Até Delfim te humilhou, Felipão

Foto: Reprodução

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Delfim de Pádua Peixoto Filho é uma das pessoas mais odiadas e, ainda assim, influentes do futebol de Santa Catarina. Ele se elegeu presidente da Federação Catarinense de Futebol (FCF) em 1985 e continua no cargo até hoje. No último dia 10 de junho, ele foi novamente reeleito para mandato que se estenderá de abril de 2015 até 2019. Ao término do período, ele completará impressionantes 34 anos à frente da federação.

É inegável que o futebol do Estado cresceu neste período. O Criciúma ganhou a Copa do Brasil e se tornou o único catarinense a participar de uma Taça Libertadores; o Figueirense ficou seis anos consecutivos na elite do Campeonato Brasileiro; e hoje, Santa Catarina têm três times na primeira divisão, sendo um dos Estados com maior quantidade de clubes no torneio.

É óbvio que algum mérito ele tem, mas é bem pouco. Com o nome entrelaçado a várias falcatruas, Delfim sustenta uma antipatia com praticamente todas as torcidas catarinenses. Eu mesmo sou testemunha deste ódio. Em minha curta carreira como repórter de campo (não cheguei a cobrir nem dez jogos do Criciúma), já estive em três estádios diferentes (Heriberto Hülse, em Criciúma; Monumental do Sesi, em Blumenau; e Arena Joinville) e em TODOS ele foi xingado pelas torcidas. Chega a ser uma cena pitoresca, já que as torcidas dos dois times entoam o mesmo grito, algo que, obviamente, não acontece com a bola rolando.

O próprio Delfim não parece fazer questão de mudar a imagem diante dos torcedores. Na festa do título catarinense do Criciúma, em 2013, ele ofendeu a torcida do Tigre diante de milhares de microfones de radialistas. A prova de que ele manda e desmanda no futebol local é que o clube do Sul do Estado não tomou nenhuma atitude quanto a isso, nem mesmo soltando uma daquelas bisonhas notas de repúdio (mas quando, na época, um portal fez um slide show falando que o Criciúma era um “time de refugos”, não faltou chiadeira).

Querem outra prova disso?

Na reunião realizada no fim de 2013, que determinou o regulamento do Campeonato Catarinense do ano seguinte, a Chapecoense, que na época estava prestes a subir para a Série A do Brasileirão, simplesmente não votou. O presidente do clube Sandro Luiz Pallaoro se atrasou por ter ficado preso no trânsito de Florianópolis na hora de atravessar a ponte Hercílio Luz. Em conversa que tive com o presidente meses depois, ele esbravejou contra a FCF, afirmando que o regulamento não poderia ser definido em uma única reunião.

Como prêmio de consolação, na última reeleição de Delfim, o ex-presidente do Verdão do Oeste, Nei Roque Mohr, se tornou um dos vice-presidentes da federação.

Depois dos catarinenses, o Brasil todo terá que aturar Delfim. Ele será vice-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), ao lado do não menos criticado Marco Polo Del Nero.

Foto: Carlos Amorim

Foto: Carlos Amorim

Só por esses parágrafos, acredito que quem não conhecia passou a ter um pouquinho de desprezo por Delfim, não? E se eu te dissesse que o técnico da seleção brasileira, o bem mais precioso do futebol nacional, foi humilhado pelo presidente da federação catarinense? E é tudo verdade.

Após a vexatória derrota para a Alemanha, na semifinal da Copa do Mundo, Delfim declarou que “o tempo de Felipão já passou” e ainda teceu outras críticas duras ao técnico. Em coletiva na última quarta-feira (9), o treinador rebateu com uma arrogância ímpar: “O único título de Santa Catarina no Brasil quem deu foi eu. Ele tem que ajoelhar e pedir benção a mim. Não ganharam nunca, só comigo. Só ganharam com o Criciúma e eu era o técnico”.

Em entrevista a CBN Diário, de Florianópolis, Delfim também respondeu e humilhou Felipão, sem precisar apelar para a arrogância. “Ele não ganhou um título sozinho. Ele ganhou o título da Copa do Brasil pelo Criciúma pegando um grupo já formado. E quem ganhou também foram os jogadores e o próprio clube. Não foi só o Felipão. E ele é quem deveria agradecer a Santa Catarina e ao Criciúma, pois este título o projetou. Qual foi o clube de importância que ele treinou antes do Criciúma? Nenhum. Além disso, como jogador, ele foi medíocre, um zagueiro de chutão. Hoje, nós temos o segundo Estado do país, perdemos só pra São Paulo. Temos três clubes na Série A, temos dois clubes na Série B, temos dois clubes na Série C e temos cinco clubes que disputaram a Copa do Brasil, fato que nunca aconteceu. E eu digo que, além de desatualizado no futebol moderno ele está desinformado, e isso é triste”.

