Alemanha x anfitriã: a história se repete 12 anos depois

Foto: Reprodução

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No dia 25 de junho de 2002, a seleção alemã teria um duro desafio pela frente em Seoul. Encarando um mar vermelho, a Nationalelf tinha a chance de voltar a uma final de Copa do Mundo após 12 anos. A invencibilidade no Mundial daquele ano era posta à prova.

Chegar para aquela semifinal já era o sinal dos novos tempos na Alemanha. Em 1998, na Copa do Mundo da França, os alemães terminaram em 7º lugar, mas a campanha ficou marcada pela eliminação para a Croácia em vexatório 3×0. Dois anos depois, na Eurocopa realizada na Bélgica e na Holanda, a vergonha foi maior: um ponto somado em três jogos na competição e lanterna na chave que ainda tinha Portugal, Inglaterra e Romênia, configurando a pior campanha de sua história.

Do vexatório desempenho no torneio europeu, 12 jogadores viajaram também para a Ásia para a disputa da Copa do Mundo. O número poderia ser considerado alto, mas a essência seria diferente. O técnico Erich Ribbeck foi mandado embora e nunca mais treinou um time ou seleção (tinha 65 anos). Para seu lugar, veio o ex-centrovante Rudi Völler, que nunca havia atuado como treinador.

Participante de duas Copas do Mundo como jogador, Völler ainda varreu alguns atletas experientes do elenco. Os mais sentidos foram Lothar Matthäus, que se aposentou, e Mehmet Scholl, este enfrentando uma das várias lesões que sofreu ao longo da carreira.

Fardo das derrotas

Apesar das mudanças, a Alemanha daquela Copa parecia destinada aos postos secundários, principalmente por ter como principal atleta Michael Ballack, jogador sinônimo de fracasso entre o fim dos anos 90 e início dos 2000. Na época, o camisa 13 alemão defendia o Bayer Leverkusen, clube que nunca conquistou a Bundesliga. Em 2000, um dos anos em que o título esteve mais próximo, Ballack marcou um gol contra na última rodada da competição na derrota por 2×0 para o Unterhaching, quando um empate bastava para dar a sonhada Salva de Prata ao time das aspirinas.

Para piorar, em 2001/2002, o Leverkusen foi vice-campeão alemão (tendo vantagem de cinco pontos nas últimas três rodadas), da Copa da Alemanha e da Liga dos Campeões – o “Treble Horror”. Ballack era o astro do time, e, certamente, um dos mais criticados pelas derrotas.

Somando todos esses fatores, a Alemanha bateria de frente com uma motivada Coreia do Sul. Jogando em casa e com o apoio de milhões de torcedores, os primeiros asiáticos semifinalistas mundiais bateram gigantes em 2002. Para chegar até aquele dia 25, os sul-coreanos passaram pela Itália (vice-campeã europeia em 2000) e pela Espanha (então considerada uma das melhores gerações do país).

Entretanto, os feitos asiáticos ficaram em segundo plano em função da arbitragem. Contra a Azzurra, na vitória por 2×1 no extinto gol de ouro, o astro italiano Francesco Totti foi expulso na prorrogação em um lance em que muitos apontariam pênalti. O árbitro equatoriano Byron Moreno entendeu como simulação e deu o segundo amarelo ao camisa 10. Fora isso, uma série de impedimentos estranhos foram assinalados contra a Itália, em lances que poderiam ocasionar o gol europeu.

Contra a Fúria, o benefício aos sul-coreanos ficou mais escancarado. Os espanhóis tiveram dois gols surrupiados pelo egípcio Gamal Al-Ghandour. No primeiro deles, anotado por Ivan Helguera, ele viu falta do zagueiro em lance no qual o espanhol era puxado. No segundo tento, o mais marcante deles, anotado por Fernando Morientes, foi marcada saída de bola em cruzamento de Joaquín em que a gorduchinha pouco toca a risca da linha de fundo. Os sul-coreanos conseguiram avançar nos pênaltis.

