Um sonho impedido

Foto: Fox Sports Asia - Contra a Eslováquia, em setembro de 2013, a Bósnia se confirmou na Copa do Mundo

Foto: Fox Sports Asia – Contra a Eslováquia, em setembro de 2013, a Bósnia se confirmou na Copa do Mundo

Por O Futebólogo

Em sua primeira Copa do Mundo, desde a sua separação da extinta Iugoslávia, a Seleção da Bósnia e Herzegovina tem motivos para ficar satisfeita. Sim, o sonho da classificação para as oitavas de final, logo em sua primeira participação, não veio. Mas o futebol demonstrado permitiu que o torcedor da tão sofrida nação – que enfrentou a crueldade de uma guerra civil entre os anos de 1992 e 1995 – sorrisse.

Já na estreia, contra a favorita Argentina, os bósnios cumpriram bem o seu papel, mas sofreram com a falta de sorte. Logo aos três minutos da etapa inicial, em bola alçada na área, o lateral esquerdo Sead Kolasinac, do Schalke 04, marcou gol contra. Depois, veio o descuido e Lionel Messi fez a diferença, anotando o segundo tento da partida. Todavia, como autênticos representantes de um povo bravio, os Bósnios não desistiram e, com o artilheiro Vedad Ibisevic, conseguiram diminuir o marcador. A prevista derrota para os Hermanos se confirmou, mas, certamente, ocorreu de forma muito menos contundente do que o imaginado.

Veio o segundo e amargo ato, contra a Nigéria. Se no meio do caminho de Drummond havia uma pedra, na trilha do poderoso centroavante Edin Dzeko, as adversidades foram duas: o inspirado arqueiro Vincent Enyeama e um árbitro auxiliar neozelandês extremamente mal posicionado – sem entrar no mérito de ter havido (ou não) falta no gol nigeriano, afinal, mesmo as imagens são inconclusivas. Como se fosse líquida, a vaga à fase seguinte da Copa do Mundo escorreu pelas mãos – ou seria pelos pés? – dos responsáveis pela primeira qualificação dos Zmajevi (Dragões). Estavam eliminados.

Foto: 101GreatGoals.com - A imagem é clara: Dzeko não estava impedido

Foto: 101GreatGoals.com – A imagem é clara: Dzeko não estava impedido

Mas a nação, que concebeu os talentos de Dzeko, Miralen Pjanic e Zvjezdan Misimovic, disposta a suar todo o sangue estupidamente desperdiçado nos últimos 22 anos, queria mais – ansiava uma vitória como prova de que seu recente sucesso não fora obra de um feliz acaso.

O último adversário era o, teoricamente fraco, Irã – que resistira até os acréscimos do segundo tempo contra a poderosa Argentina. Como guerreiros que dão a vida nas batalhas, os Bósnios enfrentaram os valentes iranianos e, finalmente, venceram. O tão esperado gol de Dzeko saiu, e somado aos tentos de Pjanic e Avidja Vrsajevic, construiu o triunfo da equipe. Nem o solitário gol de Reza Ghoochannejhad, que descontou para os iranianos, foi capaz de barrar a missão dos comandados de Safet Susic – que, reconhecido pelo belo trabalho feito, deixará o comando da Seleção.

Foto: Getty Images - Autores dos três gols, Dzeko, Pjanic e Vrsajevic comemoraram a vitória contra o Irã

Foto: Getty Images – Autores dos três gols, Dzeko, Pjanic e Vrsajevic comemoraram a vitória contra o Irã

Se a Bósnia tivesse falhado por falta de empenho ou qualidade técnica, os analistas de todo o mundo apontariam a classificação para a Copa do Mundo como um ato de rara fortuna diante das difíceis Eliminatórias Européias. Contudo, não foi esse o quadro pintado pelos Zlatni ljiljani (Lírios Dourados). Mesmo eliminados, eles lutaram. O lamento do povo não se deu pelo que a equipe fez (ou deixou de fazer) – mas pelo que, com grandes dificuldades, construíram e lhes foi tomado, como alguém que retira um doce de criança.

É evidente que não se pode prever o que teria acontecido caso o bandeira da partida contra a Nigéria tivesse acertado. Certamente, o “depois” teria se desenhado de forma diversa do ocorrido. Mas é inegável o amargor que isso traz para o povo bósnio. E vale mencionar, ainda, que sem embrenhar-se nesta árida discussão, que esse tipo de contenda continuará existindo enquanto a FIFA ignorar o uso da tecnologia no futebol. Porém a epítome do drama bósnio foi a luta persistente, de uma equipe valente que aceitou – e foi bem sucedida – a dura tarefa de alegrar um povo, que há tempos vive nas sombras.

Foto: Felipe Oliveira/ Getty Images - Com brio, Bósnios mostraram valentia até o apito final

Foto: Felipe Oliveira/ Getty Images – Com brio, Bósnios mostraram valentia até o apito final

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.