Li apenas fatos.

Se Felipão leva tudo ao pé da letra nas coletivas (afinal, o Brasil ficou entre os quatro melhores da Copa, não é?), me sinto na obrigação de levar tudo ao pé da letra também. O próprio Criciúma tem outros dois títulos nacionais: a Série B de 2002 e a Série C de 2006. Joinville e Avaí também conquistaram a terceira divisão nacional (2011 e 1998, respectivamente). Se o Gaúcho de Bigode tivesse dito que o título dele com o Criciúma (Copa do Brasil de 1991) é o “maior” ou “mais importante”, eu ficaria calado, mas como ele disse que é o “único”, me sinto na obrigação de rebater.

Além do mais, para quem não conhece a história, Felipão pegou um time montadinho em 1991. No ano anterior, o Criciúma foi campeão estadual e só caiu nos pênaltis para o Goiás, na semifinal da Copa do Brasil. O técnico era João Francisco.

Confira abaixo as escalações do Tigre na derrota para o Esmeraldino na competição nacional, na vitória sobre o Joinville, que rendeu o título catarinense, e no jogo em que Felipão “deu” o “único” título nacional de Santa Catarina:

(vs. Goiás/1990): Marola, Sarandi, Vilmar, Wilson, Itá, Roberto Cavalo, Gelson, Grizzo (Alaércio), Vanderlei, Adílson Gomes (Jairo Lenzi) e Soares;

(vs. Joinville/1990): Alexandre, Sarandi, Wilson, Evandro, Itá, Roberto Cavalo, Gelson, Grizzo (Alaércio), Adilson Gomes, Soares e Vanderlei;

(vs. Grêmio/1991): Alexandre, Sarandi, Vilmar, Altair, Itá, Roberto Cavalo, Gelson, Grizzo (Vanderlei), Zé Roberto, Soares e Jairo Lenzi;

Semelhantes, não? O que Felipão basicamente fez foi distribuir os coletes.

Foto: Portal Terra

Foto: Portal Terra

Entenda, meu caro Scolari, ninguém se ajoelha para te agradecer aqui em Santa Catarina. Somos gratos a Alexandre, Itá, Roberto Cavalo, Jairo Lenzi, Vanderlei, Cléber Gaúcho, Paulo Baier, Balduíno, Fernandes, Albeneir, Calico, Aldrovani, Zenon, Jacaré, Adílson Heleno, Lico, Adolfinho, Nardela, Adílson Fernandes, Zé Carlos Paulista, Roberto Gaúcho, Valdomiro Vaz Franco, Rubão e a tantos outros ídolos que ajudaram a construir a história do futebol local.

Você, Felipão, deveria ter o mínimo de humildade. Ao falar que “deu o único título do futebol catarinense” e que “nunca haviam ganhado nada antes de chegar ao Criciúma” deveria se lembrar de que treinou 11 clubes diferentes em nove anos antes de parar no Tigre. Deveria pensar que talvez estivesse hoje em algum clube minúsculo do interior gaúcho se não fosse o futebol catarinense, e não (passando vergonha) em uma Copa do Mundo.

Não estou querendo dizer que ninguém é grato a Felipão. No estádio Heriberto Hülse há uma bandeira com a caricatura do treinador, por exemplo (que, por acaso, não sei se permanece por lá com essa arrogância do treinador). Mas não me venha com papinho de “eu sou o cara, eu tirei vocês do ostracismo, eu sou foda” quando o tal “único título” veio de um time que nem foi você quem montou.

Nunca pensei que diria isso, mas Delfim deu uma lição em alguém. E esse “alguém” foi o técnico da seleção brasileira. Felipão perdeu uma grande chance de ficar calado ou ao menos ser inteligente. Qual a lógica de detonar o futebol catarinense? Qual o sentido em esculhambar o Estado que o projetou (sim, o Criciúma o projetou e não o contrário)? Para que isso, se quem o criticou foi o presidente da federação catarinense?

É por essas e outras que devemos parar de nos apegar aos personagens das frases e sim ao conteúdo. O exemplo é essa polêmica toda: um dos seres mais criticados do futebol de Santa Catarina desmoralizou o técnico que há uma semana era o “condutor do hexa”.

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Uma mistura maluca de pessoa. Academico de jornalismo, catarinense de origens italianas e espanholas, mas apaixonado pela bola que rola na terra da Torre Eiffel e pela gorduchinha que pinta os gramados cheios de chucrute da Alemanha. Não escondo minha preferência por times que tem uniformes nas cores amarelas e pretas, mas sempre com análises bem embasadas... ou não. Mas acima de tudo, sou um Doente Por Futebol.