Estava mais do que nítido que não eram apenas 11 jogadores que a Alemanha enfrentaria naquela terça-feira. Porém, coincidência ou não, o suíço Urs Meier, responsável por comandar a semifinal, era o único europeu que havia apitado uma partida da Coreia do Sul… E foi justamente no único empate da seleção asiática comandada por Guus Hiddink na fase de grupos (1×1 diante dos Estados Unidos).

Hora H

Retrospecto à parte, era chegada a hora do confronto. Mais de 65 mil pessoas protagonizaram um belíssimo espetáculo no Estádio de Seoul, no qual 11 alemães enfrentaram uma nação sul-coreana. Em jogo estava uma vaga na decisão do Mundial. Para a Alemanha, algo que não acontecia há mais de uma década; para o futebol asiático seria um feito incomparável.

Era o famoso jogo de gente grande. Talvez não fosse Ballack esse gigante que muitos pensavam, nem Bernd Schneider ou o artilheiro Miroslav Klose. Precisou alguém com cara de mal, que já havia passado por poucas e boas na carreira, para decidir. Falo de Oliver Kahn, aquele que estava no gol quando o Bayern perdeu a Liga dos Campeões de forma inacreditável para o Manchester United em 1999, mas que deu a volta por cima dois anos depois, sendo o herói na disputa por pênaltis contra o Valencia. Ele que também viu do gramado sua seleção fracassar em uma Copa do Mundo e Eurocopa em sequência. Kahn não aguentaria mais um tropeço.

Com defesas importantes, especialmente no primeiro tempo, o Titã alemão fez o placar permanecer intacto nos primeiros 45 minutos.

Na etapa complementar, os alemães passaram a rondar perigosamente a área adversária, mas quase sempre no “abafa” e obtiveram pouco resultado. Para piorar a situação, a arbitragem voltaria à pauta germânica. Em rápido contra-ataque puxado por Lee Chun-Soo, Ballack, a esperança de dias melhores, só conseguiu evitar o pior com falta e recebeu o cartão amarelo. Caso avançassem à final, os alemães não teriam o camisa 13, suspenso. A falta talvez não gerasse discussões quanto ao merecimento da advertência, já que era um ataque perigoso brecado com infração, mas até hoje os alemães lamentam a suspensão.

Ballack, porém, conseguiu fazer o que não foi capaz pelo Leverkusen: foi decisivo. Poucos minutos depois de saber que não jogaria a final caso o time avançasse, ele recebeu cruzamento da direita efetuado por Oliver Neuville. Gritando para Bierhoff sair da frente, ele chegou e finalizou duas vezes para marcar o primeiro e único tento da partida, secando o mar vermelho de Seoul.

Era o gol da redenção. O gol que levava a Alemanha de volta a uma final de Copa após 12 anos (o final disso tudo todos nós sabemos, não é, Ronaldo?). E, novamente, uma dúzia de anos depois, os germânicos podem repetir o ritual: enfrentam a seleção anfitriã da Copa do Mundo na fase semifinal. Os brasileiros não querem que a história se repita, mas, sem Neymar, muitos se sentem desanimados e apenas torcem para que a estigma “tetra + 24 anos” não seja concretizada (Brasil e Itália conquistaram o tetracampeonato 24 anos depois de terem ganhado o tri; a Alemanha foi tri há 24 anos).

O que talvez desanime os alemães é o outro lado da chave. Assim como em 2002, a outra semifinal tem a seleção vice-campeã na edição anterior da Copa do Mundo. Na edição asiática, era o Brasil derrotado pela França em 1998, e que viria a derrotar os germânicos na decisão; este ano, é a Holanda, derrotada pela Espanha na final de 2010.

Quem vai levar o caneco para casa ninguém sabe, mas a COPA DAS COPAS vem tendo coincidências muito bacanas do mundo da bola. Quais delas vão se concretizar? Dia 13 de julho saberemos.

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Uma mistura maluca de pessoa. Academico de jornalismo, catarinense de origens italianas e espanholas, mas apaixonado pela bola que rola na terra da Torre Eiffel e pela gorduchinha que pinta os gramados cheios de chucrute da Alemanha. Não escondo minha preferência por times que tem uniformes nas cores amarelas e pretas, mas sempre com análises bem embasadas... ou não. Mas acima de tudo, sou um Doente Por Futebol.