A renovada Holanda e o excelente terceiro lugar da Copa de 2014

Foto: Getty Images - Mescla de jovens talentos com jogadores experientes deu à Holanda o surpreendente terceiro lugar da Copa

Foto: Getty Images – Mescla de jovens talentos com jogadores experientes deu à Holanda o surpreendente terceiro lugar da Copa

A seleção holandesa, depois de um vice-campeonato mundial em 2010 e um vexame na Eurocopa de 2012, veio ao Brasil com o intuito de fazer uma Copa do Mundo digna. O que ninguém esperava era que a Laranja, mesmo após sofrer uma intensa renovação, fosse fazer tão bonito nesta Copa.

Após o fiasco da Euro 2012, Bert van Marwijk – técnico vice-campeão de 2010 – caiu e deu lugar ao experiente Louis van Gaal, que assumiu a Laranja com o intuito de classificá-la para a Copa do Mundo de 2014 e, pelo menos, fazer um Mundial respeitável. van Gaal sabia que não poderia contar com a maioria dos jogadores que participaram da pífia campanha da Eurocopa – a Holanda terminou na última posição de seu grupo, com três derrotas. Uma renovação em seu elenco era necessária e foi exatamente neste ponto que o comandante começou a trabalhar.

O treinador investiu em talentos que despontavam na Eredivisie (de Vrij, Martins Indi, Jordy Clasie, Blind, Depay e outros) mesclados com a experiência de jogadores como Robben, van Persie, Sneijder e Huntelaar. É claro que o setor ofensivo ainda dependeria destes quatro, mas na defesa e na armação de jogadas haveria sangue novo para as próximas gerações. E o primeiro desafio desse novo time seria justamente a Copa do Mundo.

O foco da Holanda, desta vez, era passar da primeira fase e, no mata-mata, o que tivesse que ser seria. van Gaal tinha em mente que os jovens talentos ganhassem cancha no Mundial e figurassem como esperança de títulos para o trabalho dos próximos anos. O técnico, que assinou contrato apenas até o final da Copa, pretendia deixou como um legado um time para que seus sucessores Guus Hiddink e Danny Blind terminem de moldar e recoloquem a Holanda como potência do futebol mundial.

Foto: Getty Images - Louis van Gaal, o grande responsável pelo terceiro lugar da Holanda na Copa e também por dar o pontapé inicial para o sucesso de uma nova geração

Foto: Getty Images – Louis van Gaal, o grande responsável pelo terceiro lugar da Holanda na Copa e também por dar o pontapé inicial para o sucesso de uma nova geração

Porém, talvez todo o elenco não esperava que o trabalho fosse realizado de uma forma tão bem feita – e nem mesmo o holandês mais otimista. Uma acachapante goleada em cima da Espanha, com requintes de crueldade de Robben – que lavou a alma nos 5 a 1 – e vitórias sobre Austrália e Chile na primeira fase garantiram o primeiro lugar no grupo e a classificação ao mata-mata. Na fase eliminatória, virada suada em cima de México, vitória nos pênaltis contra a Costa Rica e vaga na semifinal do torneio.

Estar novamente entre as quatro melhores seleções do mundo era um grande resultado para uma seleção que tinha em mente apenas ganhar experiência com sua equipe renovada. Nesse estágio, a Argentina era a adversária que tentaria impedir os batavos de retornar à final. E, por muito pouco, conseguiu.

Após um 0 a 0 no tempo normal e na prorrogação, os hermanos venceram os holandeses nos pênaltis por 4 a 2 e os despacharam para disputar o terceiro lugar contra o Brasil. Talvez seria diferente se van Gaal pudesse repetir o plano de colocar o goleiro Krul, que defendeu duas penalidades contra a Costa Rica, no lugar de Cillessen. Mas van Persie, desgastado e com problemas estomacais que o impediram de se preparar devidamente para a partida, obrigou o técnico a queimar sua última alteração.

O terceiro lugar diante do Brasil coroou, ainda que sem um brilho dourado, o excelente trabalho de Louis van Gaal no comando da Laranja. Como contra a Espanha, van Gaal deu um baile tático no adversário e venceu a seleção canarinho por 3 a 0 – que foi pouco. O bronze na Copa do Mundo foi um ótimo resultado para quem se renovou e que tinha como objetivo apenas fazer um bom Mundial.

