A Copa das luvas

  • por João Almeida
  • 6 Anos atrás
Foto: AFP - Howard em uma de suas 16 defesas contra a Bélgica; novo recorde em Copas

Foto: AFP – Howard em uma de suas 16 defesas contra a Bélgica; novo recorde em Copas

Gols não faltam nesta Copa do Mundo. Hoje, antes mesmo do início das quartas de final, o número de tentos já é maior que os das últimas duas copas: são 154 da atual edição contra 145 da última e 147 da penúltima. E o número alto também rende uma média surpreendente de 2,75 por partida, uma das maiores da história da competição.

No entanto, engana-se quem credita o alto número de gols marcados à fraqueza daqueles que têm por tarefa impedi-los. Se, em termos de número de gols, a edição atual vem batendo recordes, em termos de defesas não é diferente.

https://www.youtube.com/watch?v=xRV1hZ0eCas

Até aqui, o goleiro mais efetivo em termos estatísticos foi o americano Tim Howard, que, diante da Bélgica nas oitavas, bateu o recorde de defesas em uma partida de Copa do Mundo desde que tal estatística passou a ser contabilizada pela FIFA, em 1966. O antigo recorde, do peruano Ramon Quiroga, era de 13 defesas em uma partida, obtido em um jogo contra a Holanda. O goleiro dos Estados Unidos conseguiu parar o ataque belga por 16 vezes. Em toda esta edição, já contabiliza 28 gols evitados, enquanto em 2010 o recorde geral foi de 24, do ganês Kingson.

https://www.youtube.com/watch?v=Pax9GQny7tE

E se Howard é, estatisticamente, o mais competente, quem até aqui chamou mais atenção foi Guillermo Ochoa, do México. O arqueiro, já eliminado da competição, também deixou a sua marca. Atualmente desempregado, passou a ser cobiçado por inúmeros clubes europeus e não tardará a encontrar uma nova meta para defender. Conhecido por ter parado Neymar, sobretudo em uma cabeçada defendida de forma espetacular, ele voltou à sua terra natal com dois troféus de homem do jogo, inclusive na fatídica partida que resultou em sua eliminação.

Aliás, esse troféu carrega consigo muito significado no que se refere ao brilho dos goleiros nesta Copa. Dentre as 56 premiações distribuídas até aqui, 10 agraciaram arqueiros, o que corresponde a cerca de 18% do total. Em 2010, dos 64 troféus, somente cinco foram parar nas mãos de goleiros, o que representa aproximadamente 8% do total. Praticamente em um a cada cinco jogos o melhor jogador em campo usa luvas. Trata-se de um número muito significativo em uma Copa em que o número de gols marcados chama a atenção.

Curiosamente, Iker Casillas, o melhor goleiro da última edição, foi embora na fase de grupos após ter se destacado negativamente – principalmente na acachapante derrota para a Holanda – enquanto que nomes desconhecidos do grande público se consolidaram como destaques da atual edição.

https://www.youtube.com/watch?v=ZrS6UCTel8E

Logo atrás de Howard, quem tem mais defesas é o argelino Rais M’Bolhi, que parou o poderoso ataque alemão e garantiu uma partida sem gols até o fim do tempo regulamentar nas oitavas de final. Com 28 anos, M’Bolhi atua no futebol búlgaro, no CSKA Sofia.

O outro goleiro a carregar consigo duas designações de melhor em campo, além do desempregado Ochoa e do recordista Howard, foi o costa-riquenho Keylor Navas – grande responsável pela presença de sua seleção nas quartas de final, após brilhar nas cobranças de pênalti diante da Grécia. Navas defende o Levante, da Espanha, e, apesar de ter sido um dos melhores goleiros da última edição da liga espanhola, segue defendendo um dos times mais fracos da primeira divisão local. Provavelmente, após seu desempenho na Copa, o cenário mudará.

Mas, se há um goleiro que não dará grandes saltos na carreira após a competição, trata-se do russo Igor Akinfeev. Em um certame marcado por poucas falhas dos arqueiros, Akinfeev quase as monopolizou.

Mesmo após uma falha absurda diante da Coreia do Sul, ele tratou de comprometer novamente sua seleção saindo muito mal do gol e permitindo um gol da Argélia, que foi responsável por eliminar a Rússia. Além de Casillas, o goleiro nigeriano Enyeama também contribuiu para que o russo não falhasse sozinho. Ainda que sua atuação tenha sido quase irretocável diante da França, Enyeama falhou em cobrança de escanteio que deixou Pogba livre para marcar. Mesmo assim, o nigeriano saiu por cima – pois, a exemplo de 2010, foi muito bem na Copa deste ano (apesar desta falha) e mostrou porque foi, para muitos, o melhor goleiro da temporada no último campeonato francês.

E, quem tinha algo a provar, até aqui, provou. Julio César, muito contestado após falhar em 2010 e ter tido praticamente um ano sabático em 2013, garantiu o Brasil nas quartas de final, após acirrada disputa de pênaltis. Do outro lado estava Claudio Bravo, que, defendendo a meta chilena, também brilhou e conseguiu um contrato com o Barcelona durante a competição. Outro contestado, o argentino Sergio Romero, pode não ter brilhado no mesmo nível dos outros arqueiros supracitados, mas garantiu ao gol argentino uma segurança que não se esperava dele.

Agora, a Copa vai se encaminhando para seu fim. A competição afunila e deixa para trás não só excelentes jogadores, como também goleiros de alto nível. Se eles têm feito a diferença até aqui, tudo indica que podem fazer a diferença no final. Dentre os que sobraram vale também destacar o colombiano Ospina, sempre muito seguro, e o alemão Neuer que, sobretudo diante da Argélia, pôs em prática seus hábitos não muito ortodoxos ao atuar quase como um líbero em situações de perigo.

Como um bom time começa com um grande goleiro, não surpreenderá a ninguém se a seleção que levantar a taça tiver como um de seus destaques alguém que a levante de luvas.

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