A queda do Azulão

  • por Matheus Mota
  • 7 Anos atrás

Faz 14 anos que uma equipe pequena do ABC espantou o país, saindo do quase anonimato para o posto de mais querido do Brasil. Isso ocorreu durante a famigerada Copa João Havelange, e o time em questão era o São Caetano. Até então, passou a maior parte de sua existência nas divisões inferiores do futebol paulista. Graças ao caráter peculiar daquele campeonato nacional, pôde ter a oportunidade de competir com os maiores times do país pelo título. Esperava-se que o Azulão caísse logo na primeira etapa da fase final, mas, no entanto, o que se viu foram vitórias contundentes sobre Fluminense, Palmeiras e sobretudo Grêmio, quando venceu por 3 x 1 em pleno Olímpico. A derrota para o Vasco na final ainda é um dos mais polêmicos episódios do futebol brasileiro.

Depois do vice no Brasileiro seguinte, o clube também foi vice na Libertadores de 2002. Nada mal para um time de menos de 15 anos de vida. Com um planejamento sério e com o apoio do poder público, o São Caetano manteve-se no topo por muito tempo, tendo o título do Paulista de 2004 como coroação desse período. O Azulão parecia ter se estabelecido entre os principais do país, a população da cidade o apoiava e o resto do país o adotou como segundo time. Para quem não torcia para o rival Santo André, era impossível odiar o São Caetano.

Mas como dizem, se manter no topo é mais difícil do que chegar nele. Seis anos após despontar para o futebol brasileiro, o São Caetano era rebaixado para a Série B, onde se estabilizou no meio da tabela. O mesmo se aplicava no estadual, em que o último momento de brilho foi o vice de 2007. À medida que o time passava a brilhar mais discretamente, a média de público, que não era das mais altas (em números brutos, pois deve-se considerar que São Caetano do Sul possuí aproximadamente 150 mil moradores, e esse número flutuou pouco nos últimos anos), caía ainda mais.

Nos últimos anos, a média de público, quando muito, beirava 300 pessoas, e frequentemente estava entre as piores de qualquer campeonato que participasse. Quando um time sequer é bem quisto pelos seus, não dá para esperar que ele se mantenha saudável. A Série B de 2012 foi o canto do cisne, quando o Azulão ficou a uma vitória de voltar para a Série A. Disso seguiu-se o rebaixamento para a Série C do Brasileiro e para a A2 do Paulista.

Procuram-se explicações para tamanha queda. O fim do apoio da prefeitura e a permanência de um único grupo na gestão do clube são as justificativas mais apontadas. Sobre o apoio do poder público, é fato que ele é um expediente comum nas divisões inferiores e em centros periféricos do futebol brasileiro. No entanto, em um plano ideal, o mesmo deve ser aplicado apenas para um “chute inicial”. Após isso, o clube deve construir por si as bases em que se assentará. Caso o poder público ainda coloque dinheiro na agremiação, que seja para políticas voltadas ao bem estar da população geral. Dito isso, é possível afirmar que, no caso do São Caetano, as coisas não ocorreram assim, e o clube acabou estabelecendo um vínculo de dependência com o poder público, mais organizacional do que financeiro. Aí entra a questão da diretoria, que está no poder desde 1996. É sabido que o São Caetano possuí um dos maiores patrocínios de camisa de todo o país, com valores que ultrapassam os R$ 20 milhões de reais anuais. Mesmo com tanto dinheiro disponível, a diretoria peca no planejamento, montando equipes frágeis. E o cúmulo disso tudo vai no ponto de que o atual plantel está em greve por conta de atrasos nos salários e direitos de imagem.

Isso posto, fica fácil compreender os motivos extra-campo que levaram o clube a ser deixado de lado pelos moradores da cidade. Um time que não só deixa de brilhar, mas passa o sentimento de que não pertence mais ao torcedor, pois com uma direção que está a tanto tempo no comando, sendo alvo de críticas justamente por fechar a agremiação em si mesma, impedindo a entrada de novas pessoas e ideias, fica difícil para um torcedor dizer que o clube é “seu”. Mas cabe perguntar que, caso isso não tenha ocorrido e o apoio nesse momento de crise fosse tão significativo quanto nos tempos de vitória, o que consequentemente geraria pressão por mudanças em um período de crise – em um cenário parecido com o que se vê atualmente no comando da CBF – a situação do clube chegaria a esse ponto?

O momento atual é crítico, com os jogadores reclamando salários atrasados e o clube na zona de rebaixamento para a Série D, com apenas 4 pontos conquistados em 7 rodadas. Mesmo que a permanência na Série C, ou até mesmo um eventual acesso venha, isso não será evidência de uma mudança nas estruturas já defasadas da instituição, o que é muito triste. O São Caetano atualmente é um infeliz retrato de uma parte significativa do cenário do futebol brasileiro.

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Paulista e torcedor do Santo André. Historiador, acompanha o futebol como um todo, mas sobretudo o lado mais alternativo da coisa.