Camarões e o triste declínio de uma escola que marcou época

  • por Rogério Bibiano
  • 6 Anos atrás

Há alguns meses, o Doentes por Futebol, dentro da sua postura de observar o esporte além das quatro linhas, mostrou aspectos históricos do futebol camaronês e de outras escolas tradicionais da África. Se você é leitor de longa data, certamente irá lembrar de alguns detalhes.

 

Webo (15) separa os brigões Moukandjo e Assou-Ekotto (2). Esta foi a impressão deixada por Camarões no Mundial (foto: AFP)

Webo (15) separa os brigões Moukandjo e Assou-Ekotto (2). Esta foi a impressão deixada por Camarões no Mundial (foto: AFP)

Administrações corruptas na Federação de Futebol de Camarões (Fecafoot), desvio de verbas (incluindo dinheiro de premiação para jogadores e comissão técnica), ingerências do governo local que não são aceitas pela Fifa, jogadores que não se entendem e colocam suas vaidades pessoais acima de tudo. Este cenário, que pudemos observar na Copa do Mundo, é algo que causou surpresa a muita gente, mas não a nós. O que vimos na Copa foi um “final de gala” trágico para um time que nos últimos anos não encanta e, o pior de tudo, não apresenta nenhuma perspectiva de futuro

Após uma série de vexames históricos, que a deixaram de fora das fases finais das últimas Copas Africanas das Nações, a classificação camaronesa para a Copa do Mundo no Brasil é fruto muito mais do acaso e da sorte que do futebol apresentado. A começar pelo simples fato de que Camarões só entrou no mata-mata, graças à incompetência de outra seleção gerida pela baderna: Togo, que ao escalar Alexysis Romao (que deveria ter cumprido suspensão), mesmo vencendo por 2×0, perdeu os três pontos que deram a Camarões condições de estar no playoff que dava uma vaga para o Brasil.

Estrela solitária e remanescente da última geração de ouro camaronesa, Samuel Eto'o jogou apenas um jogo neste Mundial (foto: AFP)

Estrela solitária e remanescente da última geração de ouro camaronesa, Samuel Eto’o jogou apenas um jogo neste Mundial (foto: AFP)


O segundo fator de sorte foi o sorteio, que deixou Camarões diante de uma Tunísia em crise de comando técnico naquela altura das Eliminatórias. Com os tunisianos mal, os camaroneses tiveram um dia inspirado de Jean Makoun e golearam, classificando-se para a Copa do Mundo. Mas os problemas já elencados seguiram ocorrendo. Às vésperas do Mundial, uma ameaça de greve. Motivo: premiação, dirigentes que trouxeram para o Brasil familiares, jogadores que foram impedidos de trazerem convidados às custas do Estado camaronês e toda uma série de desgovernanças, que, já sob os holofotes do Mundial, todos tivemos a oportunidade de acompanhar.

Em campo, um time ruim, uma das piores formações da história do futebol de Camarões, sob o comando do alemão Volker Finker, completamente desorientado. Os jogadores sempre falaram uma coisa, o alemão outra. Ainda na fase de preparação, um enganoso empate contra a Alemanha (2×2) criou para muitos que não acompanham o futebol dos Leões Indomáveis a sensação de que algo poderia dar certo. Ledo engano. Em momento algum Camarões foi sequer um arremedo do time que disputou uma Copa do Mundo maravilhosa em 1982 e fez história em 1990, da geração que fez bonito até 2004 e da qual só restou seu astro, Samuel Eto’o, que provavelmente está, enfim, se despedindo da seleção.

Jogadores camaroneses comemoram o gol contra o Brasil, o único na Copa do Mundo 2014 (foto: AFP)

Jogadores camaroneses comemoram o gol contra o Brasil, o único na Copa do Mundo 2014 (foto: AFP)

A Copa do Mundo no Brasil tem se caracterizado, em campo, como uma das melhores da história, com jogos memoráveis, que certamente serão recordados daqui a muitos anos. O futebol de Camarões não. Jamais esteve à altura, mesmo na condição de uma seleção fraca, da Copa do Mundo. Merece disputar uma Copa quem verdadeiramente nutre sentimentos altruístas pelo futebol, nem que seja por pelo menos um mês, durante o torneio. Com ameaças de greve, entre outros absurdos, o circo camaronês seguirá armado. Para a tristeza da sua apaixonada e imensa torcida, no atual estágio, não há luz no fim do túnel para os Leões Indomáveis!

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Natural de Telêmaco Borba-PR e criado em meio à "boemia futebolística", com horas de papo sobre futebol, samba e cervejas na pauta. Influência do pai, que também adorava futebol, e da mãe, que sempre apoiou a iniciativa. Técnico em Eletrônica, formado desde 1999, e fanático por futebol, futsal, futebol de praia, society e todo esporte que tenha no futebol a sua essência.