos Bilardo, ex-auxiliar da seleção argentina). Gaddafi também colecionou títulos nacionais, todos sob a sombra de prováveis favorecimentos por se tratar do filho do poderoso estadista. Entretanto, o atleta desejava ir além do território líbio e resolveu tentar realizar seu sonho na Itália, onde tinha relações que podiam levá-lo à Serie A.

A ligação da família Gaddafi com o calcio começou muito antes da aventura do terceiro filho do ditador líbio. No início do século XX, a Líbia foi, por trinta anos, uma colônia italiana, o que fez com que os italianos mantivessem negócios com o governo local. Além disso, o país africano tem a décima maior reserva petrolífera do mundo, de forma que a FIAT, mais poderosa empresa automobilística da Itália, mantém contatos por lá e negocia com o governo líbio – que, há até poucos anos, se resumia a Muanmar Gaddafi. Acontece que a família do fundador da FIAT é a mesma que comanda a Juventus (o atual presidente do clube, Andrea Agnelli, é filho do fundador da companhia). Esta conexão facilitou a compra de 7,5% do clube pelo herdeiro do ditador pela bagatela de 16 milhões de dólares. Os Gaddafi foram além e adquiriram o Triestina, que hoje joga a Serie D, e tentaram até mesmo comprar a Lazio, em transação que por pouco não se concretizou.

Mas Al-Saadi não estava satisfeito apenas com o status de jogador local e empresário internacional. Queria ser também um jogador internacional e, aos 29 anos de idade, no ano de 2003, resolveu botar seu plano em prática na Velha Bota.

O “atleta” iniciou sua jornada na Serie A no Perugia, pertencente ao controverso Luciano Gaucci. Para Luciano, tratava-se de apenas mais uma contratação, baseada em boas apresentações do jogador no futebol líbio – estranhamente, dois anos depois, o Perugia decretou falência e, mais tarde, seu dono foi condenado a três anos de prisão. Buscando uma boa preparação, Gaddafi contratou Ben Johnson, campeão olímpico e recordista mundial dos 100 metros rasos, para ser seu personal trainer, e pediu também para Diego Maradona ajudar em seus treinos.

No clube italiano, o líbio foi imediatamente barrado pelo treinador Serse Cosmi, que, inclusive, alegou ter recebido uma ligação de Silvio Berlusconi, então Primeiro Ministro italiano, encorajando-o a colocar o jogador em campo, pois isso melhoraria o relacionamento do país com a Líbia. Porém, nem isso, nem os pedidos públicos de Gaucci por uma chance ao rapaz, foram suficientes, pois Cosmi manteve sua posição. O veto ficou mais fácil de ser sustentado depois de o jogador falhar em um exame antidoping após ficar apenas no banco em uma partida, o que lhe rendeu uma suspensão de três meses. O terceiro filho de Muanmar Gaddafi deixou o clube após pouco mais de dois anos e apenas quinze minutos jogados, em uma partida diante da Juventus, em maio de 2005.

Contudo, Gaddafi era persistente. Usufruindo da fortuna de seu progenitor, em 2006, conseguiu vaga em mais um clube italiano, a Udinese, onde reencontrou Cosmi. Novo clube, velha história. O treinador desta vez deu apenas onze minutos de jogo para o líbio, que, neste tempo, acertou um chute de fora da área que quase entrou. Foi esta sua maior glória no calcio.

O jogador não desistiu e foi para a Sampdoria, pela qual não jogou uma partida sequer. Foi este o fim de sua carreira no futebol italiano, que consistiu em menos de trinta minutos em campo após quatro anos de experiência. A aventura de Al-Saadi Gaddafi foi apenas mais uma prova de que, nos dias atuais, dinheiro compra muita coisa, até uma vaga em um time da primeira divisão italiana. Entretanto, Gaddafi jamais conseguiu comprar uma boa técnica, mesmo com ajuda de expoentes do esporte mundial. Suas habilidades foram resumidas pelo jornal italiano La Reppublica da seguinte forma:

“Ele é tão lento que se fosse duas vezes mais rápido, ainda seria mais lento que a própria lentidão.”

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