Campeões de tudo

  • por Henrique Joncew
  • 3 Anos atrás
A Alemanha é tetracampeã mundial. Incontestável, o título é fruto de muitro trabalho.

A Alemanha é tetracampeã mundial. Incontestável, o título é fruto de muito trabalho.

A Alemanha, que se reinventou após a Copa de 2002, chegou ao tetracampeonato da Copa do Mundo no Maracanã, um dos principais estádios do futebol. A conquista foi merecida não só pelo planejamento, mas pela bola. A Nationalelf, já na Copa de 2010, era a melhor Seleção do planeta, ainda que tenha caído perante o tiki-taka espanhol na semifinal. Por tudo que apresentou dentro e fora de campo por tanto tempo, simplesmente não podia vir ao Brasil e voltar sem a taça.

REVOLUÇÃO

O vice-campeonato mundial com um time um tanto feio em 2002 marcou início de profundas transformações no futebol alemão. Depois de cair duas vezes nas quartas-de-final nas Copas de 94 e 98 com um futebol antiquado, a Alemanha decidiu se reconstruir. Para isso, investiu em fornecer condições apropriadas para formar jogadores e fortalecer de forma economicamente sustentável a liga local. A queda na Eurocopa de 2000 ainda na fase de grupos sem sequer marcar gols só reforçou a necessidade de mudar.

Kahn sofre gol na Euro 2000. Eliminação alemã na primeira fase foi só uma prova da necessidade de mudança.

Kahn sofre gol na Euro 2000. Eliminação precoce foi prova da necessidade de mudar.

Todos os clubes da primeira e da segunda divisão passaram a ser obrigados a ter e investir em escolinhas de futebol (e a Federação obrigou que os times mais ricos ajudassem os mais pobres a formar suas academias), além disso, foram criados centros nacionais de treinamento sem vinculação com clubes. O método de treinamento visa a aprimorar a técnica das futuras estrelas, e varia segundo a idade, em aspectos como dimensão do campo e quantidade de jogadores em cada time. Ainda, as escolinhas também representaram oportunidade para que os descendentes de estrangeiros, então menos identificados com as equipes, passassem a treinar e adicionar diversidade ao estilo de jogo a ser desenvolvido.

Na Liga, foram impostas restrições orçamentárias e fair-play financeiro. O preço dos ingressos foi congelado e a distribuição de renda entre a população da cidade de cada estádio é levada em conta na determinação da quantidade de entradas para cada setor [CARECE DE FONTES]. Ainda, é proibido que algum sheik ou magnata resolva brincar de FM na Alemanha. Os clubes não podem ser comprados. Assim, progressivamente, a Alemanha deixou de buscar jogadores fora do país e hoje não só revela grandes talentos como tem o campeonato mais rentável do planeta e não à toa é referência quando se fala em futebol moderno no que tange à tática e à adaptação de esquemas aos jogadores disponíveis.

ZICA

A saga da Copa do Mundo começou antes do Mundial. Enfrentando uma tremenda maré de azar, os alemães tiveram que se acostumar a jogar sem importantes jogadores de seu elenco: o lateral esquerdo Schmelzer, os volantes Gündogan e os gêmeos Lars e Sven Bender e o centroavante Mario Gómez se lesionaram e não poderiam vir ao Brasil.

Reus foi uma das perdas alemãs para a Copa do Mundo (Fonte: EFE).

Reus foi uma das perdas alemãs para a Copa do Mundo (Fonte: EFE).

Uma vez convocada a equipe, o atacante Marco Reus também foi cortado após torcer o tornozelo em um amistoso de preparação contra a Armênia. Como se isso não bastasse, nove jogadores se apresentaram lesionados ou recém-recuperados de lesão: o goleiro Neuer, os zagueiros Mertesacker e Hummels, o “lateral/volante” e capitão Lahm, os volantes Schweinsteiger e Khedira, o meia Özil e os atacantes Podolski e Klose. Quatro deles (Hummels, Khedira, Schweinsteiger e Podolski) inclusive desfalcaram o time durante o torneio por seus problemas físicos. Mas calma, ainda tem mais! O zagueiro Mustafi (convocado para a vaga de Reus) se machucou nas oitavas-de-final contra a Argélia e perdeu o resto da competição. Pensa que acabou? Faltou dizer que sete atletas ficaram gripados antes das quartas de final contra a França, inclusive o atacante Thomas Müller. 

Ufa! Terminou a lista. Ou não: o joelho de Hummels e a virilha do zagueiro Boateng viraram dores de cabeça para os médicos alemães já perto do fim. E como azar pouco é bobagem, Khedira, escalado para a final, se lesionou no aquecimento e ficou fora do jogo. Haja zica!

