Botafogo a perigo

  • por Matheus Mandy
  • 6 Anos atrás

O mês era dezembro e o ano 2008. Após seis temporadas como presidente do Botafogo, Bebeto de Freitas deixou o clube e passou o bastão para o dentista Maurício Assumpção, que pela primeira vez aparecia no cenário político do clube. Com um discurso politicamente correto, o novato Assumpção alegava que o melhor era ter um elenco barato, mas com condições de se pagar.

Em sua primeira temporada, quase um desastre. Após o vice-campeonato carioca, o clube caiu na segunda fase da Copa do Brasil para o modesto Americano-RJ e só escapou do rebaixamento para a Segunda Divisão na última rodada. No ano seguinte, já mais experiente, o resultado foi outro: título estadual e quase uma vaga na Libertadores, que só não veio devido a uma derrota na última rodada para o Grêmio.

Porém, se no campo o resultado mudou, fora dele os números assustavam. Segundo matéria publicada em 6 de maio de 2011 pelo Lance!, a dívida do Botafogo com encargos praticamente dobrou de 2008 até 2010, pulando de R$ 15,8 milhões para R$ 31,8 milhões. Também foi nesta temporada que o primeiro jogador contratado na gestão de Maurício Assumpção acionou o clube judicialmente: o atacante Reinaldo, ex-Flamengo e PSG, porém o processo ainda tramita.

Em 2011, Assumpção foi reeleito, já que era chapa única. Na temporada seguinte, novamente um retrato parecido do que aconteceu em 2010: finalista do Carioca, o Botafogo caiu cedo na Copa do Brasil e perdeu a vaga na Libertadores nas últimas rodadas. Porém, no ano seguinte, ocorreu o que seria o maior feito da gestão: a contratação do craque holandês Seedorf.

O ano de 2013 foi o melhor até aqui da gestão – dentro de campo. O Botafogo conquistou com sobras o Campeonato Carioca, de maneira antecipada, enquanto na Copa do Brasil parou nas quartas de final para o campeão Flamengo. No Brasileiro, acabou com a quarta posição – a melhor desde o título de 1995 -, conquistando a vaga na Libertadores.

Entretanto, foi justamente em 2013 que o caos financeiro começou. Atolado em dívidas, o Glorioso vendeu Elkeson ainda no início da temporada. No mesmo ano, tentando quitar seus débitos, negociou o lateral Márcio Azevedo, os meio-campistas Andrezinho, Jadson e Fellype Gabriel, além do atacante Vitinho.

Mesmo vendendo todos estes jogadores, nem mesmo metade dos R$ 85 milhões faturados entraram no clube. Conforme matéria do próprio Doentes por Futebol, a diretoria do Botafogo mantém a política de vender pequenas porcentagens dos passes dos atletas para ir honrando seus compromissos e assim apenas R$ 39 milhões entraram nos cofres, ou pelo menos deveriam.

A Justiça Trabalhista descobriu através de investigação que a diretoria do Botafogo não estava cumprindo seu compromisso do Ato Trabalhista, segundo o qual era obrigado a repassar uma pequena porcentagem de seus rendimentos ao órgão, visando quitar seus débitos. Em 31 de julho de 2013, conforme publicação do Diário Oficial, o Glorioso foi expulso do Ato Trabalhista, pois a investigação confirmou que o clube usava a CIA Botafogo – empresa criada para gerir o Engenhão – para administrar parte das receitas, fazendo com que o Botafogo de Futebol e Regatas tivesse uma entrada financeira menor do que a deveria ter, repassando assim, uma quantia bem inferior para a Justiça Trabalhista.

Segundo o ex-presidente do clube, Bebeto de Freitas, a atual diretoria teria sonegado R$ 95 milhões. Porém, o presidente do Botafogo nega esta informação.

A situação botafoguense é pior do que muitos imaginam, já que neste ano, devido ao atraso salarial, os jogadores até se recusaram a jogar uma partida amistosa na Paraíba. Segundo os próprios atletas, o atraso é de 90 dias na carteira, além de 150 dias de direitos de imagem. Toda a receita do clube, seja ela das cotas de TV, renda, patrocínio, e negociação de atletas está bloqueada pela Justiça.

Dívidas atuais só aumentam

À medida em que as informações vêm à tona, os números se tornam mais assustadores. Segundo levantamento de “O Estado de S. Paulo”, publicado pelo SPORTV, a dívida com impostos e encargos federais do Botafogo hoje é de R$ 350,9 milhões. Isso significa que, de 2008 até 2014, as dívidas tiveram um aumento de quase 2250% (isso mesmo, DOIS MIL DUZENTOS E CINQUENTA POR CENTO). Somando-se às dívidas trabalhistas, o montante é de mais de R$ 700 milhões, totalizando R$ 349,1 milhões em débitos trabalhistas, número muito maior do que os R$ 220 ao fim de 2008. Matheus Mandy.

Panorama político

O mandato de Maurício Assumpção termina no dia 31 de dezembro deste ano e, pelo estatuto do clube, ele não pode concorrer ao pleito – dois mandatos seguidos é o máximo permitido. Até agora, três chapas foram lançadas e a que mais agrada aos torcedores é a de Marcelo Guimarães, ex-diretor de Marketing do clube.

 Situação complica ainda mais na reta final

Segundo matéria publicada no GloboEsporte.com na tarde deste dia 30, a empresa Romar Representações LTDA firmou contrato com o Glorioso em 2010 e intermediou as negociações do contrato de patrocínio do clube com o Grupo Vitton 44. A empresa teria direito a 5% de qualquer valor do contrato assinado.

O problema segundo a matéria é que a empresa pertence à família do presidente Maurício Assumpção. Fundada em 1993, tinha inicialmente como sócios o irmão do mandatário alvinegro e sua madastra. No ano de 2005, Marcelo, irmão de Maurício, saiu da sociedade, dando lugar ao pai. Entretanto, com o falecimento do mesmo no fim do ano passado, Marcelo voltou a figurar no contrato social da empresa e chegou a fazer participações para o programa “Botafogo Experience”

Nestes quatro anos, a empresa já teria faturado mais de R$ 3 milhões. Ainda na mesma matéria, Maurício Assumpção negou ter qualquer envolvimento com a Romar Representações.

O DPF apurou que a empresa é sediada em uma cobertura na Rua Jorge Emílio Fontenelle, no bairro Recreio dos Bandeirantes, Rio de Janeiro, no Edifício Pereira Carvalho.

Opinião do Torcedor

A matéria do competente repórter do Ge.Com, Vicente Seda é estarrecedora. O Conselho Deliberativo do Botafogo deve já interceder. A situação do clube é caótica e é, no mínimo estranho que uma empresa vinculada à família do presidente do clube morda uma fatia de 5% dos contratos de patrocínio com o Grupo Vitton 44. Não adianta o Maurício Assumpção falar que deixou de praticar sua profissão por isso, pois nenhum torcedor pediu isto a ele. Quando o mesmo se candidatou ao cargo e também na reeleição, sabia muito bem onde estava pisando. De longe, esta crise supera a do ano de 1993. E o futuro é mais do que tenebroso.

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Nascido em Santo Antônio de Pádua, Mandy começou com jornalismo em 2004 e em 2010 se formou na área. Trabalhou na Inter TV da Globo em Campos, TV Record e foi editor de esportes da Folha da Manhã, maior jornal do interior do rio. Também trabalhou na assessoria de imprensa do Instituto Federal Fluminense e de clubes do Rio de Janeiro.