Um Galo em evolução

Por O Futebólogo

Após passar quase três anos sob o comando de Cuca, o Atlético apostou, no início da temporada, na contratação de Paulo Autuori. Rapidamente, o torcedor, que nunca demonstrou empatia pelo novo treinador, começou a perder o entusiasmo com o time. A “eletricidade” do Atlético de Cuca foi extinta e um jogo de um toque de bola insosso, tedioso e nada objetivo emergiu. Os principais talentos individuais do Galo, Ronaldinho Gaúcho e Diego Tardelli, sumiram e ficou claro o “buraco” existente no meio-campo.

Quem se acostumou com o Galo da Libertadores viveu um filme de terror sob a gestão de Autuori. Afortunadamente – para o torcedor alvinegro – a paciência do presidente Alexandre Kalil se esgotou e, após a derrota no jogo de ida das oitavas de finais da Copa Libertadores ante o Atlético Nacional, demitiu seu treinador.

Rapidamente, o Atlético se movimentou e acertou o retorno de Levir Culpi, treinador inegavelmente identificado com o clube e com ótimo retrospecto.

Anteriormente, em 1994, sua primeira passagem pelo clube, conquistou o Campeonato Mineiro de 1995 e chegou à sétima colocação do Campeonato Brasileiro daquele ano. Em 2001, sua segunda passagem, com um time excelente, que tinha jogadores do quilate de Marques, Guilherme, Ramón Menezes, Gilberto Silva, Djair e Valdo, chegou às semifinais do Brasileirão, sendo eliminado pelo São Caetano em uma partida marcada pela intensa chuva. Por fim, em 2006, Levir escreveu de vez seu nome na história alvinegra. Assumindo um time que vinha mal, chegando a ocupar a 14ª posição da Segunda Divisão, reergueu-o e levou-o de volta à elite.

Em 2014, após sete anos no futebol japonês, o treinador retornou, tendo sido recebido com festejos de uma parte da torcida e, por outra, com desconfiança. Logo no início, Levir Culpi acumulou três resultados desfavoráveis e bateu de frente com um dos ídolos do torcedor, Diego Tardelli. A eliminação da Copa Libertadores e as derrotas para Grêmio (que atuou com seu time reserva) e Goiás (em casa) deixaram o clima pesado na Cidade do Galo.

Todavia, com muita coragem, o treinador ousou no clássico contra o Cruzeiro, quando a Raposa vencia por 1×0, e, no segundo tempo, lançou quatro atacantes em campo, conseguindo a virada não só do jogo como também da situação do time. Depois desse resultado, o Atlético conquistou mais três vitórias, um empate e sofreu uma derrota, que o permitiram subir na tabela e espantar a crescente crise.

No campo, apesar dos inúmeros desfalques (jogadores como Jô, Ronaldinho, Réver, Diego Tardelli, Victor e Marcos Rocha são, ou foram, desfalques em boa parte do tempo), a equipe evoluiu e começou a corrigir o principal problema da gestão de Autuori, o espaçamento do meio-campo. No momento, o Galo ganhou em compactação. Com a entrada do argentino Jesús Dátolo, que tem jogado bem, os volantes têm tido com quem iniciar as jogadas e os atacantes têm tido alguém para lhes municiar.

Evidentemente, o clube passa por um processo de mudança. A saída de Cuca representou o fim de um ciclo. Para chegar ao nível dos dois últimos anos, o Galo precisa de reforços e treinamento. Infelizmente para o torcedor alvinegro, o efêmero empréstimo argentino Nicolás Otamendi chegou ao fim. Outro que deixa o clube é Fernandinho, jogador que não era unanimidade mas viveu bons momentos.

O retorno dos jogadores lesionados e dos selecionáveis Victor e Jô é ansiosamente aguardado. Por enquanto, a única novidade é a chegada do meia Maicosuel, que, em decorrência da facilidade em atuar pelas diversas faixas do meio-campo, pode ter sido uma contratação muito útil.

Ainda acontecerão saídas e ao menos dois jogadores devem ser contratados. Por enquanto, o atleta mais cotado para deixar Belo Horizonte é o volante Rosinei.

Está muito claro que a equipe está em desenvolvimento e também em evolução. Os aguardados dias de parada para a Copa do Mundo são motivo de comemoração para o treinador alvinegro, que, como em 2006, terá tempo para dar sintonia fina à equipe.

Levir Culpi faz questão de manter os pés no chão e reconhece que ainda há muito o que melhorar, tanto coletiva quanto individualmente. Entretanto, é indiscutível o fato de que a chegada do treinador “cutucou” alguns jogadores que estavam na “zona de conforto”. Criticado no início do trabalho de Levir, Diego Tardelli é o símbolo mais cristalino da evolução do time. O camisa 9 voltou a marcar um gol, após 15 jogos sem balançar as redes, e tem jogado bem.

No momento, a palavra de ordem no Galo é trabalho. A necessidade de melhorar tem sido frequentemente ressaltada e o técnico parece ter percebido rapidamente os problemas centrais da equipe. Com tempo para treinar e com a vinda de reforços, o time começa a se remodelar. O amansamento da avalanche de críticas feitas na gestão Autuori permitirá à equipe tranquilidade para se aperfeiçoar e, com mais 29 rodadas por disputar, ainda há chances para o clube, ao final da temporada, proporcionar sorrisos aos torcedores.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.