SIMPATIA

Balsa, polícia, crianças, índios, torcida e camisas. A Alemanha curtiu, e muito, o Brasil.

Balsa, polícia, crianças, índios, torcida e camisas. A Alemanha curtiu, e muito, o Brasil.

A Federação Alemã escolheu Santa Cruz Cabrália, na Bahia, para construir seu centro de treinamento. A primeira foto do time foi andando de balsa para chegar à cidade. A simples imagem da equipe em um contexto que muito turista conhece iniciou o processo de identificação entre Alemanha e Brasil.

Às margens do Atlântico, os jogadores desfrutaram plenamente da viagem. Interagiram com a população, receberam e dançaram com os índios da tribo Pataxó, visitaram escolas, cantaram com torcedores e aprenderam a dançar as músicas da moda. Ainda, quando viajaram para as sedes de suas partidas, divulgavam fotos com camisas de times locais e visitavam colegas. Humildemente, os alemães convidaram os brasileiros a serem amigos, a brincar e a participar a Copa do Mundo.

Ninguém esperava alemães tão bem humorados, calorosos e receptivos. Sem dúvidas, três jogadores tiveram destaque no quesito carisma: Schweinsteiger, Neuer e Podolski. Este último, então, não causaria choque se anunciasse que ficaria no país após o Mundial. Foram inúmeros tuítes, mensagens e fotos. Podolski quase não jogou na Copa, mas isso pouco importou. Se dependesse da população, o polonês radicado na Alemanha seria eleito o craque da Copa com larga vantagem. Para quem está acostumado com estrangeiros sisudos e frios, é estranho.

“TRABALHO, MEU FILHO, TEM QUE TER TRABALHO…”

Entre balsas, índios, escolas, hashtags, músicas do Bahia, camisas do Flamengo e Lepo Lepos, houve quem achasse que esse grupo faceiro demais treinava de menos. Era uma pena que jogadores tão bons perdessem tempo brincando. Quando pegassem um adversário qualificado, voltariam cedo para casa.

Na verdade, é uma pena que exista quem não saiba que se deve separar a hora de trabalhar e a hora de se divertir. Em toda a campanha, a Alemanha teve apenas dois dias de folga e um treino aberto. O time treinou forte, observando com sabedoria as limitações físicas de alguns importantes componentes da equipe, como Schweinsteiger, Lahm, Khedira e Neuer. Os jogadores entendiam que os passeios deveriam ser reservados ao tempo livre depois de treinar duro. Simples profissionalismo, mas, para quem está acostumado a ver preparação em clima de Big Brother, é estranho.

“… E A MÃO DO ESPECIALISTA”

Joachim Löw não foi cabeça-dura e mudou a forma de jogar da equipe (Fonte: Getty).

Joachim Löw não foi cabeça-dura e mudou a forma de jogar da equipe (Fonte: Getty).

Joachim Löw, que sofria com as críticas (inclusive nossas), admitiu o erro de escalar Philipp Lahm como volante e o recuou para sua posição de origem: a lateral direita. Lá, o capitão exibiu ótimo futebol e o time entrou nos trilhos do sucesso. Diante das más atuações de Götze, o treinador também se rendeu à necessidade de escalar um centroavante e lançou Klose na reta final. Simples senso de observação e humildade, mas, para quem está acostumado a técnicos inflexíveis e arrogantes, é estranho.

FUTEBOL

Para quem não simpatizasse com a Alemanha pelo extra-campo, ainda restava o argumento do futebol. A Nationalelf não se acertou logo de cara, mas desde o início mostrou um jogo envolvente, com muitas trocas de passe e movimentação. O sub-rendimento da equipe gerou receio. Onde estava aquela Alemanha dinâmica de 2010? Uma goleada em Portugal com 10 jogadores não foi suficiente.

Toni Kroos ganhou liberdade para armar o jogo ofensivo e Thomas Müller se movimentava de forma alucinante. De resto, Götze decepcionava, Özil vagalumeava, as laterais tinham zagueiros improvisados e Lahm não se encontrava como volante. O potencial existia, mas não emergia.

Kroos (esquerda) foi o organizador de jogo e Müller (direita) foi o artilheiro da Alemanha na Copa.

Kroos (18) foi o organizador de jogo e Müller (13) foi o artilheiro da Alemanha na Copa.

Quando Schweinsteiger ganhou condição de jogo, o time começou a se acertar. O volante garantiu qualidade e confiança para a saída de bola, mas a Alemanha ainda propunha muito volume de jogo com poucos jogadores para trabalhar as jogadas no ataque e sem uma referência na área.

