Vivendo sob a benção de Nicolau Alayon

  • por Matheus Mota
  • 7 Anos atrás

São Paulo é uma das cidades mais famosas do Brasil. Além de polo econômico, também é um polo cultural, recebendo anualmente milhares de turistas. Outra característica da cidade é que ela é muito ativa no futebol, o que é já é algo esperado, pois foi um dos primeiros locais em que o esporte começou a ser praticado. Herança disso é o número relativamente grande de clubes na cidade, quatro deles entre os mais tradicionais do país: Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Portuguesa, que, ainda que não esteja no melhor dos momentos, possui um peso inegável no futebol brasileiro. Outro que não vive bons dias é o Juventus, outrora frequentador assíduo da primeira divisão, mas que atualmente fica entre a Série A2 e a A3. Ao menos o clube resgatou sua torcida, e visitar ao menos uma vez a Rua Javari é obrigatório para qualquer fã de futebol que queira ver um jogo e degustar um canolli. Além dos clubes mencionados, há também o Nacional.

Membro fundador da Federação Paulista, o Naça passa por uma situação atípica; muitos que acompanham o futebol paulistano conhecem a equipe, mas poucos sabem sobre sua atual realidade. Longe da elite desde a década de 50, o Nacional agora participa das divisões de acesso do estado. Enquanto lutava para voltar à competição que ajudou a formar, assistia seus vizinhos do outro lado da rua prosperarem cada vez mais. Explica-se: o estádio do NAC fica em frente aos CTs de Palmeiras e São Paulo, no bairro da Barra Funda. A entrada da cancha está na rua Comendador Sousa (seu nome extraoficial), que é um pouco escondida. Ao transeunte pela avenida que separa o estádio dos referidos CTs, a única visão que se tem do patrimônio do Nacional são uns campos de society, o que torna o estádio praticamente oculto. Aqui cabe uma dica: para o visitante de primeira vez, é recomendável perguntar pelos centros de treinamento, pois pouca gente sabe do estádio.

Essa realidade de clube oculto obviamente trouxe consequências. No começo da década passada, eram comuns jogos no estádio da rua Comendador Sousa contarem com 700 pessoas ou mais. Atualmente, o número é pouco superior a 100, considerando que uma parte significativa dos frequentadores são parentes ou conhecidos dos próprios atletas. A outra parte é composta pelos torcedores que sobraram e pelos fãs das divisões de acesso. Ah, dentre esses 100, inclui-se a torcida visitante. Provavelmente, os fundadores do time, empregados da São Paulo Railway, não imaginavam esse futuro para o clube, que por quase 30 anos levava o nome da companhia. Entre esses funcionários, havia o Sr. Nicolau Alayon.

Uruguaio de Montevidéu, Alayon chegou a ser presidente do Nacional, e era um de seus maiores torcedores. Tamanha é sua influência, que o estádio foi batizado oficialmente com o nome dele (por muito tempo, foi o único estádio do Brasil que homenageava um estrangeiro; hoje divide essa peculiaridade com Jacareí, também de SP, que manda suas partidas no Stravos Papadopoulos).

O Nacional é um caso fascinante, pois está sobrevivendo mesmo sem uma grande base de torcedores, mesmo sendo ignorado por quase todos, mesmo jogando na última divisão do futebol paulista. Sobrevivendo a duras penas, é verdade, mas sobrevivendo, sempre com a esperança de voltar para a elite. A saga tem um novo capítulo em 2014, em que o acesso para a Série A3 é a meta. O NAC teve a melhor campanha geral – em 10 jogos, o time venceu 8 e empatou os outros 2, marcando 24 gols e sofrendo apenas 5, além de ter feito a maior goleada da competição, 9 x 1 pra cima do ECUS. A 2ª fase da Segunda Divisão Paulista só será disputada após a Copa, mas para quem mora na capital ou nas cidades em que o clube vai jogar, vale a pena vê-lo. O Nacional é um reflexo da ação dos tempos: passado brilhante, presente inglório e futuro incerto.

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Paulista e torcedor do Santo André. Historiador, acompanha o futebol como um todo, mas sobretudo o lado mais alternativo da coisa.