Um dia de Copa

  • por Henrique Joncew
  • 7 Anos atrás

O dia de Copa começou na madrugada, na Praça da Savassi, apinhada de colombianos, gregos, ingleses, alemães, russos e alguns brasileiros. Torcedores de toda sorte cantavam, gritavam, buzinavam, pulavam juntos. E este colunista e seus amigos (ironicamente, não tão doentes por futebol assim), espertamente, levaram uma bola. E não faltou colombiano, grego, inglês, alemão russo e brasileiro que não quisesse chutá-la, fazer embaixadinhas ou driblar os ébrios transeuntes . Na Babel da Copa, a bola é a intérprete. Finda a brincadeira (graças a mim, que, tal qual Nelinho, isolei a bola por cima de um muro, acabando com tudo), era hora de ir para casa, pois o amanhecer traria consigo um jogo de Copa do Mundo.

Despertei de um salto. Destaquei meu ingresso, tão bem guardado, para que ele me desse o que prometia: o pontapé inicial às 13 horas e todas as emoções do jogo entre Colômbia e Grécia. Sem maiores transtornos (segui por uma rota alternativa), cheguei ao Mineirão às 10:30. Lá, mergulhei em um mar colombiano. Ondas amarelas me carregavam inexoravelmente para dentro do estádio, cercado de cardumes de Valderramas e Higuitas. Não escondo: também estava “fantasiado” com uma camisa de um time colombiano, o Real Cartagena.

Depois de uma longa fila debaixo de sol, passei pelo raio X e finalmente adentrei a esplanada do Mineirão. Atrás de mim, mais e mais hordas colombianas chegavam. Os gregos eram raros, mas também estavam lá, e absolutamente todos, dentro e fora do estádio, conviviam em paz, cantavam, tiravam fotos com as bandeiras dos rivais, pintavam seus rostos, e todos levaram a animação para dentro do campo.

Dentro do Mineirão para ver a Copa do Mundo!

Dentro do Mineirão para ver a Copa do Mundo! (Foto: Henrique Joncew)

Após uma rápida (e, portanto, sortuda) parada na lanchonete (que não havia recebido todos os lanches), enfim pude me encaminhar ao meu assento. Lá, enfim, me deparei com um estádio de Copa do Mundo: muita festa, muita cantoria, muito “Ole ole, ole ola, que mi Colombia va a ganhar”. A espera por uma partida de Copa do Mundo estava chegando ao fim.

Quando os times entraram para se aquecer, após alguma empolgação, as leves corridas e trocas de passe só aumentaram a ansiedade. Quando as equipes se retiraram novamente, a expectativa ultrapassou qualquer limite. O tempo tinha que correr!

Tic, tac, tic, tac, tic, tac.

Às 12:52 do dia 14 de junho de 2014, os repórteres e fotógrafos se amontoaram na beirada da saída do túnel. As bandeiras foram trazidas a campo. O sistema de som anunciou a entrada das seleções de Colômbia e Grécia. A espera havia acabado.

O tema da FIFA nunca soou e nem soará tão belo novamente. Nem se o time que torço chegar a uma final de Mundial, nem se um dia eu estiver em uma final de Copa do Mundo. Ao som da melodia, o árbitro Mark Geiger, mais que a Brazuca e as equipes, levava para dentro do gramado um sonho de infância.

A hora dos hinos também não deixou a desejar. Os colombianos cantaram a capela a plenos pulmões. Espetáculo de arrepiar qualquer um, seguido pelo Hino à Liberdade dos gregos. Colômbia e Grécia se cumprimentaram e se separaram, o apito soou e o sonho virou realidade.

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Não era mais sonho quando Armero marcou e levou o Armeration à Copa do Mundo. Não era mais sonho quando Teo Gutiérrez escorou a bola no escanteio. Não era mais sonho quando James Rodríguez encerrou o baile com um belo gol. A Colômbia despachava a Grécia, o Mineirão brilhava como o sol em amarelo e meus olhos brilhavam como os de uma criança.

No sonho real, o campo do Mineirão foi Elíseo, todo canto foi de Orfeu, Apolo foi colombiano e a tragédia foi grega. O apito final não foi um lamento, senão o desfecho apoteótico para que eu pudesse chegar em casa novamente e então poder dizer: “eu vi a Copa”.

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Geólogo. Fã de futebol, Fórmula 1, paleontologia, astronomia e pirataria desde criança. Belo horizontino, cruzeirense e líbero, armador ou atacante canhoto. Tem Zidane e Velociraptor como grandes ídolos e modelos de vida. Gosta de batata frita, do espaço e de combater o crime à noite sob o disfarce de Escorpião Negro.