Hernanes: Reserva de todos e de ninguém

Hernanes se tornou membro fixo da Seleção desde a chegada de Felipão. Mas ainda não conseguiu se firmar como titular. (Foto: Divulgação/CBF.com.br)

Hernanes se tornou membro fixo da Seleção desde a chegada de Felipão. Mas ainda não conseguiu se firmar como titular. (Foto: Divulgação/CBF.com.br)

Quando Luiz Felipe Scolari iniciou, em agosto de 2013, sua segunda passagem pelo comando da Seleção, Hernanes ganhou o voto de confiança que precisava para corresponder, definitivamente, a uma expectativa que recaía sobre ele desde os primeiros anos de sua carreira: finalmente, ele passou a ser tido como um nome regular e importante entre os 23 convocados. Uma condição que ele jamais havia experimentado, apesar de já há bastante tempo conviver com o clamor dos torcedores, graças às suas grandes atuações com a camisa do São Paulo. O ápice de uma trajetória iniciada havia cinco anos, alguns meses antes das Olimpíadas de Pequim – torneio para o qual foi convocado, e que começou como titular.

No entanto, já nesses primeiros jogos pela Canarinho, ele começaria a enfrentar um problema que o persegue até os dias de hoje: a dificuldade em adaptar seu estilo de jogo ao futebol praticado pelo time. Na terceira partida em território chinês, o então técnico Dunga sacava o meia para dar oportunidade a Ramires. Ali, pela primeira vez, Hernanes deixava o time titular e cedia espaço àquele que viria a ser seu grande concorrente pela vaga entre os onze. Era o início de uma briga que não terminaria bem para o pernambucano: após a derrota por 3 a 0 para a Argentina, que decretaria o fim do sonho do ouro olímpico, ele não voltaria a ser convocado pelo capitão do tetra, cujos planos incluíam muito mais a velocidade e a verticalidade do ex-cruzeirense do que os seus passes e lançamentos precisos. Para ele, era também o fim do sonho de disputar sua primeira Copa.

Paulinho e Fernandinho são os dois principais concorrentes do pernambucano nesse Mundial. (Foto: Divulgação/CBF.com.br)

Paulinho e Fernandinho são os dois principais concorrentes do pernambucano nesse Mundial. (Foto: Divulgação/CBF.com.br)

Mas o tempo passou, e com a derrota para a Holanda, a segunda “Era Dunga” se encerrou. Mano Menezes assumiu o comando da Seleção e logo o nome de Hernanes voltou a ser lembrado. Ele esteve na primeira lista do treinador gaúcho, e participou do amistoso contra os Estados Unidos – como reserva, entrando no lugar de Ramires. Mas ainda não foi dessa vez que o Profeta se firmou. Num amistoso contra a França, em fevereiro de 2011, ele cometeu a imprudência de acertar uma voadora no peito do atacante Benzema. Foi punido com a expulsão da partida – e dos planos do novo treinador.

O ostracismo de Hernanes terminou se mostrando apenas mais uma entre as tantas opções equivocadas de Mano. Ele, por sua vez, não demoraria no cargo, e viria a ser demitido pela nova-velha cúpula da CBF, chefiada por José Maria Marin. Foi aí que recomeçou a história do pernambucano com a camisa amarela. Desde então, ele conseguiu conquistar seu espaço no grupo e, enfim, na lista definitiva do Mundial.

Na Inter de Milão, seu clube desde o ano passado, ele tem jogado mais próximo dos atacantes – posição que disputaria, na Seleção, com Oscar -, mas também sabe atuar dando qualidade à saída de bola, função que é exercida por Paulinho (ou será Fernandinho?) e Luiz Gustavo na equipe nacional. Essa versatilidade faz de Hernanes um curioso paradoxo: entre os reservas, ele é quem mais atuou sob o comando de Felipão. Dos dezessete jogos de que participou, começou apenas três entre os titulares – sinal de que o técnico vê nele uma opção circunstancial a um onze inicial que já funciona bem. Mas independentemente da forma como será aproveitado, o certo é que o Profeta tem tudo para ser uma peça decisiva na busca do hexacampeonato.

Hernanes, trequartista

hernanes armador

(Arte: Fred Miranda)

Num jogo em que a movimentação de Oscar não estiver ajudando, ele pode jogar mais próximo do gol. É assim que ele vem se posicionando em toda a sua trajetória no futebol italiano;

Hernanes, meia

(Arte: Fred Miranda).

(Arte: Fred Miranda).

Como meia central, ele pode auxiliar Oscar no setor criativo, mas o time tende a perder consistência defensiva sem Fernandinho ou Paulinho;

Hernanes, regista

(Arte: Fred Miranda).

(Arte: Fred Miranda).

Como primeiro volante, o pernambucano faria a função de regista, e precisaria contar com o vigor de Oscar e Paulinho (ou Fernandinho) na marcação.

Nas três alternativas, o estilo de jogo consolidado com o título da Copa das Confederações teria que mudar. Será que tem espaço pra ele?

 

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.