Eu nasci brasileirinho

  • por Matheus Rossi
  • 7 Anos atrás

Eu nasci brasileirinho.

Por Thiago Mendonça de Paiva

Não sei bem explicar o porquê dessa sorte em minha vida. Lembro um pouco, bem pouco mesmo, da tristeza do meu pai em 90, com o gol de um tal Cannigia. Mas o curioso é que a lembrança é só do lance do gol – só de meu olhar de relance para sua expressão chateada. Acho que ali foi brotada a sementinha desse esporte que mudaria minha vida para sempre.

Caniggia marca o gol que culminou na eliminação brasileira na Copa de 90. (Créditos: abril.com.br)

Engraçado que quatro anos depois consegui entender realmente o que o futebol significava na vida do meu pai. Foi quando, depois de muitos jogos (e sempre com festa e cada dia na casa de um dos tios), chegamos à final na casa de minha avó. Lá vi uma bola para o alto disparar uma alegria em cadeia, com meu pai e meu tio saindo gritando pelas ruas e se abraçando, soltando o grito de tetracampeão. Pronto, a semente tinha brotado e me tornara um fanático, para não dizer Doente, por futebol. Foi então que táticas, qualidades técnicas e todas as demais variáveis do jogo começaram a fazer muito sentido em minha cabeça.

Uma das imagens mais marcantes da história do futebol: O craque italiano Baggio perde o penalti na final da Copa de 94. (Créditos: soccerplusnet.blogspot.com)


E junto com tudo isso surgiu meu maior ídolo, aquele que me faz gostar do Real e do Milan e me faz engolir o Corinthians. Impressionante como destruía as defesas com força, velocidade, técnica e dribles. E mais impressionante ainda como se sentia bem fardando a camisa canarinho. Fui mal acostumado, acreditem. Aquela geração me deixava tranquilo para assistir aos jogos, que agora já eram nas casas dos amigos, com algumas cervejas escondidas.

A certeza que ele decidiria estava presente em cada um de nós. E é inesquecível um momento em minha casa em que eu, grudado na TV, no meio do churrasco com muita música, família e amigos, dei a notícia que ele não jogaria. Passara mal… E engraçado como me senti mal também. Creio que o silêncio que pairou por algum tempo na festa depois do comunicado advinha de mais pessoas se sentindo mal junto comigo. Perdemos e foi doloroso – novamente vi meu pai chateado no canto.

Mas o futebol tem uma coisa que aprendi depois de muito tempo, e que deve ser seu maior charme: sempre teremos outro jogo, outro campeonato, outra coisa para brigar. Surgiram outros craques para acompanhar meu ídolo e manter nosso escrete canarinho no topo do mundo. O problema é que ele agora enfrentava contusões e estava desacreditado para o futebol. Ele se recuperou e me ensinou que sempre devemos acreditar, sempre devemos nos levantar, ter fé em Deus, ter fé na vida e tentar outra vez.

E haja cerveja para comemorar e acompanhar essa redenção! Festas de madrugada com café da manha de vodka. Que orgulho dessa camisa! O sentimento agora era um só: eu tenho que ver isso tudo de perto um dia.

A redenção de Ronaldo marcando o gol do penta. (Créditos: fourfourtwo.com)



Aquela geração que não perdia estava começando a descer o barranco. E eu iria me aventurar em terras estrangeiras – passagem comprada para a Suécia. Que ironia, um brasileirinho, que tinha três camisas na mala para usar nas finais em território europeu, desembarcava para conexão em Paris, algumas horas após um carequinha mostrar que era um dos maiores de todos os tempos no futebol. Como esquecer o sorriso largo dos oficiais da imigração recebendo um avião vindo do Brasil. Brazil?? Ronaldo?? Lesão corporal leve dá cadeia aqui na França? Engraçado como foram anos sendo muito bem tratado e sempre com referências à nossa seleção, quem já foi e quem está sendo. Não sei se por ser um fanático, ou Doente como dito ali atrás, o futebol brasileiro me abria portas pelo mundo. Ou melhor, portas não, sorrisos e conversas, que se iniciavam com Pelé e terminavam com todos outros assuntos que se pode conversar.

O próximo passo foi acompanhar uma Copa de longe do Brasil pela primeira vez – no extremo norte do planeta, num lugar onde o futebol também aquece o povo. E, desde que passei a entender do futebol, pela primeira vez sem ele no grupo de jogadores da seleção. E a derrota foi triste, com três brasileiros solitários e um pouco atônitos com as falhas inesperadas e assistindo tudo na frente de poloneses, lituanos e noruegueses que não entendiam muito bem como uma derrota em campo poderia derrotar os ânimos de uma pessoa.

Mas a alegria voltou rápido, pois a escala dessa vez foi de uma noite em Amsterdam, voltando para o Brasil, no dia da vitória holandesa sobre o Uruguai. Amigos, nos pubs a rodada de chopp é grátis quando os laranjas fazem gol. Confesso que torci quase como um holandês genuíno.

E então, já residente em solo pátrio outra vez, eis que a sorte sorri para mim: o maior evento do mundo será aqui, no quintal de casa. Impossível não se alegrar com o clima que envolve toda a Copa, a preparação, meu Mineirão lindão – onde eu entrei de mãos dadas com um dentuço iniciando a carreira – as seleções chegando, meus amigos gringos chegando, as bandeiras nos carros chegando, as camisas da Joan não chegando. A Copa está aí amigos. Ela chegou, vai ter sim. E eu, brasileirinho confesso e feliz, vou torcer muito pelo caneco, vou encher o caneco, fantasiar minha filhinha e começar a mostrar a ela, abraçado com meu pai, o brilho nos olhos quando Ney estufa as redes.

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18 anos, estudante e apaixonado por futebol.