Foi preciso encarar um jogo sofrido de mata-mata e uma lesão grave para começar a se acertar. Mustafi, que era improvisado na lateral direita contra a Argélia em um dos melhores jogos da Copa, sentiu a coxa esquerda e obrigou Löw a colocar Khedira em campo e deslocar Lahm para aquela posição. O capitão melhorou em muito seu futebol e ajudou o time, sendo sempre opção para atacar o adversário pelos flancos, e o volante, à vontade em sua posição, apoiava melhor sem se esquecer de suas obrigações defensivas. O volume de jogo etéreo havia ganhado corpo e se tornado perigoso, e Müller, que assistiu para o gol de Schürrle, mostrou que poderia ser melhor aproveitado com liberdade para se deslocar.

E isso foi provado contra a França, nas quartas-de-final. A Alemanha passou ao 4-1-4-1, contando ainda com a entrada de Klose. Schweinsteiger tornou-se o volante mais recuado e Khedira oferecia-se como opção mais ofensiva. Müller saiu da área e se movimentou pela direita, por onde Lahm sempre chegava como opção e desafogo da equipe. Não foi uma partida brilhante, Neuer teve que trabalhar (e bem), mas a Alemanha também criou oportunidades além do gol da classificação. O time estava armado.

MASSACRE

No futebol, uma goleada por 4×0 ou 4×1 entre dois grandes times causa espanto, mas não é nada alienígena. Também há precedentes de vitórias por 5×0, 5×1 e 5×2. Forçando a barra, apesar de inusitado, é possível um gigante aplicar seis gols em 
uma vítima qualificada, dependendo da fase.

7×1 é um placar raro hoje em dia. Remete aos tempos antigos do futebol, quando pouca gente sabia jogar bola e maltratava quem ainda estava aprendendo. Mas entre times grandes, não existem muitos placares do tipo.

A questão é que a Alemanha fez 7×1 no Brasil. Não só no Brasil, no Brasil em casa. Não só no Brasil em casa, no Brasil em casa em Copa do Mundo. Não só no Brasil em casa em Copa do Mundo, no Brasil em casa em Copa do Mundo na semifinal. A maior humilhação da história do futebol foi a obra-prima da excelente Seleção Alemã. Um alento inclusive para a memória de Barbosa, tão injustamente penalizado de 1950 até o fim de sua vida. O vexame foi extremamente maior e sem bode expiatório: foi de todo o futebol brasileiro.

Klose tornou-se o maior artilheiro da história das Copas contra os donos da casa e na frente de Ronaldo, recordista anterior.

Klose tornou-se o maior artilheiro das Copas contra os anfitriões e diante de Ronaldo, recordista anterior.

A Nationalelf pegou pesado para escancarar o atraso do futebol brasileiro. Expôs todas as falhas e se aproveitou de cada uma. Cinco gols em meia hora, em atuação sublime de Toni Kroos, que se firmava como melhor jogador da equipe na Copa e com bofetada de Klose, que ultrapassou Ronaldo e tornou-se o maior artilheiro da história das Copas do Mundo, eliminando o time do Fenômeno diante dos olhos do próprio.

Ainda, a Alemanha foi extremamente respeitosa. Ao contrário dos brasileiros, que, quando em vantagem, começaram a dar dribles para trás e sem objetividade, menosprezando o adversário, os germânicos continuaram fazendo gols e criando oportunidades. Na defesa, Neuer também trabalhava, defendendo muito bem as chances do Brasil e ficando furioso ao sofrer o gol de Oscar.

Após a partida, os alemães mostraram seu respeito pelo futebol brasileiro, deram apoio e demonstrações de carinho à torcida. De novo, esbanjaram carisma.

PRETO, VERMELHO E DOURADO

A final da Copa do Mundo de 2014 foi o ápice da reforma do futebol alemão. O trabalho que teve início no raiar dos anos 2000 vislumbrava um futuro 10 anos distante. Lahm, Mertesacker, Schweinsteiger e Podolski foram os primeiros representantes da nova era, em 2006. Os demais vieram surgindo e mostrando força desde cedo, conquistando títulos europeus nas categorias sub-21, sub-19 e sub-17. As exceções são Weidenfeller, goleiro reserva, e Klose. Porque o maior artilheiro da história das Copas precisava de um troféu e o futebol não teve coragem de ser injusto desta vez.

Inúmeros problemas físicos não impediram a Alemanha de conquistar o merecido tetracampeonato. Os campeões do mundo contam com jogadores de técnica apuradíssima, capazes de controlar a partida com inteligência, trocar passes até a pequena área e, sem egoísmo, entregar a bola sempre para quem está melhor posicionado para marcar. Foram 18 gols marcados, distribuídos entre Khedira (1), Özil (1), Hummels (2), Kroos (2), Götze (2), Klose (2), Schürrle (3) e o artilheiro Müller (5). Este, com 10 gols em Copas do Mundo aos 25 anos, vislumbra no futuro a possibilidade de desbancar o colega Klose no topo da artilharia dos Mundiais. Neuer foi vazado apenas 4 vezes.

