Crônica de uma morte anunciada

  • por Victor Mendes Xavier
  • 4 Anos atrás

Ser eliminado na fase de grupos de uma Copa com direito a tomar goleada da Holanda e sofrer uma derrota merecida para o Chile é o maior pesadelo que os espanhóis poderiam viver no Brasil. O primeiro passo para entender o que aconteceu é o estabelecimento de algo muito simples: a queda precoce da Espanha é uma tragédia anunciada. Quando o Bayern de Munich massacrou o Barcelona por 7×0 em 180 minutos na Liga dos Campeões 2012/2013 sem precisar se retrancar, o mundo percebeu que já havia algo de diferente no estilo de jogo barcelonista. A vitória do Brasil na final da Copa das Confederações, quase dois meses depois, confirmou essa espécie de “mudança de rumo”.

Mas os problemas da Espanha não estão somente na incapacidade do sistema de jogo. O conservadorismo de Vicente Del Bosque na convocação e na escalação impede a Fúria de sair da mesmice. Del Bosque é, seguramente, o maior treinador da história do futebol espanhol. Mas é evidente que tem feito escolhas infelizes. A proteção aos “medalhões” de 2010 e 2012 resultou no esquecimento de nomes como Fernando Llorente, Álvaro Negredo, Isco Román e Koke Ressurreción, que só foi ganhar sua chance no Mundial quando a vaca espanhola já estava no brejo.

Com Iniesta a fazer sua pior competição pela Espanha e Diego Costa desconfortável em campo, esses nomes seriam uma alternativa a Jesus Navas (o décimo segundo jogador de Del Bosque, fora da Copa por não estar num bom estado físico) para mudar a cara do jogo. Fernando Torres, o substituto de Diego Costa, já não tem mais nenhuma condição de ao menos fazer parte do grupo. Ainda que tenha feito uma temporada irregular, David Villa poderia ter recebido mais chances.

Foto: Getty Images | A queda da Espanha no Brasil era previsível, mas ainda poderia ser evitada. Punido pelas escolhas, resta a Del Bosque começar a montar uma nova seleção visando a Eurocopa de 2016

Foto: Getty Images | A queda da Espanha no Brasil era previsível, mas ainda poderia ser evitada. 

Del Bosque recuperou o 4-2-3-1 com o qual ganhou o mundo em 2010, mas o doble pivote com Busquets e Xabi Alonso, um dos pontos de equilíbrio do sistema, não funcionou. O mau estado físico do basco, comentado desde o início da preparação da Espanha, impediu uma maior proteção à defesa, que ficou mais exposta. A linha defensiva alta foi facilmente batida pelos contra-ataques holandeses e chilenos. O segundo gol de Robben, que saiu bem atrás de um atrapalhado Sergio Ramos, acostumado a jogar em linhas de zagas mais baixas, comprova a vulnerabilidade espanhola.

O aspecto físico não pode ser subestimado. A decadência do Barcelona, base da seleção, e o esgotamento de Real Madrid (e até do Atlético de Madrid), após temporada desgastante, refletiram na Fúria. A Espanha não foi capaz de segurar o furacão holandês no segundo tempo do jogo em Salvador e não soube o que fazer para escapar da marcação avançada e intensa do Chile. Mesmo com o contra-ataque à disposição em boa parte do segundo tempo do jogo no Maracanã, os jogadores pecaram pelo preciosismo: muitos passes, poucas finalizações.

Como estampou de maneira brilhante a capa do Marca desta quinta-feira, chega ao fim a era de ouro da maior Espanha da história. A derrota na final da Copa das Confederações em 2013 e eliminação da precoce na Copa do Mundo 2014 não apagam os feitos históricos desse time, mas o estilo precisará ser reinventado. Del Bosque está de contrato renovado até 2016 e deu a entender, após a eliminação, que irá cumpri-lo. O trabalho de base é excelente e há peças do elenco atual que certamente serão reaproveitadas pensando na Euro de 2016.

Em sua coluna ao País, José Samano foi perfeito: “como o futebol não tem alma, para desgraça espanhola precisou ser o Maracanã o palco escolhido para que a seleção virasse a página sem consolo algum. Um desengano absoluto para uma geração que pôs a Espanha no topo, de onde caiu de forma sísmica. Uma casta para a lembrança infinita, e uma Copa para o esquecimento. A essa geração o futebol espanhol deve a conquista não só dos seus melhores troféus, mas também de um legado único, o pensamento próprio em um país onde o futebol só era definido pela diversidade dos clubes”. E vida que segue.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.