A ousadia de Miroslav Klose

  • por Doentes por Futebol
  • 5 Anos atrás
miroslav klose

Imagem: Reprodução/Getty Images/FIFA.com

Neste coletivo de ingratidão, personagens e atos que desafiam qualquer previsão lógica, neste grande acumulo de histórias e sobre tudo de injustiças, Miroslav Klose personifica o traço irônico do futebol.

Ele parecia estar predestinado à mediocridade. Nascido na Polônia, dificilmente poderia esperar disputar de fato uma Copa do Mundo. Figurando nas reservas do pequeno Homburg, ainda nos últimos anos da década de 90, não se mostrava predestinado aos grandes feitos: uma temporada, dezoito jogos, um único gol; não poderia ter sido um artilheiro. Mas o futebol desafia previsões, ignora a lógica e serve à ironia.

Klose se transfere para o 1. FC Kaiserslautern, ignorando o vazio do futebol polonês. Estreia na temporada 99/00 com duas presenças, nenhum gol; em dois anos de carreira, tinha marcado somente uma vez. Parecia ter tentos contados desde que nascera… ou estava guardando os seus para os momentos mais importantes.

Só às margens da Copa de 2002, o atacante polonês mostraria o ás em sua manga, e seu faro de gol o colocava na disputa da artilharia da Bundesliga. Ele ficou a dois gols de Amoroso, campeão daquela temporada pelo Borussia Dortmund. Estourava na véspera do maior evento esportivo do mundo, o que o levou a ser chamado pelo treinador polonês Jerzy Engel. Mas Klose esperava por sua chance, pela chance que estava guardada para si nos olhos das cartomantes do futebol. Esperava uma oportunidade do lendário atacante germânico Rudi Voller. ” Eu tenho passaporte alemão, e se as coisas continuarem do jeito que estão eu tenho uma chance de jogar por Rudi Voller” teria dito Klose, ao renegar seu país de origem.

No pequeno Homburg, da Polônia, Klose deu seus primeiros passos. (Imagem: Reprodução)

No pequeno Homburg, da Polônia, Klose deu seus primeiros passos. (Imagem: Reprodução)

Sua espera foi recompensada e, em março de 2001, ele era selecionado para disputar a classificatória contra a Albânia. O atacante começava a escrever seu nome na história do esporte: entrou aos 73 e, dois minutos depois, encaminhou a vitória alemã, comemorando com um ousado salto mortal. Ele nunca foi um destaque, nunca seria lembrado nas listas que saúdam os grandes jogadores da história, provavelmente nem pode ser considerado um dos grandes atacantes de sua década. Mas ainda assim, Klose disputaria quatro Copas pela Alemanha, começando ainda em 2002, marcando 5 gols – a mesma quantidade que Rivaldo, o injustiçado craque da Copa -, e 3 a menos que o grande adversário de sua carreira de artilheiro: Ronaldo.

Após uma má fase seguinte à Copa, Klose se reinventou no Werder Bremen, marcando 63 gols em 3 temporadas. Chegou ao seu auge, o Bayern de Munique. Mas não seria pelos clubes que o matador gastaria seu talento. Não, se mostraria grato à chance e seguiria os passos de Rudi Voller, honraria o manto germânico. Não é um homem de títulos, em muitos momentos chegou a sonhar com o topo do mundo, mas teve que se contentar com um vice e dois bronzes. Em clubes, ganhou duas Bundesligas e chegou a uma final da Copa dos Campeões, em 09/10. Klose guardou seu talento para outro patamar.

Klose conquistou a maior parte dos seus títulos com clubes no Bayern (Imagem: Reprodução).

Klose conquistou a maior parte dos seus títulos com clubes no Bayern (Imagem: Reprodução).

Um quarto de seus quase 280 gols foi reservado para a alegria não de uma, mas de todas as torcidas alemãs. Desfilaria seu futebol a cada quatro anos, nas Copas, e nesses gramados escreveria seu nome na história, se salvando de sua aparente mediocridade. Não foi o maior de nenhum dos clubes em que jogou, tampouco foi a maior lenda de sua seleção, mas com seus tentos, muito bem guardados, sempre espalhados já desde os jogos nas vésperas das copas. Seria artilheiro em 2006, jogando na casa que adotou para si, retribuindo as chances que ganhou e, oito anos depois, tomaria para si o posto de maior artilheiro da história da Alemanha, um jogo antes do início da Mundial de 2014, superando o mítico Gerd Müller.

Eis que doze anos depois daquele distante jogo contra a Albânia, com dois minutos em campo, no seu primeiro toque na bola contra Gana (mesma seleção que consagrara o Fenômeno e o coroara maior artilheiro de todas as Copas) que Klose, com ar de malabarista, se estica para guardar um dos mais importantes tentos de sua carreira, o penúltimo dos que tem guardados. E relembrando aquele primeiro gol de sua longa carreira internacional, dá uma pirueta, um mortal inconsequente e aterrissa na história do esporte, de um esporte irônico, que deixa um de certa forma medíocre Miroslav Klose (medíocre se comparado aos seus adversários) estar acima de monumentos absolutos do mundo da bola, ídolos imortais como Pelé, Just Fontaine, Diego Maradona, Roberto Baggio, Eusébio, Rivaldo, entre tantos outros, que de longe assistem o agora maior artilheiro de todas as copas buscar seu último feito: deixa para trás um bicampeão do mundo, um artilheiro três vezes melhor do mundo e talvez o maior camisa 9 da história: o fenômeno Ronaldo.

Tarja no braço, onze nas costas: eis o maior artilheiro da história da Nationalelf (Imagem: Reprodução).

Tarja no braço, onze nas costas: eis o maior artilheiro da história da Nationalelf (Imagem: Reprodução).

Klose sempre desafiou a gravidade. Sua maior pirueta ainda estava guardada, e não poderia se dar em um momento mais inesquecível: diante dos donos da casa, em uma semi-final, enquanto seu rival, das cabines da imprensa, o assistia, impotente, ultrapassar sua marca. Precisou de dois chutes para, com o oportunismo e bom posicionamento que lhe são habituais, marcar de perna direita, matar o jogo e, discretamente (como fez em toda sua carreira), deslizar pela grande área, se retirando para que seus companheiros pudessem encerrar a execução.

Deixaria, sob aplausos, o gramado quando ainda estava 5×0. Um placar histórico, um jogo histórico, um lance histórico. Klose desafiou e venceu a gravidade que tanto queria segura-lo no chão, desafiou a lógica e as expectativas. E se o gol é o centro sobre o qual orbita o futebol, e deste a Copa do Mundo é símbolo máximo, hoje Miroslav Klose é de fato um dos maiores da História. Com a mesma discrição e incredulidade com as quais saiu do banco do Homburg, há quase 17 anos. Após esse dia tão inesperado, esse resultado tão inacreditável, tão imprevisível, pergunto: será que algum dia, em qualquer oráculo destes tantos cantos e gramados do mundo, se esperou tamanha grandeza para o pequeno Klose de Opole? O futebol é de fato uma caixinha de surpresas.

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