Ganhou um futebol de alto nível praticado com alegria e leveza. Um futebol feliz.

Montinho alemão. Ganharam tudo, que comemorem como bem entendam!

Montinho alemão. Ganharam tudo, que comemorem como bem entendam!

SIMBOLISMO

Um gol geralmente tem um ou dois personagens: aquele que marca e, quando a jogada não é individual, aquele que dá o passe final.

Schürrle e Götze foram os primeiros jogadores nascidos após a unificação da Alemanha a serem convocados para a Seleção nacional.

Schürrle fez o cruzamento e Götze marcou o gol do título alemão. Um gol 100% alemão e um título 100% alemão. Não tem asterisco, Ocidental ou Oriental. Para um país que quer tanto deixar a História para trás e poder entoar seus cantos sem a reprovação alheia, o futebol tem uma função deveras importante. A Alemanha pode se orgulhar um pouco mais de ser Alemanha. Só Alemanha.

Götze e Schürrle: o gol da Alemanha. Só Alemanha.

Götze e Schürrle: o gol da Alemanha. Só Alemanha.

MAIS SIMPATIA

Os alemães homenagearam o amigo Reus com a vitória... (Fonte: Getty)

Os alemães homenagearam o amigo Reus com a vitória… (Fonte: Getty)

A festa em preto, vermelho e amarelo no Maracanã, obviamente, foi animada, liderada por Schweinsteiger. Mas, durante a comemoração do tetracampeonato, a Seleção Alemã ainda se lembrou de realizar pequenos gestos de homenagem.

O primeiro foi destinado a Marco Reus. Posando para a foto oficial de campeões do mundo, os jogadores exibiram uma camisa com o nome do atacante cortado às vésperas do torneio. E mostraram que a melhor homenagem é vencer e dedicar o título a alguém, não exibir camisa precocemente. O segundo gesto foi mais bonito. Os tetracampeões fizeram um círculo em volta da taça e imitaram a dança dos Pataxós que os visitaram em Santa Cruz Cabrália. Em meio à euforia da vitória, um pequeno momento indígena e uma homenagem à aventura germânica no Brasil.

... e também os índios Pataxó.

… e também os índios Pataxó.

LEGADO

Além de consagrar o planejamento inteligente, moderno e sustentável do futebol, o tetra da Alemanha escancarou as mazelas e o atraso do futebol brasileiro diante dos olhos de todo o planeta. O Brasil tem uma excelente oportunidade para seguir o exemplo alemão e repensar tudo a respeito da gestão do esporte no país (se isso vai acontecer é outra história).

Melhor ainda, a Federação Alemã doou 10 mil euros à Aldeia Pataxó, construirá um campo de futebol e fornecerá materiais e móveis às escolas da região que recebeu também a Nationalelf na Bahia. O Centro de Treinamento será transformado em um condomínio de luxo e abrigará uma escola de hotelaria.

Os alemães foram embora, mas deixaram 10 mil euros para a aldeia Pataxó.

Os alemães foram embora, mas deixaram 10 mil euros para a aldeia Pataxó.

CAMPEÃ DE TUDO

1. Neuer, 2. Grosskreutz, 3. Ginter, 4. Höwedes, 5. Hummels, 6. Khedira, 7. Schweinsteiger, 8. Özil, 9. Schürrle, 10, Podolski, 11. Klose, 12. Zieler, 13. Müller, 14. Draxler, 15. Durm, 16. Lahm (capitão), 17. Mertesacker, 18. Kroos, 19. Götze, 20. Boateng, 21. Mustafi, 22. Weidenfeller e 23. Kramer foram campeões de tudo.

Não venha com conversa de Eurocopa, Copa das Confederações, nem Olimpíada. Não interessa. Os alemães ganharam a Copa das Copas, ganharam o povo, ganharam do Messi, ganharam (de muito) do Brasil, viraram índios, andaram de balsa, dançaram o Lepo Lepo, fizeram amigos, curtiram, torceram, riram e fizeram rir. Mais que a Copa do Mundo, ganharam o mundo.

Os alemães ganharam tudo, e são campeões de tudo.

Consagrado, Schweinsteiger comanda a festa alemã no Maracanã.

O Maraca é deles!

Comentários

Geólogo. Fã de futebol, Fórmula 1, paleontologia, astronomia e pirataria desde criança. Belo horizontino, cruzeirense e líbero, armador ou atacante canhoto. Tem Zidane e Velociraptor como grandes ídolos e modelos de vida. Gosta de batata frita, do espaço e de combater o crime à noite sob o disfarce de Escorpião Negro.