Turim ressuscita duplas de ataque

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Por O Futebólogo

Na década de 90, com o império do esquema 4-4-2, o futebol mundial viu-se cercado por duplas de ataque. Em terras brasileiras, foram muitas as duplas de ataque bem sucedidas. Edmundo e Evair, Paulo Nunes e Jardel, Edilson e Luizão e Marques e Guilherme foram alguns representantes tupiniquins de uma prática que marcou o período em todo o mundo. Como não lembrar, com nostalgia, de duplas como Marcelo Salas e Iván Zamorano, Thierry Henry e Bergkamp ou Romário e Bebeto? Apesar da inegável qualidade dos pares, esse panorama mudou nos últimos 10-15 anos. Emergiu o 4-2-3-1.

Nos últimos anos, as duplas de ataque foram minguando até chegar a quase total inexistência. Exemplos esparsos como Wayne Rooney e Robin Van Persie e Sergio Agüero e Forlán seguiram existindo, mas nitidamente rarearam. Nesta temporada, entretanto, na quarta maior cidade da Itália, duas parcerias foram firmadas, relembrando o belo encaixe de duplas mais antigas. Carlos Tévez somou-se a Fernando Llorente, Alessio Cerci a Ciro Immobile.

Foto: Getty Images - Do lado Bianconero da rivalidade, o ataque é formado por Llorente e Tévez

Foto: Getty Images – Do lado Bianconero da rivalidade, o ataque é formado por Llorente e Tévez

Tendo em conta que o segredo do sucesso do 4-2-3-1 é o aumento do número de jogadores na faixa central do campo e de uma linha de combate no setor, como um teórico retrocesso tático está dando certo? Diferentemente da maioria das duplas antigas, que retornavam à marcação pareadas, as atuais se dissociam na hora da retomada da bola. O 4-4-2 se desmonta e se transforma num 4-4-1-1, que nada mais é do que uma variação do 4-2-3-1.

A essência do esquema da moda, o 4-2-3-1, é mantida. No entanto, quando a equipe tem a bola, os atacantes se aproximam, o que facilita em grande medida o desempenho do par, pois permite-lhe o diálogo. Os exemplos vistos da cidade de Turim materializaram com enorme perfeição esta prática. Tévez e Cerci, jogadores rápidos e móveis, conseguem, como poucos, fazer a volta na marcação, integrando o meio-campo; Llorente e Immobile restringem-se à valorosa tarefa de cercar os zagueiros adversários.

Outro ponto interessantíssimo e observável nos rivais de Turim é o uso, por muitas vezes, de três zagueiros. Com esta opção, o time sempre conta com cinco atletas no meio-campo e, com a volta de um dos atacantes, preenche ainda mais o setor, mantendo ainda mais ocupada a meia-cancha, tão privilegiada pelo 4-2-3-1.

Foto: La Presse - No Torino, a parceria de ataque é composta por Immobile e Cerci.

Foto: La Presse – No Torino, a parceria de ataque é composta por Immobile e Cerci

Táticas à parte, os atacantes turineses também trouxeram consigo a beleza e o encanto que só uma dupla de ataque pode apresentar. Entrosamento, trocas de posições, assistências mútuas, deslocamentos e aberturas de espaços marcaram a grande temporada do ótimo quarteto, separado por uma das maiores rivalidades da Bota.

A prova cabal da enorme qualidade das duplas foi o desempenho numérico. O lado alvinegro da rivalidade anotou 35 tentos, 16 de Llorente e 19 de Tévez, e conseguiu 13 assistências, cinco do espanhol e oito do argentino. Já o time Granato, com sua dupla de ataque, também marcou 35 gols, 22 de Immobile e 13 de Cerci, provendo também 15 assistências, 12 de Alessio e três de Ciro, números que lhes confirmaram os títulos de melhor assistente e goleador da temporada.

Se Tévez e Cerci são invenção e habilidade, Llorente e Immobile – que, infelizmente para Il Toro, deve deixar o clube e rumar para o Borussia Dortmund – são objetividade, características que se complementam com perfeição. Se pelo resto do mundo as duplas de ataque são raridade, na imponente Turim, a temporada 2013/2014 mostrou que as duplas de ataque não morreram e podem, num futuro próximo, ressurgir, não como algo antigo ou antiquado, mas como novidade e revolução.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.