Climatoneurose: a saga do English Team na Copa tropical

Desconsolado, Gerrard recebe o carinho de seu colega de Liverpool. (Imagem: AFP/Getty Images)

Desconsolado, Gerrard recebe o carinho de seu colega de Liverpool após eliminação. No frio. (Imagem: AFP/Getty Images)

Sempre dizem que meteorologia é paranoia de norte-americano. Afinal, os Estados Unidos são um país extenso, continental. Que tem um território assolado por quase todos os tipos de mazelas climatológicas e geográficas: terremotos, tornados, grandes variações de temperatura, nevascas, tempestades tropicais e zonas desérticas. Um vasto cardápio de desastres, potenciais ou de fato.

É exatamente em virtude dessa amplitude de perspectivas catastróficas no dia-a-dia de cada cidadão ianque, que há no país trocentos sites, canais de TV e estações de rádio dedicados especificamente ao tema. No carro, em casa, no trabalho ou dentro de um vagão de metrô, o americano pode conseguir qualquer informação relativa ao tempo em sua cidade. E assim, ele se programa, se protege como pode das intempéries do clima.

Só que na Copa do Mundo do Brasil, estranhamente, a seleção estadunidense foi uma das poucas (senão a única) que não reclamou uma única vez da diversidade climática do nosso país. Quem assumiu, então, o posto de “fiscal de termômetro” foram os jogadores e a comissão técnica da seleção inglesa. E se você não leu nada sobre a insistência nessa pauta, experimente buscar no Google termos como “Inglaterra na Copa com calor”, ou “ingleses sofrem com calor na Copa do Mundo”, e saberá do que estou falando.

O calor da Amazônia ficou em segundo plano diante do talento de Mario Balotelli (Imagem: Reuters)

O calor da Amazônia ficou em segundo plano diante do talento de Mario Balotelli (Imagem: Reuters).

Para não me deixar mentir, as palavras de Michael Bradley, uma das referências do país (que dizem ser) de climatoneuróticos. “Quando falam sobre jogar no calor e ter longas viagens, isso não incomoda a gente. Não só não preocupa, como nos anima ver como os outros times estão tão preocupados com isso”, declarou, sagaz, o meio-campista. Ele e seus companheiros não perceberam mais do que o óbvio: tanto o calor quanto o frio jogam contra os dois times, e por isso, são apenas um dos fatores capaz de decidir uma partida.

Enquanto isso, nos bastidores da seleção inglesa, o tempo tem sido o principal assunto durante toda a preparação para o torneio. Os jornalistas perguntam, técnico e jogadores minimizam, mas o tema se manteve em evidência. Quando o time foi para Manaus, o calor foi o foco das coletivas. Em São Paulo, a volta a uma temperatura mais próxima da que predomina na Inglaterra. E quando se falou do time efetivamente, o papo não saiu muito das cornetadas a Wayne Rooney, o craque que abdica do brilho individual para jogar para o time.

É claro que há seleções mais acostumadas com temperaturas mais elevadas. Há países onde o clima é predominantemente quente, e por isso ele termina entrando sob a pele e fazendo parte da própria identidade de seus atletas e cidadãos como um todo. Quando suas seleções enfrentam outras de países com clima temperado, verifica-se uma vantagem natural, indiscutível.

Mas ainda assim, esse handicap nem sempre é capaz de determinar o resultado final das partidas. Principalmente em se tratando de um grupo em que três das quatro seleções vêm de países com clima temperado. Jogando no calor desértico de Dubai ou no inverno canadense, Inglaterra, Uruguai e Itália fariam jogos parelhos. Porque são times de qualidade, que têm jogadores diferenciados, provados em algumas das ligas mais competitivas do mundo. E em ambos os cenários, as dificuldades climáticas jogariam contra todos.

Técnico Roy Hodgson não conseguiu fazer uma geração boa e jovem avançar às oitavas. (Imagem: Reuters).

Técnico Roy Hodgson não conseguiu fazer uma geração boa e jovem avançar às oitavas. (Imagem: Reuters).

No caso do fracasso do English Team em solo brasileiro, o fator clima não chegou a ser decisivo. O que houve foi que um novo sorteio ingrato acabou jogando por terra o sonho inglês de, dentro do chamado país do futebol, afanar-lhe o epíteto. Reaver a posse daquilo que um dia já foi seu. Mas os Três Leões, ainda que valentes, simplesmente não puderam com o peso da camisa azzurra, nem com a entrega comovente de Luis Suárez. E nada disso teve a ver com a alta temperatura de Manaus, que prejudicou tanto ingleses quanto italianos, ou com o frio que arrebatou a Arena Corinthians nesta quinta-feira.

Portanto, resta aos britânicos refletir se toda essa preocupação em relação às condições climáticas do Brasil serviu, efetivamente, para alguma coisa. Porque o fiasco já se tornou, desde 1967, certeza no desfecho dos roteiros protagonizados seleção inglesa em Copas do Mundo, sejam elas realizadas em países frios ou quentes.

Em 2014, bem como nas últimas três edições do torneio, não foi talento o que faltou: afinal, uma seleção que conta hoje com jogadores do quilate de Steven Gerrard, Wayne Rooney, Daniel Sturidge e Raheem Sterling, grata revelação do time no Mundial, não pode ter do que se queixar. Quem sabe o problema não seja simplesmente a falta de foco nos temas efetivamente importantes. Ou de alguém que os identifique, ao invés de dedicar tanto tempo a diversionismos.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.