Minha mão esquerda

  • por João Almeida
  • 7 Anos atrás
Foto: Gazeta Press - Julio César, em menos de um segundo, vai no canto certo e voa para defender o pênalti de Sánchez

Foto: Gazeta Press – Julio César, em menos de um segundo, vai no canto certo e voa para defender o pênalti de Sánchez

O cronômetro marcava 19 minutos do segundo tempo. Brasil e Chile se digladiavam em partida até então empatada, mas o momento era chileno. Foi quando Aránguiz recebeu cruzamento rasteiro da direita e, caído, finalizou no contrapé de Julio César. Era o gol da virada. O chute à queima roupa não daria chances para o goleiro, que não teria como evitar o tento chileno. Ou teria.

Julio deu um salto e, em um ato de puro reflexo, mandou para escanteio a bola e os anseios chilenos de saírem do gramado com a classificação. Foi apenas o primeiro milagre do arqueiro brasileiro naquela tarde em que sairia como herói. Viria também a pegar dois pênaltis chilenos na disputa de penalidades. Nos dois, esperou a cobrança do adversário para se jogar em direção à bola. Funcionou, mas, para botar tal estratégia em prática, era preciso muita confiança em seus reflexos.

Na primeira penalidade, a bola levou cerca de um quarto de segundo para deixar os pés de Pinilla e ir de encontro às mãos de Julio. Já na segunda, ele teve de pular pouco mais de um metro em direção à redonda, que demorou cerca de meio segundo para chegar à sua defesa. Os números assustam. Em um espaço infinitesimal de tempo era preciso analisar a batida, escolher um canto, pular e ainda levar as mãos ao encontro da bola. Rapidez de raciocínio foi, provavelmente, o grande trunfo do goleiro para poder sair de campo como o grande responsável pela classificação de sua seleção.

Reflexos apurados e rapidez de raciocínio são, sem dúvidas, qualidades comuns a todos os grandes goleiros. São também características intrínsecas a muitos canhotos, como o próprio Julio César. Não há comprovações científicas cem por cento conclusivas, mas pesquisas de neurocientistas dão conta de que canhotos, realmente, pensam mais rápido que destros. A transferência de informações entre os dois hemisférios do cérebro, quando feita por aqueles que tem como preferência a mão esquerda, costuma ser mais rápida. Há também o agravante de que eles utilizam mais o lado esquerdo, que é controlado pelo hemisfério direito, responsável, dentre outras coisas, pela noção de espaço, o que também beneficiaria aqueles que defendem as metas em uma partida de futebol.

Na seleção brasileira, o método científico pode ser aplicado. Além do goleiro titular, os dois reservas são conhecidos por serem grandes pegadores de pênaltis e, além desta característica, Jefferson e Victor também têm em comum o fato de serem canhotos. Diego Cavalieri, convocado como suplente – pasmem -, também faz parte deste seleto grupo. Além dos brasileiros, outros expoentes da posição na atualidade fazem parte dele. São os casos de Casillas, Courtois e Cech.

Entretanto, a rapidez de raciocínio é um trunfo não só para aqueles que evitam os gols. Dentre os que têm como profissão fazê-los, chutar com a esquerda é também uma característica que pode fazer a diferença. Dois dos mais famosos canhotos no futebol atual, Messi e Robben têm em comum os dribles curtos executados em um átimo, tirando dos marcadores com agilidade quase que desumana. O holandês é um caso de “extremamente canhoto”, pois quase não utiliza sua perna direita durante o jogo, o que pode ter ligação com a velocidade ainda mais incomum de seus movimentos.

Ao menos até a próxima partida, Julio César é o grande salvador da pátria. Não fosse pela sua agilidade, o Brasil certamente estaria até agora lamentando uma precoce eliminação na Copa do Mundo. Se tudo isso se deu pelo seu canhotismo, não sabemos. Mas, se, de fato, há uma relação biológica, mesmo se a milagrosa mão esquerda do arqueiro titular tiver um problema, o país estará a salvo. Salvo por outras duas mãos esquerdas

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