O sucesso deve ser creditado, claro, a todo o time – literalmente, já que a Holanda colocou todos os seus jogadores do plantel em campo, sendo a primeira seleção na história das Copas a utilizar todos os seus atletas -, mas, especialmente, a duas pessoas: van Gaal, que foi ousado nos momentos de dificuldade e acertou em todas as escolhas, e Arjen Robben que, para mim, foi o melhor jogador desta Copa do Mundo.

Foto: Getty Images - Robben não só foi o melhor jogador da Holanda, mas sim da Copa do Mundo inteira (pelo menos para mim)

Foto: Getty Images – Robben não só foi o melhor jogador da Holanda, mas sim da Copa do Mundo inteira (pelo menos para mim)

A ótima campanha da Holanda lembra muito a Alemanha de 2006, que disputou a Copa do Mundo com uma equipe totalmente renovada e que, por coincidência, também vinha de um fiasco na Eurocopa e terminou o Mundial no terceiro lugar – mesmo jogando em casa, foi um ótimo resultado para os jovens germânicos.

O Mundial de 2014 terminou para a Holanda com cinco vitórias, dois empates e nenhuma derrota, a primeira campanha invicta em Copas da história da equipe, que marcou 15 gols e sofreu apenas quatro. A rejuvenescida defesa, por vezes contestada, foi o ponto forte da seleção Laranja na Copa do Mundo.

O próximo desafio da Holanda é a Eurocopa de 2016, a ser realizada na França, e a Laranja aparecerá como uma das candidatas fortíssimas à conquista do certame. van Gaal já tocou a bola para Hiddink, o projeto que visava preparar a seleção para os próximos anos já foi iniciado. A missão de Guus, agora, é continuar no ritmo de seu antecessor, unindo ainda mais o grupo e fundamentando suas ideias para com a seleção sempre nesta equipe montada pelo futuro treinador do Manchester United.

Foto: Getty Images - Guus Hiddink tem a missão de continuar o excelente trabalho de van Gaal e levar a Laranja ao título da Eurocopa 2016

Foto: Getty Images – Guus Hiddink tem a missão de continuar o excelente trabalho de van Gaal e levar a Laranja ao título da Eurocopa 2016

Provavelmente os holandeses contarão com os jogadores mais experientes na Euro 2016. Porém, uma das missões de Hiddink também é preparar substitutos para Robben, van Persie e Sneijder. No quesito tática, provavelmente a Laranja sofrerá alterações e voltará a jogar no seu tradicional 4-3-3, alterado às vésperas da Copa do Mundo em decorrência da lesão de Kevin Strootman, motor da equipe.

Após a Euro, quem assume a Laranja é Danny Blind, que já está se preparando para o cargo: esteve na comissão técnica de van Gaal e estará na de Hiddink, tendo o máximo de contato possível com o time que, em dois anos, irá comandar. Além de moldar talentos para o futuro, a Confederação Holandesa prova que também tem um projeto a longo prazo, um planejamento que está no caminho certo, como aconteceu com a Alemanha, que iniciou um trabalho após a Copa de 2002 que, em 2014, rendeu-lhe o tetracampeonato Mundial.

Atualmente, no futebol, apenas talento não basta. É preciso inovação tática, investimento em jogadores jovens para o futuro e muito planejamento para a posteridade. A Alemanha fez exatamente isso e teve como recompensa o título da Copa do Mundo, a Holanda faz isso (de seu jeito) e tem tudo para colher frutos mais para frente, seja em Mundial ou Eurocopa. Fica mais uma boa dica para a CBF, que, por ter a camisa mais pesada do futebol, precisa ter a humildade de seguir estes bons exemplos e, passo a passo, voltar ao topo do esporte bretão, local de onde jamais deveria ter saído.

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Estudante de Jornalismo. Foi editor de futebol alemão e holandês na VAVEL Brasil e cofundador da VAVEL Portugal. É blogueiro do Bayern no ESPN FC (projeto da ESPN Brasil) e completamente Doente por Futebol.