Quando o amor não tem divisão (ou o que torna um clube grande)

  • por Matheus Mota
  • 7 Anos atrás
O Aucas e seu maior patrimônio. Foto: Reprodução

O Aucas e seu maior patrimônio. Foto: Reprodução

Via de regra, quando um clube fica um bom tempo sem ganhar títulos, ele não conquista novos torcedores; quando muito, apenas sustenta a base de adeptos já existente. Quando o fenômeno inverso ocorre, é uma exceção comemorada. Podemos citar o caso do Corinthians no Brasil, que ficou 23 anos sem ganhar absolutamente nada e tinha-se a impressão de que sua torcida só crescia. Na Europa, um exemplo bem claro é o do Schalke 04, que está há 55 anos sem ganhar coisa alguma e mesmo assim conta com um número de torcedores dos mais expressivos na Alemanha. Na companhia desses dois (e de tantos outros que não puderam ser citados), há o Aucas.

Fundado em 1945 em Quito por operários da Shell (por isso as cores do clube são vermelho e amarelo), o Aucas surgiu com o objetivo de ser um dos grandes do Equador. Um símbolo da ambição do time é seu nome: a palavra “aucas” foi cunhada pelos incas para designar os huaorani, povo que habita a região que corresponde ao atual Equador, e seu significado gira em torno dos termos “selvagem” e “inimigo”, pela resistência que impunham ao Império Inca. Nesse sentido, os operários queriam prestar uma homenagem ao grupo indígena, que consideravam ser bravos guerreiros. Além disso, os ditos “aucas” embaraçaram consideravelmente as expedições de exploração do território equatoriano promovidas pela própria Shell, o que torna o nome uma sacada irônica envolvendo as relações entre patrões e empregados. Polêmicas à parte, a equipe rapidamente se consolidou entre as maiores do país.

Até 1957, o futebol no Equador não tinha um campeonato nacional e restava às equipes disputar torneios regionais. Filiado à associação de futebol da região de Pichincha, o Aucas conseguiu um pentacampeonato, sendo o primeiro título do mesmo ano de sua fundação. Vale mencionar que as três primeiras conquistas foram de maneira invicta, ou seja, o clube só foi perder uma partida para equipes equatorianas 3 anos depois de ser fundado.

As coisas iam bem até a “nacionalização” do futebol do país. Ainda que tivesse desempenhos consistentes, o Aucas nunca ganhou o campeonato nacional. Além disso, em meados da década de 70, foi rebaixado, chegando até mesmo à 3ª Divisão. Apesar de algumas participações na 1ª Divisão, todas elas foram sem brilho e, até 2012, a equipe estava amargando a Terceirona local. O acesso para a 2ª em 2013 foi comemorado, mas o medo de cair é maior que a esperança de subir. Há anos, a agremiação está em crise financeira, resultado de uma série de direções de competência mais que questionável.

Mesmo com todos os percalços, inclusive os rebaixamentos, e de ainda estar amargando uma Segundona, a torcida do Auca se mantêm como uma das maiores do país. Prova disso são os jogos no Gonzalo Pozo Ripalda (batizado em homenagem àquele que é considerado o maior ídolo do clube), que frequentemente recebem quase 20 mil pessoas. Tanto reconhecimento também é partilhado pelos adversários. Até hoje, as partidas contra a LDU ainda são tratadas como clássicos, mesmo que a Liga tenha se agigantado em proporções jamais vistas no futebol equatoriano.

Diante disso, surge um questionamento: o que torna um time grande? Por mais campeonatos que dispute e por mais títulos que conquiste, um time só é grande por conta de seus torcedores, seja em número, seja em paixão.

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Paulista e torcedor do Santo André. Historiador, acompanha o futebol como um todo, mas sobretudo o lado mais alternativo da coisa.